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10 temas para sonhar/construir uma São Paulo melhor

No aniversário de uma cidade onde a vida é tão complicada (no bom e no mau sentido) como São Paulo, talvez a melhor homenagem seja sonhar com melhorias para seus problemas crônicos, para que possamos nos orgulhar com o que há para se orgulhar daqui sem ficar colocando “poréns”.

Lembrei algumas iniciativas, de curto a mais longo prazo, que podem fazer a cidade melhorar muito.

Texto totalmente aberto a críticas, sugestões e correções nos comentários.

Conselho de representantes nas subprefeituras e conselho social

O governo Marta errou feio ao não implantar, por cálculos políticos mesquinhos, os conselhos de representantes eleitos nas subprefeituras. Em uma cidade com o tamanho de São Paulo, não tem como aproximar o poder público dos cidadãos sem descentralizar. Isso criaria maior fiscalização local das atividades dos subprefeitos, cargos historicamente (mal) usados para acomodar aliados políticos, e mal utilizados, com uma visão pequena de ser quase que apenas de zeladoria…

Além disso a prefeitura se beneficiaria de um “conselhão” da cidade, que reunisse entidades da sociedade civil para discutir suas questões, nos moldes do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do governo federal. Isso obrigaria a prefeitura a pensar, planejar e dialogar com a sociedade e daria espaços para a sociedade cobrar, acompanhar e engajar-se por São Paulo.

Alternativas/restrições para os automóveis

Não é que “São Paulo vai parar”. Já parou. Para todo o dia. Você perde um tempão e qualidade de vida com isso! E a solução tem que combinar atitudes individuais com muita presença do poder público.

As pessoas precisam analisar se no seu dia-a-dia não sai mais barato e/ou mais rápido usar o transporte público, a caminhada, bicicleta, táxi ou carona solidária. Em regiões como a Paulista e a Faria Lima o estacionamento é tão caro, que chega a ser mais barato, previsível em tempo gasto e menos estressante usar outras alternativas. Ao invés disso, insistem em usar carro toda hora, sem nem calcular se é a melhor opção.

A prefeitura tem que melhorar a rede de ônibus (me impressiona como é medíocre a relação das empresas privadas e o poder público, que não percebem o potencial, até de negócio, de uma rede de qualidade de transporte público na cidade), criar circuitos de ciclovias, também dentro dos bairros (Kassab destinou só R$ 1 milhão para ciclovias, viu Soninha?). A classe média precisa parar de ser contra corredores de ônibus, atitude escrotíssima, e passar a demandar opções de transporte público. Serra, quando eleito, enterrou um plano que tinha financiamento do BNDES para fazer 300 quilômetros de corredores de ônibus nas principais vias da cidade.

Ao invés disso, São Paulo embarca em obras viárias bilionárias e ridículas, como a ampliação de faixas da marginal, estimuladas e as vezes mesmo projetadas descaradamente por empreiteiras. São bilhões e bilhões, desde de 1990, jogados fora em obras desnecessárias, superfaturadas e voltadas para enxugar gelo e alimentar caixa 2 de campanhas eleitorais.

Governo do Estado precisa conseguir acelerar o ritmo de implantação do Metrô (se bem que esse só fica cada dia mais lento). Sem a Linha Amarela completa, até o centro da cidade, o sistema está cada dia mais perto do colapso. Seria fundamental acelerar o cronograma das novas linhas, não adiá-lo, além de planejar a construção de mais garagens e integrações do metrô com a rede de ônibus/ciclovias e trens. O programa Expansão São Paulo, do Serra, que prometia muito, foi tratado como peça de ficção/propaganda assim que Alckmin assumiu.

RECICLAGEM

Em 2000 Porto Alegre, entre outras cidades, já tinha uma coleta de lixo reciclável que humilhava São Paulo. Até hoje a reciclagem na cidade está por conta do “terceiro setor”, de cooperativas, bem intecionadas, claro, mas continua sendo uma reciclagem voluntária e de pequena escala, enquanto as empresas privadas que tem contratos com a prefeitura lucram com um serviço medíocre e o poder público não cobra efetivamente a implantação de um sistema oficial e organizado de coleta de lixo reciclável.

Tanto na questão dos contratos com serviço de ônibus, quanto dos serviços de lixo, o tamanho da leniência e pouca exigência do poder público com as concessionárias traz a minha cabeça lembranças de uma palavra que começa com c e termina com ão.

CEUs/Escolas como centros da comunidade

Os CEUs, os originais, da Marta, e até as sub-cópias do Serra, mas não as sub-sub-cópias do Kassab (que mantém o nome mas não a dimensão do projeto original) criaram circuitos de diálogos culturais centro-periferia e locais de lazer em bairros pobres de São Paulo (Mano Brown diz que quando viu o CEU, era isso que ele cantava/queria na música “Fim de semana no Parque”).

As escolas, parques e demais equipamentos públicos devem ser construídos, não só na periferia, mas especialmente nela, com a dimensão de serem centros que reúnam e ajudem as comunidades a se organizarem para terem acesso ao lazer e cultura, mas também para se organizarem, discutirem e resolverem seus problemas.

Nesse ponto, é importante notar que o Alckmin vai retomar o programa Escola da Família na rede estadual, bizarramente encerrado por Serra quando assumiu o governo do Estado de São Paulo.

Retomar o centro como coração da cidade

A cidade precisa retomar os imóveis vazios devedores de IPTU (lembrança de @lucianomaximo), negociar com eles para ocupá-los por uma política de moradia social no centro (novamente, interrompida com a chegada de José Serra ao poder). E além disso, planejar uma política de múltiplos usos – cultural, empresarial, habitacional, turístico – para o centro da cidade. As principais iniciativas hoje nesse sentido são privadas, pontuais e não muito integradas, sejam os clubes noturnos que avançam no Baixo Augusta-Centro, sejam as requalificações de edifício pela iniciativa privada, motivadas pela escassez/escalada de custo de novos terrenos. A principal iniciativa da prefeitura, o projeto para a Cracolândia, é mais um uso do poder público como incorporadora/demolidora para lucros privados.

Planejamento urbano com visão ambiental/freio na voracidade imobiliária

Essa não é uma questão simples, mas São Paulo precisa colocar freio e exigir contrapartidas (públicas, não a propina usual) do voraz mercado imobiliário, principalmente em grande projetos. O Center Norte, por exemplo, era uma região de várzea do Tietê que foi toda asfaltada e elevada. Fizeram piscinão para compensar isso? E o impacto do Shopping Bourbon no trânsito? Ao mesmo tempo, São Paulo precisa de um adensamento urbano em regiões que já tem infra-estrutura instalada.

Sumaré, Pacaembu, Mandaqui, Águas Espraiadas, Tietê, Aricanduva, Pinheiros, não são nomes de ruas, bairros ou avenidas. São nomes de rios, que foram poluídos,  canalizados, retificados e muitas vezes escondidos sob concreto. Em janeiro, eles se vingam do que foi feito com eles, pegando inocentes nesse fogo cruzado. A cidade precisa rever sua ocupação de espaço e como convive com a bacia hidrográfica sobre a qual foi construída. Muitas vezes isso foi resolvido nos bairros ricos com piscinões como o Pacaembu. A solução, que envolve a Sabesp, é a revisão da nossa rede de esgotos, criação de estações de tratamento e parques lineares ao redor dos rios, e estudos e planos para contornar as cheias enquanto tivemos que conviver com elas. Muito mais do que não ter obras, me espanta como é pobre nosso plano de contingências para situações como os transbordamentos do Tietê (que com a ampliação das marginais e falta de cuidado com desassoreamento, voltaram a transbordar no governo Serra).

Conviver com o ambiente em que fomos construíndo envolve rever a ocupação de encostas e a impermiabilização do solo, o que de novo, envolve além do poder público, a população (estímulo a jardins em residências e armazenamento de água da chuva por condomínios para reuso).

Combate a pobreza – fim da birra com o governo federal

São Paulo, por uma opção política dos eleitores, no que é seu direito, assumiu essa de capital da oposição ao governo federal. Mas deveria acabar com a birra em trabalhar junto com Brasília no combate a pobreza da cidade, porque são as pessoas mais frágeis que pagam essa conta. São Paulo manda mal no cadastro do Bolsa Família (além de Serra ter acabado com o programa de complementação de renda da prefeitura) e não tem programas em escala para combater a pobreza extrema. A situação social da cidade melhorou junto com o crescimento econômico do país. Pro-uni, e geração de empregos, muitos na construção civil, mudou o cenário e a perspectiva das pessoas da periferia, que não mais “sobrevivem no inferno”, mas ao invés disso ralam muito mais que nós entre trabalho e faculdade, na luta por uma vida melhor. Mas as escolas públicas (estado e prefeitura) tem que dar condições reais de seus estudantes aprenderem tanto ou mais do que nas privadas (que não são grande coisa também).

A cidade tem que aproveitar o crescimento econômico e recursos públicos para reduzir a pobreza dentro dela.

Uso de novas tecnologias para tranparência, participação e mobilização

O governo Kassab criou o sistema que permite acompanhar nome e salários de cargos da prefeitura, e houve algumas autoridades e iniciativas aqui e e ali, como a zeladoria da Avenida Paulista, mas fez pouco além disso para usar as novas tecnologias (redes sociais, geolocalização) para que a população possa apontar problemas, ou se organizar localmente para atuar no seu bairro. O twitter da prefeitura, por exemplo é um “fala que eu não te escuto”. Imagine as possibilidades de reclamação usando o googlemaps, mobilização para discussão e ação em temas públicos, e por exemplo, orçamento participativo, usando a rede!

PS: Claro que eu não sou ingênuo de achar que os governos querem ser transparentes ou terem a população participando. Esse espaço tem que ser conquistado.

Cultura/Economia criativa/identidade

Talvez o principal termo seja que a cidade precisa se valorizar. Valorizar seus espaços únicos e históricos, sejam prédios, cinemas (como o Belas Artes), restaurantes tradicionais como O Castelões, grupos de teatro (como o Oficina ou o Vertigem) e sua fortíssima cultura urbana (hip-hop, grafite, pixo etc…).

São Paulo tem uma vocação para produção de cultura e economia criativa (publicidade, audiovisual, moda, música etc…). A prefeitura precisa estimular essa vocação e seus segmentos econômicos. Ela precisa integrar um circuito interno da cidade (como o Sesc já faz na sua rede, e os CEUs em parte) centro-periferia com circuitos de circulação estadual e nacional. Hoje São  Paulo está meio deitada em berço esplêndido cultural, se isolando de iniciativas novas que surgem pelo país (como o Circuito Fora do Eixo). No fundo, está ficando para trás. Precisa pensar em eventos como a Virada, e além, para reforçar o papel da cultura na identidade, recuperação de espaços urbanos (Praça Roosevelt), turismo etc… Usar a vitalidade cultural para recuperar bairros e regiões.

Iniciativas criativas e ambiciosas

Falta criatividade, iniciativas inovadoras e ambição de resolver os problemas. A postura da maioria da cidade, pessoas, prefeitura e muitas vezes do PT também, é pequena, mesquinha. Tirando o Cidade Limpa e a Virada Cultural do primeiro mandato do Kassab, ele não fez tantas inovações (CEU, Bilhete Único, uniforme escolar) e com tanto impacto quanto a Marta.

Um símbolo da jequeci e pensamento estreito desse governo é a falta de uma secretaria de relações internacionais. São Paulo é uma megalópole com população maior que a maioria dos países do mundo. Tem que se relacionar com outras mega-cidades, para programas de intercâmbio, parcerias culturais, obter recursos, atrair eventos.

A cidade (poder público/sociedade civil organizada/seus moradores) tem que ter uma (ou mais) visão de futuro e lutar por ela. Talvez o mais desesperador nesse aniversário de São Paulo seja isso. É que em meio a tantos problemas cotidianos, a cidade parece não ter um plano ou rumo. Ao menos um digno de reconhecimento.

O brasão diz que a cidade não é conduzida, conduz. Mas com uma mentalidade pública tacanha (não só do governo, mas de grande parte da população, como daqueles que acham que resolvem o trânsito buzinando) São Paulo sequer sabe para onde ir, e vai sendo conduzida no improviso, em meio aos ventos, chuvas, carros e caos do peso do seu próprio gigantismo…

Hora de rever esse orgulho dos seus defeitos, deixar de achar que eles são insolúveis ou comprar soluções falsas e começar a andar em direção as soluções que levarão muito tempo para se concretizarem.

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Veja e a liberdade de “prensa”

Não li, nem vou ler, a matéria da Veja sobre os supostos ataques a liberdade de imprensa feitos pelo PT/Lula/governo (devem estar se referindo às críticas contra a cobertura eleitoral e escândalos de corrupção).
Vou só aproveitar a oportunidade para explicar o pouco que sei de como funciona a liberdade de imprensa dentro da Veja. Essas informações são de alguns anos atrás, talvez tenha mudado, acho que não.
Os repórteres apuram as matérias. Mas não escrevem matérias, e sim relatórios, enviados aos editores. Os editores, em espaço separado dos repórteres, escrevem o texto, dando aquela famosa cara de que toda a revista foi escrita pela mesma pessoa, com o mesmo estilo.
O repórter, ou os repórteres, que apuraram os fatos só vão ver o texto já diagramado e com fotos, igual vai sair na revista, quando ele sair de uma impressora dentro da redação. Eles ficam lá, aguardando (aguardar é uma atividade comum lá dentro) para ver o que vai sair, tirar alguma dúvida do editor ou dos checadores de fato, e corrigir algum erro daqueles erros que eles corrigem (grafia de nome, por exemplo).

Essa é a liberdade de expressão da Veja.Os editores invertem coisas apuradas, colocam ali suas teses, opiniões, piadinhas etc…
As matérias que não são assinadas, ou foram apuradas por muita gente ou o repórter pediu para ter seu nome tirado da matéria. Mas atenção! Cada vez que um repórter pede para não assinar algo ele se queima um pouquinho dentro da redação da Veja. Ele tem que entrar entusiasmado e seguir o modelo de produção da “maior revista do Brasil”. Um recém-entrevistado para trabalhar lea foi avisado antes de entrar para trabalhar na revista, em termos amis ou menos assim, que a Veja “altera texto mesmo, tem inimigos mesmo, tem opiniões mesmo” (estou reproduzindo de memória o que quem passou pela entrevista me disse, faz tempo). No primeiro texto que ele fez e colocaram o nome dele, ele disse que o que saiu era o exato inverso do que havia no relatório da apuração.

Lembro de quatro amigos que saíram da revista. Para todos a Veja foi uma experiência pesada. Todos ficaram mais joviais, alegres e bonitos depois de saírem de lá. A frase que mais me marcou foi a de uma delas que disse “em algumas matérias que eu fiz eu me senti estuprada”. Ela não se sentiu ofendida, com seu nome mal usado. Ela se sentiu, veja o termo, violentada.

A Veja tem uma estrutura imensa de repórteres, fotógrafos, diagramadores e checadores de fato a serviço de meia dúzia de teses, preconceitos e posições dos seus editores, do Reinaldo Azevedo e do “seu” Civita, herdeiro dono do negócio. Se os fatos entram em conflito com as teses, danem-se os fatos. É liberdade de imprensa que não acaba mais para quem pode mandar. Liberdade poética, dos fatos, da realidade…Quem te juízo, assina o texto e fica quieto. É assim a liberdade de “prensa” da Veja. De prensar quem bem quiser e ignorar o que quiser.

Por exemplo: a capitalização da Petrobras (a maior do CAPITALISMO) atraiu dezenas de bilhões para novos investimentos no Brasil. Vai ter impacto no rasil pelas próximas décadas. Não tem uma matéria na edição impressa. Quando os tucanos traziam “bilhões” para as privatizações (o grosso da grana era do BNDES e fundos de pensão) a Veja gozava e colocava na capa. Se FHC tivesse feito essa capitalização (não que tivesse capacidade de construir algo assim) não seria capa com 30 páginas de louvação?

Veja não é tão importante quanto parece, nem essa discussão atual sobre liberdade de imprensa vai dar em muita coisa…Porque na realidade, não tem imprensa nenhuma sendo “atacada” (criticada sim), nem risco real de ameaças contra a democracia ou de efetiva manipulação eleitoral por parte da imprensa. A democracia está tão estabelecida, que podemos nos dar o luxo de fingir que não, como um hétero travestido de mulher no carnaval jamais será questionado na sua opção sexual.

O que existe é muito bafafá para já tentar enfraquecer um governo Dilma que controlará o congresso e evitar assim mudanças de legislação ou um aumento ainda maior de poder do PT.

Não vou então nem para eventos contra a manipulação da imprensa, nem para eventos a favor da “democracia” em clubes militares. Mas quando tiver algum evento para defender a verdadeira liberdade de imprensa e diversidade dentro da Folha, da Globo ou da Veja, pode me chamar que eu vou.

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Lula ganhou o jogo no campo do PSDB

Uma das maiores dificuldades do candidato do PSDB que o Serra escolher para o ano que vem (o próprio ou o Aécio se Serra achar que não tem chance), será a falta de discurso, apelo, apoios e projeto contra a candidata de Lula, Dilma Rousseff. Isso acontece por vários motivos, mas um deles talvez ainda tenha sido pouco falado: Lula dominou os critérios que o PSDB alardeava serem importantes para avaliar um governo.
Vejamos rapidamente:

– O Brasil atingiu o “nirvana” tucano: o “investment grade”

– Reduziu o risco país

– Aumentou as defesas contra crises financeiras internacionais.

– A Bolsa de Valores nacional e o tamanho e faturamento das principais empresas do país disparou

– Aumentou a proporção do comércio exterior em relação ao PIB

– Melhorou a relação entre exportações e importações da balança comercial

– Pagamos os empréstimos do FMI

– As reservas e mudança do perfil da dívida eliminaram a necessidade de financiamento anual em moeda estrangeira

– O país melhorou sua imagem no exterior (sendo o maior símbolo disso as Olimpíadas de 2016), aumentou sua importância no cenário internacional e influência regional.

Outro exemplo, a relação dívida/PIB estava em queda vertiginosa antes da crise financeira. Chegou a 38,8% em 2008. Ano que vem deve subir para 44% (tal relação subiu praticamente no mundo inteiro como conseqüência da crise. No Brasil, o aumento da dívida PIB foi relativamente baixo).
No ano 2000, pleno governo FHC, tal relação estava em alta constante e atingiu o pico de 55%. Em dezembro de 2001 estava em 53,36%. Sendo bastante justo, Armínio Fraga então previa muito bem que em 2010 a dívida/PIB chegaria a 35,9% mantida a sua linha macroeconomia, e caso houvesse crescimento do PIB e queda dos juros (como vinha acontecendo).
Isso significa, como dizem, que Lula, simplesmente “manteve a política de FHC”? Não é tão simples. Estou preparando cinco textos para expurgar o que penso sobre o passado, presente e futuro do Fla X Flu da política nacional: Lula do PT X FHC e Serra do PSDB. Mas resumindo, o governo Lula de fato manteve a linha macroeconômica desenhada por Armínio Fraga (faz diferença especificar) mas conseguiu isso sem executar o programa amargo que o PSDB dizia ser necessário para chegar a esse “paraíso” (sic). Vejamos:

– O governo executou apenas parcialmente a reforma da previdência do setor público. E não mudou a do setor privado para o modelo de contas individuais.

– O programa de privatizações foram paralisadas quase que completamente. Não houve nada da escala de uma Vale, Banespa, Sistema Telebrás, Embraer ou blocos de ações da Petrobrás. Ao contrário. O governo adquiriu empresas e reforçou a atuação, principalmente dos 3 bancos federais (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES)

– Não houve reforma trabalhista. Ao contrário, aumentou a fiscalização e formalização do mercado de trabalho

– Os sucessivos ganhos reais dos salários mínimos não causaram inflação ou desordem nas contas públicas

– Não precisamos abrir mais o mercado interno para produtos e serviços, com propunha a Alca ou a OMC, para termos maior acesos aos mercados e aumentarmos exportações. A China e a política de diversificação dos mercados se encarregaram disso

– O aumento de pessoas e salários no funcionalismo público em escala razoável não causou o caos. Acabou a precarização planejada de setores e instituições públicas como o sistema de universidades federais e várias autarquias. Está longe de ser o ideal, mas para vários setores foram feitos planos de carreira, concursos foram abertos etc…

Ou seja: O PT atingiu as bandeiras do PSDB ao mesmo tempo em que esvaziou o programa de ações do partido, superando-o. Isso sem falar de áreas em que o PSDB nem tinha tanto foco: ampliação do acesso ao crédito, distribuição de renda, habitação, Bolsa Família e ampliação da seguridade social, agricultura familiar, infra-estrutura (compare a efetividade do PAC com o “Avança Brasil” do FHC), cotas etc…
Como existiram ganhos consistentes e seguidos de renda em todas as classes sociais (e redução das classes mais baixas com crescimento da classe média) fica mais fácil entender a popularidade de Lula. Como o governo mantém uma prática de se relacionar com vários setores organizados, mesmo aqueles que tem conflito um com outro, usando partes diferentes da máquina do Estado para tanto (Exemplo: o Min. Da Agricultura defende o Agronegócio enquanto o do Desenvolvimento Agrário é próximo do MST e de entidades de agricultura família. Desenvolvimento-Fiesp; Trabalho-Centrais Sindicais) praticamente toda a sociedade civil sente que tem canais de relação e representação dentro do governo, que internaliza os conflitos (arbitrados pela figura “paternal”e singular do Lula). Não significa que todos esses setores apoiarão a candidato do Lula. Mas que tem pouca motivação para romper com o status quo e apoiar a oposição.
O PSDB mantém de forma automática o mesmo programa de “como”: as velhas reformas neoliberais que reduzem direitos, privatizações e abertura de mercado. Mas não consegue dizer para que precisamos fazer isso. Nem consegue explicar o porque de quando fazíamos isso a situação piorar cada vez mais. Não consegue sequer perceber, mesmo com Lula dizendo isso em entrevista, que toda uma geração de questões se esgotou, e são necessárias nova ambições, para um país com uma composição social diferente (longe dela ser suficientemente diferente).

O fato é que a candidatura do PSDB, principalmente se for Serra, sequer conseguiu ainda admitir a existência desse novo país e se relacionar simbolicamente com ele. A direção do PSDB já descobriu o problema. Mas ao entrar em campanha, vai ser difícil conter e afinar discurso com a extrema direita da elite conservadora, financista e midiática de São Paulo, antigos coronéis da política nordestina, e conservadores do Sul e Centro-Oeste, a base que sobrou para uma candidatura de oposição ao governo Lula.

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Porque eu me cansei da política Soninha

Fazia tempo que eu estava me segurando para escrever sobre a Soninha…Ela é um assunto complicado para mim por uma contradição fundamental. Conheço-a faz muito tempo, e gosto muito dela, a acho uma pessoa incrível. Muito melhor do que eu sou, engajada, por isso é difícil criticá-la…Mas a acho politicamente equivocada. E acontece dela faz algum tempo ser política…e cada vez mais ser só política e cada vez mais equivocada…

Dessa contradição nasce este texto, e por isso ele ser tão extenso e ter esta estrutura: primeiro falo da minha admiração pessoal por ela, para a partir daí transmitir minha irritação e frustração com a sua trajetória política. Espero que o formato dê conta. Tratar, uma parte de cada vez, dois aspectos que não tenho como separar ao escrever sobre ela.

Então, vamos lá, os antecendentes antes dos finalmentes.

Pessoal

Conheci a Soninha 13 anos atrás, quando ela e minha irmã trabalhavam na MTV. Nesses anos todos ela passou a ser uma amiga e pessoa querida não só dela, como da família, uma pessoa muito legal. Em 2002, quando meu pai morreu, Soninha, que ainda não tinha nada a ver com política, fez companhia para a minha mãe por longas horas na madrugada do velório, quando todos nós estávamos derrubados. É o tipo de coisa generosa, em uma noite no meio da semana, sem nada em troca que não se pode esquecer nunca.

Quando a Época fez aquela cafajestada com ela, colocando uma pessoa responsável como “maconheira” em sua capa, minha mãe se indignou. Porque ela sabia que a “maconheira” era uma pessoa amável, que trabalhava muito e era muito generosa. Ali minha mãe viu que havia pessoas que consumiam eventualmente maconha, mas que eram sérias e que aquilo não afetava a vida dela. Acho que minha mãe deve ter sido a única pessoa que entendeu justamente o que a Soninha queria dizer quando se expôs daquele jeito, superando o preconceito contra usuários de maconha.

A Soninha sempre foi uma pessoa cheia de energia que diante de um desafio, se lança nele muito mais do que recua. Eu sou um que prefere quase sempre dar um passo atrás. Eu ainda acredito na sua sinceridade e honestidade na política. E realmente acredito que ela está tentando fazer o que acha certo. O que torna tudo mais complicado, mas também mais interessante.

Política parte 1 – Historinha…

Não sei se isso me dá mais ou menos autoridade para falar desse assunto…Mas em 2003, quando soube que Soninha seria candidata à vereadora de São Paulo pelo PT, eu lhe escrevi um longo e-mail aconselhando ela a NÃO se candidatar. Trabalhava na Câmara na época, e o que eu disse é que o PT era complicado, que o ambiente da câmara era podre, que o PT tinha problemas etc…Por conta disso eu me afastei do meu pequeno papel na política. Ela caiu dentro.

Em 2004 fez campanha com estrelinha vermelha e “Marta Prefeita” e foi muito bem votada. Mas a Marta em si não se elegeu. E Soninha foi ser oposição à prefeitura dentro de uma muy complicada bancada do PT municipal. E aí reside a primeira ironia…para a cúpula do partido e certamente para a própria Marta, um dos aspectos interessantes da candidatura Soninha era minar votos do “PT Vila Madalena” que era uma parte relevante da “bancadinha”, a ala mais independente da bancada do PT (estou falando de Nabil Bonduki, Tita Dias e Carlos Neder, e mais alguns outros). Nesse desenho, Soninha, “jovem e ingênua”, roubaria votos deles, ampliando a bancada do PT mais submissa ao executivo no segundo mandato de Marta. Tita, Nabil e Neder não se elegeram, mas não teve segundo mandato de Marta e a Câmara, e a própria Soninha, sofreram, principalmente sem Nabil e Neder, dois políticos muito qualificados, no legislativo…

Nos quatro anos de Soninha na Câmara estava afastado da política…Nunca pisei no gabinete dela, e fiquei nos meus trabalhinhos…Acompanhava as notícias, como ela se relacionava com ONGs, tinha iniciativas legais, comunicava as bizarrices da Câmara e comprava brigas homéricas contra os maus hábitos da casa. Um bom mandato.

Política parte 2 – o caldo começa a entornar

As coisas começam a ficar estranhas quando pouco depois de um ano de mandato ela tenta sair candidata a deputada federal. Rola uma ansiedade, uma falta de compromisso, uma ambição estranha…Acho que muita gente sente o mesmo…porque ela não se elege…é tipo um “fica aí Soninha, você é importante na cidade…”

Aí vem 2005 e a crise do mensalão…E as falhas do PT e das suas relações com os partidos aliados ficam expostas…

Antes disso já rolava uma relação próxima da Soninha com o executivo. Ela “convence” Serra a construir novos Centros de Educação Unificados (os CEUs). E ajuda na indicação de Carlos Augusto Calil (pessoa fantástica), que foi nomeado para o Centro Cultural Vergueiro na época da Marta, para secretário de Cultura do Município. Tudo bem…Mas sinceramente…O buraco é mais embaixo. O primeiro governo municipal “mezzo Serra/mezzo Kassab” foi muito esperto em não bater de frente com o que Marta havia construído na prefeitura…Muita gente de confiança seguiu nos seus cargos, muitos programas continuaram…E muito hipócrita também, para quem lembra como eles bateram nos CEUs, transformarem os CEUs “de segunda” que fizeram em bandeira política. E finalmente foram muito hábeis em fazer um governo “sub-Marta”, mantendo marcas dela, sinceramente melhorando algumas áreas, mas não avançando em mudanças estruturais como corredores, investimentos na periferia e habitação popular (inclsuive no Centro) e Renda Cidadã, e regredindo no transporte público e nas relações internacionais da cidade. E tirando o Cidade Limpa, inovando necas….Mataram o Orçamento Participativo, o Renda Cidadã, não avançaram no Conselho de Representantes e Coleta Seletiva…Isso tudo enquanto tinha um orçamento muito maior do que a Marta e uma máquina pública muito melhor do que a que ela herdou após Pitta/Maluf. Foi a estratégia deles. Não foi Soninha que os convenceu disso. Soninha se encaixou nessa estratégia.

A soma de um, sei lá, “fascínio”com o poder do Executivo com a pressão sobre o PT em 2005 (que visava derrotar Lula em 2006), com os problemas do PT municipal, mais o convite a ser candidata a prefeita pelo PPS (e aí a coragem de se lançar em desafios que admiro nela fica difícil de separar da precipitação e equívoco que vejo nos seus erros políticos), tudo isso soma para que ela saia do PT. E seja candidata a prefeita pelo PPS. Hoje eu acho que o José Serra estava por trás dessa oferta de legenda que o PPS fez para ela. Não tenho nenhum dado ou informação, mas é algo que acho, até porque esta operação PV/Marina é parecida demais, e coincidência demais…enfim…tende a não ser coincidência. Mas Soninha poderia estar na busca da trajetória dela, como acho que está a Marina. Tipo “desejo que seja feliz nesse novo caminho”, sabe?

Está certo que o PPS merece um parágrafo (merece é um texto inteiro…). É na minha opinião o partido mais equivocado do cenário político nacional…Por que quão maluco é um partido que acha que critica o governo do PT pela esquerda, ou seja, que as “reformas”, o DEM e principalmente o PSDB são um projeto mais “digno” do ex-PCB, de sua herança comunista, do que apoiar o governo Lula? A inveja que o Roberto Freire deve sentir do PT e de Lula, ele que lá atrás achou que não ia dar certo, ele que aderiu de forma tão entusiasmada ao Fernando Henrique Cardoso e ao projeto neoliberal…Coisa de maluco mesmo…E acabou assim, como a mais absoluta legenda auxiliar do PSDB (sei lá porque não se fundem logo…), e com seu líder irrelevante com um discurso de ocasião e sem fundamento…

Enfim…Soninha passou a se posicionar errado no fundamental plano nacional do embate entre o governo Lula e o PT (e seus aliados, muitos deles nojentos, como o Sarney, e de ocasião) X PSDB+DEM+PPS (prontos a receberem a turma de ocasião e com seus nojentos, como Quércia).  Ela não saiu do PT para criticá-lo pela esquerda, entende…E aliás, acho talvez que ela nem acredita neste tipo de divisão/embate. Sabe luta de classes, sindicatos X empresas, entreguistas x interesse nacional…é nessas que a “nova” política assume o papel de inocente útil…Porque a direita o odeia, mas nunca deixa de usar para consumo interno quando lhe interessa as brilhantes análises daquele velho barbudo que gostava da cor vermelha…E não, não é do Papai Noel que estou falando…

Mas voltando…No primeiro turno de 2008, Soninha fez uma campanha discutindo temas importantes para a cidade, do jeito dela. Segui defendendo-a como pessoa de amigos que a criticavam, apesar de não apoiá-la mais politicamente…E tudo bem em 2008 ela não defender a candidata dela em 2004, se ela estava defendendo diretamente uma visão dela que devia achar melhor que a da Marta em 2004.

Política parte 3 – “Aqui nos separamos…”

O problema começa mesmo em algo estranho no discurso e postura nos debates, como se Marta fosse pior que Kassab, e evolui feio no segundo turno. Soninha diz que vai sumir, que não vai apoiar ninguém. Mas nitidamente este “ninguém” é mais um contra Marta e só um silêncio em relação a Kassab. Na prática e nas declarações, Soninha está apoiando o Kassab. E isso é bizarro, porque e naquela eleição quem prestasse atenção notaria isso, Kassab defendia um governo “sub-Marta”, isso mesmo arrecadando muito, mas muito mais dinheiro que ela (e a ironia cruel de Marta ser chamada de “Martaxa”, mesmo com a arrecadação da prefeitura tendo subido muito mais que a economia da cidade, ou seja, com Kassab aumentando a carga tributária, não deve ter escapado aos canalhas). Vou escrever algo aqui que já escrevi nesse blog: Marta é rejeitada acima de tudo pelos seus próprios erros e alguns membros do lado escuro da força que a rodeiam, ou rodeavam. Mas para mim não fazia sentido político algum Soninha, tendo apoiado Marta em 2004, apoiar Kassab em 2008. Se ainda tivesse de fato ficado neutra, escapava de fazer besteira e se mantinha coerente…Não dava um tapa na cara naqueles que votaram nela quando o que aparecia na maquininha ao lado da foto dela era o 13…

E aí vem o pior…o fim da picada…Soninha aceita um cargo, ou como dizem muitos “CARGUINHO”, de Subprefeita da Lapa na gestão Kassab. Ou seja, passa a referendar, apoiar e se subordinar a esta gestão do ex-PFL, de um ex-malufista.

Pausa: não existe obrigatoriamente algo de vergonhoso em exercer uma função pública na gestão Kassab. O já citado Calil, por exemplo, acho que ele faz o que sempre fez, está no “partido da cultura” como ele diz. É possível executar funções públicas, de estado, dentro de certas condições, mesmo em uma administração com a qual não se identifique, de um partido que defende um ideário diferente do seu. Isso não vale para mim, mas admito que para outros sim…Também não há nada de desonroso e menor no cargo em si, em ser Subprefeito da Lapa. Aliás, moro na jurisdição dessa Subprefeitura, deve ser um trabalho duro, e Soninha deve tentar exercê-lo da melhor forma possível e eu tenho todo o interesse nisso. Para a região onde vivo, antes ela lá que alguém pior.

Mas veja bem…foi um tapa na cara de quem sempre a defendeu que a Soninha tenha aceitado este cargo. Porque foi uma contradição com o discurso dela, com a postura dela, e com o que ela defendia para a cidade. E aí está uma coisa interessante…os políticos de hoje parecem não entender a relação entre cargo e militância política…Se a Marta tivesse ficado e lutado pelo seu legado, contra as difamações e apropriações hipócritas das políticas públicas do seu governo, teria feito um bem para a cidade e para sua carreira política muito maior do que ocupando cargo por ter “máquina” em Brasília (quem acha que adianta algo em campanha em São Paulo ter sido ministra do Turismo…). Soninha perdeu a coerência quando ao invés de lutar por “outra forma de fazer política” se submeteu a um carguinho. Passou a baixar a cabeça para o segundo mandato do Kassab, quando ele começa a revelar sua alma malufista, e pior, defender absurdos totalmente contraditórios com suas ideais como a “Nova” Marginal, ou comandar Guardinha Municipal para cima do pobre do ambulante que vende CD Pirata…

E cada vez mais Soninha deixa claro que é a cara, o orgulho, a voz e discurso de um PPS parte do “Bloco Democrático Reformista” da Oposição para disputar as eleições de 2010. Ou seja, que esta do lado do DEM e do PSDB, com Serra, para retomar as “Reformas” (privatizações, perda de direitos trabalhistas e dos aposentados) é melhor do que estar com a continuidade do governo Lula. Isso mesmo após o “massacre” que o molusco aplicou em FHC, e com a tremenda melhora da qualidade de vida das classes mais baixas, das perspectivas do país, de sua inserção no cenário internacional, e da sua atuação na proteção de governos de esquerda em países da região (Bolívia, Venezuela, Paraguai e agora Honduras).

Soninha também está começando a verbalizar coisas que a aproximam de uma tendência que está surgindo por aí (prestem atenção) que acho bizarra…pessoas que usam o discurso ambiental contra o desenvolvimento de país para disfarçar um incômodo com a ascensão das classes C e D ao mundo do consumo…Gente que usa o ambientalismo para disfarçar preconceitos sociais e disputa de classes…É bem sutil (o movimento contra carros, por exemplo, não cai nessa roubada)…Mas preste atenção que tu vai ver…Não é fácil separar de ambientalistas legais…e muitos dos dois grupos estão embarcando na candidatura da Marina Silva…mas repare bem…

Então, se a Soninha se irrita quando o Paulo Henrique Amorim a chama de traíra, ou quando ela diz no Twitter que as pessoas a acham “no mínimo, desprezível” por ter saído do PT…Bem o Paulo Henrique Amorim não é exemplo de nada, é um Reinaldo Azevedo menos parnasiano e de sinal trocado…pelo sinal trocado acerta de vez em quando (até o Azedo vez por outra se distrai e solta uma verdade), mas é grosso, deselegante e enfim…Agora quem votou nela ou apoiou ou a defendeu quando ainda era “13”, se estes acham que ela os traiu estão no seu direito. Assim como de achar que esta fazendo besteira e o pior para o país quando passa a apoiar o Serra contra a Dilma ano que vem….É o preço de ter mudado de ideia e/ou lado.

Repare, ninguém chama a Heloísa Helena, o Ivan Valente, ou outros do PSOL de traíras por terem saído (ou sido expulsos) do PT… Eles se mantiveram a esquerda. Mesmo a Marina Silva ainda não está claro o que vai sair disso.

Eu não acho a Soninha “no mínimo, desprezível”. Acho-a uma pessoa incrível, mesmo que profundamente equivocada do embate político que se dá no país, na posição errada. Podia estar na oposição, mas não do lado de quem está…mas enfim…direito dela. É a vida e a democracia.

Da minha parte, que bom que desabafei….e chega de segui-la no Twitter…Onde tive que resistir a tentação de responder algo que (ufa, podem ver) levou muito mais que 140 caracteres para explicar…

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Marina Silva e os corredores quenianos

Você pode estar empolgadíssimo com a candidatura Marina Silva. Desculpe estragar sua ingenuidade, mas…

– Qual a melhor maneira do Gabeira e do Penna usarem o PV para ajudar a candidatura José Serra? Dando 30 segundos de TV e uma estrutura mínima, ou rachando a esquerda, constrangendo o PT e a Dilma, e colocando na disputa uma mulher (Marina Silva) para confrontar outra mulher (Dilma) deixando o ambiente em debates e na mídia melhor para o Serra?

– Essa estratégia não lembra muito a mesma usado por Serra/Kassab usando o PPS para lançar a Soninha contra a Marta Suplicy (mulher X mulher)? O mesmo convite para alguém do PT ser candidato por um partido “auxiliar”, a mesma liberdade para fazer uma campanha “diferente”, com “novos temas” e a mesma intenção de rachar a esquerda. Soninha hoje é subpfrefeita da Lapa, subordinada do secretário Andrea Matarazzo, que por sua vez é subordinado do Kassab, que por sua vez é o principal aliado do…Serra.

– Quem quiser ser ingênuo pode acreditar que o Penna, presidente do PV e vereador da base do Gilberto Kassab (DEM), e que Fernando Gabeira, que quer ter o apoio e apoiar, simultaneamente, José Serra e Marina da Silva não fizeram isso no mínimo (e coloca mínimo nisso) com a autorização do José Serra.

– Marina Silva quebra a esquerda e consegue votos no Rio e no norte do país. Sua imagem certamente pega votos no nordeste e dificulta o uso da história de vida do Lula no apoio à Dilma. Melhor para Serra. Isso tudo acontece e ao mesmo tempo que ela JAMAIS terá chance de ser eleita. Prestem atenção: JAMAIS. E abre uma vereda de críticas a Dilma (corrupta, antiquada, inimiga do meio ambiente). Ou você acha que o principal alvo de Marina na campanha seria o Serra ao invés do governo que existe?

– Por que jamais? ONG não é setor social (trabalhadores, setores do capital ou máquina do estado), não é capaz de definir eleição. Marina não é Obama (ela mesmo sabe disso). Obama se propôs a fazer uma campanha abrangendo TODOS os principais temas para os americanos. Não fez uma campanha em cima de um tema (no caso da Marina, meio ambiente). Por mais importante que seja o tema, não é suficiente, não tem essa maturidade nem aqui, nem em lugar nenhum (deve ter no futuro, mas não hoje e aqui). Nem preciso dizer que o PV também não é o Partido Democrata, nem Lula é Bush Jr.

– Depois da eleição, o PV volta a ser o patético PV e Marina estará com o mesmo papel. Isolada e fora do menos pior dos grandes partidos do país (o PT), que no Acre reúne todo o seu grupo político. A mesma situação que esfarelou Heloisa Helena e transformou Soninha em suco. Ambas até então eram boas alternativas de renovação na política (e Heloísa Helena foi expulsa do PT). Mesmo a Marina sendo muito mais densa, menos personalista e mais embasada, e mais legal que as outras duas.

– Eu adoraria que ela escapasse dessa arapuca e desse um entorta nesse pessoal e negociasse dentro do PT um novo status e um novo papel para a questão do meio ambiente e desenvolvimento sustentável dentro do partido e da candidatura Dilma (mesmo sabendo que isso é difícil também). Que usasse este convite para ser mais malandra que os malandros que a convidaram.

– Marina Silva candidata é a melhor notícia dos últimos tempos. Para a esquerda? Para uma alternativa real de governo em 2010? Para a criação de um partido com projeto nacional viável a esquerda do PT? Não. Para o José Serra e seus aliados. Ah, e aliados do Serra inclui, por exemplo, a senadora Katia Abreu e a CNA, “grandes” amigos do meio ambiente.

– Os corredores quenianos trabalham em equipe nas provas de longa distância. Eles mandam um corredor disparar na frente no começo da prova, o chamado “coelho”, para enganar os competidores, forçando-os a gastar mais forças no começo da corrida. Na hora agá o “coelho”, que entra para perder, desacelera e o verdadeiro membro da equipe que está lá para ganhar aperta o ritmo, ultrapassando os que foram enganados pelo “coelho”. Marina Silva está sendo convidada a ser a coelhinha das eleições 2010. Pena. Quer dizer, Penna.

PS: No exemplo abaixo, para mostrar como funciona o coelho, Marina é representada pelo corredor número 36. E o momento em que ela sai da prova é na passagem do primeiro para o segundo turno.

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