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O artigo de FHC é bom, o problema é o autor

O artigo de Fernando Henrique Cardoso, publicado hoje em vários jornais como uma orientação de assuntos para a oposição é inteligente (íntegra do artigo abaixo, e inteligente não quer dizer que eu concorde com o texto). É um bom roteiro, com várias questões importantes. Inclusive o título é excelente, “Tempo de muda”. O problema inclusive é que o título  é tão bom que também se aplica ao autor e a oposição de forma mais ampla.

Podemos dispensar o exercício quase cruel de comparar as críticas de FHC ao governo Lula-Dilma com o desepenho dele como presidente. Beira o ridículo pensar em como foram construídos nas trevas os consórcios da privatização em seu governo, para ficar em um exemplo de contradição entre sua crítica e prática. Ou o uso do BNDES na sua gestão, de novo, para financiar a privatização.

A questão principal, para a oposição, é que ter um roteiro de críticas não é nem metade (e a mais fácil) parte do trabalho. A outra seria ter um plano interessante, que representasse anseios e melhor qualidade de vida para amplos setores da sociedade. Ter, enfim, uma proposta. Só que criar um ideário não é coisa assim tão fácil…

O PSDB não tem sequer programa para concorrer com o PT. Por isso, faz oito anos que esperam que o governo federal imploda em um fracasso que não chega, muito pelo contrário (com o mensalão em 2005, e a crise de 2008, tinham certeza que Lula naufragaria). O PSDB pode defender isso externamente, mas já era hora deles se darem conta que o PT não é tão incompetente a ponto de se auto-destruir. O irônico é que talvez, mesmo quando esse dia cheguar, provavelmente do jeito que estão conduzindo seu próprio partido não estarão preparados.

O PSDB começou querendo ser social democrata, mas chegou ao poder com a cartilha neoliberal dos anos 1990, e essa fracassou na prática, aqui e no exterior, e se tornou insustentável como discurso junto ao eleitorado. Hoje o exterior não tem nenhuma cartilha para exportar, ao contrário, o Brasil anda bem mais esperto e com rumo que os países desenvolvidos. Na sociedade o PT ocupou espaços que eram do PSDB, ao não assustar mais o empresariado e o mercado financeiro. E empurrou os tucanos para o canto direito, como partido elitista, preconceituoso e entreguista, defensor de um status quo de desigualdade e submissão ao exterior, enquanto o PT representaria o novo país de classe média e potência emergente. E, em parte por tudo isso ter algo de verdade, a caracterização pegou.

É realmente, tempo de muda, de governo, da oposição e de geração política, mas ao invés disso o PSDB acha que é problema de imagem e interpretação histórica do governo FHC, não de essência. Essa batalha já foi perdida. 2010 foi a última eleição “Legado Lula” X “Legado FHC”. Perdeu, playboy! Se o PSDB quiser seguir mantendo essa discussão estará encomendando outra derrota. Ele deveria preparar o discurso para frente, para superá-la.

O caminho da oposição de direita passa bem menos por discutir a intensidade com que fará oposição contra Dilma e bem mais pela redução do papel dos tucanato paulista nas disputas nacionais. De TODO o PSDB paulista. A coisa é simples assim: após perder 3 eleições nacionais, o PSDB-SP devia trabalhar em função da construção da canditatura Aécio, visando chegar ao planalto em 4 ou 8 anos. O PT levou 13 para chegar lá com Lula…

Fernando Henrique precisava ser mais prático e desencanar de defender seu governo ou querer ser figura de proa da oposição. José Serra deveria desistir da presidência e “jogar para o time” da construção partidária (sei que jamais acontecerá) e mesmo Alckmin deveria de cara se colocar ou como candidato à vice de Aécio caso seja a melhor opção, ou trabalhar sua releição.

Aécio é o candidato forte do consórcio PSDB-DEM-PPS.  É a chance deles. O resto são xurumelas imaginárias: aventuras de grupos (Alckmin) ou, nessa altura do campeonato, distúrbio maníaco-obssesssivo mesmo (Serra).

Se a oposição fosse capaz de largar as disputas internas em nome de uma construção partidária e arco de alianças, refazendo ideário, reforçando sua construção nacional, estatutos e a qualidade dos governos do partido, ficaria em boa posição para colher esse eventual colapso petista que eles prevêm que vai acontecer todo o ano desde 2002.

O “legal” de escrever isso é saber que o PSDB é absolutamente incapaz de seguir um roteiro desses. Porque debaixo dessa coisa moderna que eles acham que tem, é um partido marcado pelos mesmos cordialismos e caciquismos da política brasileira, com um estatuto débil, cultura interna nula e incapaz de se relacionar com a sociedade civil. O desprezo deles com as classes trabalhadoras e suas organizações está demonstrado no uso do termo “pelego” no texto de FHC para as organizações sindicais. Sindicatos de que o PSDB tem nojo , quando, em geral, são a base dos partidos sociais-democratas de verdade (no caso brasileiro, o PT, não o PSDB)

E ainda tem a infinita capacidade e energia do Serra e sua gangue de sobrepor sua agenda pessoal à da oposição, mesmo quando isso já não faz nenhum sentido…

Hoje o governo e o futuro domínio político imediato é do PT, que teria que perder para si mesmo para não seguir governando pelos próximos 8 anos. E o futuro alternativo é de alguém que vai voar abaixo do radar do dia-a-dia futriqueiro do jornalismo político: Marina Silva. Que tem um discurso e está construindo uma base (se tem um programa e quanto esse programa é consistente é outra coisa, mas ela definitivamente tem um discurso e está construindo uma base).

Já os tucanos…

Se o PSDB quiser passar mais quatro anos tentando reabilitar a popularidade do governo FHC, o PT vai adorar. FHC pode disputar o passado, seu papel nos livros de história, quanto quiser…Difícil é ele quere ter a ambição de ser protagonista da construção de qualquer futuro.

Tempo de muda, por Fernando Henrique Cardoso*

Novo ano, nova presidente, novo Congresso atuando no Brasil de sempre, com seus êxitos, suas lacunas e suas aspirações. Tempo de muda, palavra que no dicionário se refere à troca de animais cansados por outros mais bem dispostos, ou de plantas que dos vasos em viveiro vão florescer em terra firme. A presidente tem um estilo diferente do antecessor, não necessariamente porque tenha o propósito de contrastar, mas porque seu jeito é outro. Mais discreta, com menos loquacidade retórica. Mais afeita aos números, parece ter percebido, mesmo sem proclamar, que recebeu uma herança braba de seu patrono e de si mesma. Nem bem assume e seus porta-vozes econômicos já têm que apelar às mágicas antigas (quanto foi mal falado o doutor Delfim, que nadava de braçada nos arabescos contábeis para esconder o que todos sabiam!) porque a situação fiscal se agravou. Até os mercados, que só descobrem estas coisas quando está tudo por um fio, perceberam. Mesmo os velhos bobos ortodoxos do FMI, no linguajar descontraído do ministro da Fazenda, viram que algo anda mal.

Seja no reconhecimento maldisfarçado da necessidade de um ajuste fiscal, seja no alerta quanto ao cheiro de fumaça na compra a toque de caixa dos jatos franceses, seja nas tiradas sobre os até pouco tempo esquecidos “direitos humanos”, há sinais de mudança. Os pelegos aliados do governo que enfiem a viola no saco, pois os déficits deverão falar mais alto do que as benesses que solidarizaram as centrais sindicais com o governo Lula.

Aos novos sinais, se contrapõem os amores antigos: Belo Monte há de vir à luz com cesariana, esquecendo as preocupações com o meio ambiente e com o cumprimento dos requisitos legais; as alianças com os partidos da “governabilidade” continuarão a custar caro no Congresso e nos ministérios, sem falar no “segundo escalão”, cujas joias mais vistosas, como Furnas (está longe de ser a única), já são objeto de ameaças de rapto e retaliação. Diante de tudo isso, como fica a oposição?

Digamos que ela quer ser “elevada”, sem sujar as mãos (ou a língua) nas nódoas do cotidiano nem confundir crítica ao que está errado com oposição ao país (preocupação que os petistas nunca tiveram quando na oposição). Ainda assim, há muito a fazer para corresponder à fase de “muda”. A começar pela crítica à falta de estratégia para o país: que faremos para lidar com a China (reconhecendo seu papel e o muito de valioso que podemos aprender com ela)? Não basta jogar a culpa da baixa competitividade nas altas taxas de juro. Olhando para o futuro, teremos de escolher em que produtos poderemos competir com China, Índia, asiáticos em geral, Estados Unidos, etc. Provavelmente serão os de alta tecnologia, sem esquecer que os agrícolas e minerais também requerem tal tipo de conhecimento. Preparamo-nos para a era da inovação? Reorientamos nosso sistema escolar nesta direção? Como investir em novas e nas antigas áreas produtivas sem poupança interna? No governo anterior, os interesses do Brasil pareciam submergir nos limites do antigo “Terceiro Mundo”, guiados pela retórica do Sul-Sul, esquecidos de que a China é Norte e nós, mais ou menos. Definimos os Estados Unidos como “o outro lado” e percebemos agora que suas diferenças com a China são menores do que imaginávamos. Que faremos para evitar o isolamento e assegurar o interesse nacional sem guiar-nos por ideologias arcaicas?

Há outros objetivos estratégicos. Por exemplo, no caso da energia: aproveitaremos de fato as vantagens do etanol, criaremos uma indústria alcoolquímica, usaremos a energia eólica mais intensamente? Ou, noutro plano, por que tanta pressa para capitalizar a Petrobras e endividar o Tesouro com o pré-sal em momento de agrura fiscal? As jazidas do pré-sal são importantes, mas deveríamos ter uma estratégia mais clara sobre como e quando aproveitá-las. O regime de partilha é mesmo mais vantajoso? Nada disso está definido com clareza.

O governo anterior sonegava à população o debate sobre seu futuro. O caminho a ser seguido era definido em surdina nos gabinetes governamentais e nas grandes empresas. Depois se servia ao país o prato feito na marcha batida dos projetos-impacto tipo trem-bala, PACs diversos, usinas hidrelétricas de custo indefinido e serventia pouco demonstrada. Como nos governos autoritários do passado. Está na hora de a oposição berrar e pedir a democratização das decisões, submetendo-as ao debate público.

Não basta isso, entretanto, para a oposição atuar de modo efetivo. Há que mexer no desagradável. Não dá para calar diante da Caixa Econômica ter se associado a um banco já falido que agora é salvo sem transparência pelos mecanismos do Proer e assemelhados. E não foi só lá que o dinheiro do contribuinte escapou pelos ralos para subsidiar grandes empresas nacionais e estrangeiras, via BNDES. Não será tempo de esquadrinhar a fundo a compra dos aviões? E o montante da dívida interna, que ultrapassa um trilhão e seiscentos bilhões de reais, não empana o feito da redução da dívida externa? E dá para esquecer dos cartões corporativos usados pelo Alvorada que foram tornados “de interesse da segurança nacional” até o final do governo Lula para esconder o montante dos gastos? Não cobraremos agora a transparência? E o ritmo lento das obras de infraestrutura, prejudicadas pelo preconceito ideológico contra a associação do público com o privado, contra a privatização necessária em casos específicos, passará como se fosse contingência natural? Ou as responsabilidades pelos atrasos nas obras viárias, de aeroportos e de usinas serão cobradas? Por que não começar com as da Copa, libertas de licitação e mesmo assim dormindo em berço esplêndido?

Há, sim, muita coisa para dizer nesta hora de “muda”. Ou a oposição fala e fala forte, sem se perder em questiúnculas internas, ou tudo continuará na toada de tomar a propaganda por realização. Mesmo porque, por mais que haja nuances, o governo é um só Lula-Dilma, governo do PT ao qual se subordinam ávidos aliados.

*Ex-presidente da República

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Porque voto em Dilma Rousseff e também porque não voto em José Serra

Quando as calúnias, os preconceitos, o chavão e a preguiça mental atacam…só nos resta ser mais sinceros, pacientes, dialogar mais, explicar nossos argumentos, dar a cara para bater e colocar nossa sinceridade a serviço do que acreditamos. Acompanhei, vi e vivi os governos de FHC, Lula, Marta, Kassab, Serra e Alckmin. Conheço as biografias, propostas e realizações deles. É com o aprendizado, conhecimento da minha vida que decido meu voto. E assim que deve ser. Não com preconceitos ou ignorância.

Defendo a eleição da Dilma Roussef e voto nela. Pela evolução desse governo em relação ao anterior em várias áreas – inclusão social, economia, cultura, ciência e tecnologia, política externa, infra-estrutura, universidades etc…Estou disposto a debater e mostrar os avanços em cada uma dessas áreas, com quem quiser (alguns temas quero tratar nesse blog).

E também poque este governo foi mais democrático, abriu para participação, em conselhos da sociedade civil e conferências temáticas, de vários setores da sociedade (inclusive, e muito, os empresários) nas decisões governamentais.

 

 

Dilma e Lula

Dilma e Lula

 

O governo deu um show, por exemplo, na defesa do Brasil durante a crise econômica mundial de 2008, enquanto em 1999, governo do PSDB/Fernando Henrique/José Serra, o Brasil CAUSAVA crises mundiais. É importante dizer que nossa situação econômica era péssima em 2002, fim do govenro FHC. A imprensa brasileira tem tratado a grave crise econômica mundial como coisa menor, e o que o governo brasileiro fez como banal. Quem lê inglês e a imprensa estrangeira sabe que não é nada banal o que Guido Mantega, Henrique Meirelles, Lula e Dilma coordenando o governo, fizeram.

O resultado desse bom trabalho: o Brasil nunca cresceu tanto, teve tanto emprego, foi tão respeitado no exterior, ou os pobres nunca melhoraram tanto de condição de vida (mesmo com muito a ser feito). Tudo isso com liberdade de expressão (a imprensa bate no governo, e muito), religiosa, eleições livres etc…Como deve ser.

Estou ciente que o governo e o PT são cheios de defeitos, mas o PSDB tem os mesmos, mesmos defeitos (alianças bizarras, corrupção etc…), e menos respeito institucional (o FHC mudou a constituição para se beneficiar, diferente de Lula, que não disputou o terceiro mandato.), menos defesa do nosso país , do seu patrimônio e menos empenho no combate à pobreza (em 16 anos no governo estadual de São Paulo, parece que até hoje o tema não virou prioridade aqui).

O PSDB também é menos fiscalizado pela imprensa, ou seja, no final das contas, se você for pensar, o PT estimula mais a liberdade de imprensa que o PSDB. A imprensa adora fiscalizar e criticar o PT, e isso o obriga o partido e os governos administrados por ele a terem limites, a ser cada vez melhor. Diferente do governo de São Paulo, que abafa CPIs e não tem que dar explicações de suas políticas, e falta de políticas, públicas.

Imagine quanta restrição existe, indireta ou direta, no jornal Estado de S. Paulo para fiscalizar quem os donos do jornal, em editorial, chamaram de “homem público exemplar”? A melhor coisa para nós, cidadãos, é a imprensa fiscalizando o PT. Por exemplo: o governo melhorou muito depois que Zé Dirceu e Antonio Palocci caíram com o mensalão e foram substituídos por Dilma e Guido Mantega.

Vale falar também porque eu não voto no Serra, especificamente, o que envolve traços pessoais peculiares dele: acho ele mentiroso (além do normal, mesmo para um político), de um ego descontrolado e dono de uma ambição desmedida. Não vou entrar aqui nos casos enrolados em que ele esteve envolvido, nas bobagem que ele disse, dos dossiês armados até contra aliados, ou nos jornalistas que ele pediu para serem demitidos, ou nas relações perigosas com Daniel Dantas e Gilmar Mendes, ou nas contas de dividir errada que ele fez em uma sala de aula… (de novo, posso fazer isso, a pedidos). Para mim, e porque eu não me conformo, bastaria o vídeo abaixo, onde ele assume o compromisso, que depois assinou e firmou em cartório, de ficar seu mandato completo na prefeitura de São Paulo. Ele saiu em menos de 18 meses para ser candidato a governador (cargo que ocupou o tempo inteiro pensando em ser presidente…), deixando o Kassab aqui… Para mim o vídeo abaixo prova que eu não posso acreditar em nenhum compromisso dele, em nada que ele diz em debates, programas eleitorais, entrevistas ou discursos. Nem sobre o pré-sal, a Petrobras e demais privatizações (essa nova dele que vendeu a Nossa Caixa para fortalecer o Banco do Brasil é de ofender a inteligência de qualquer um), nem com a manutenção do Bolsa-Família (diga-se de passagem, porque todo mundo que é contra o Bolsa Família vota nele?). O sujeito fala qualquer coisa, faz qualquer coisa para cumprir sua obsessão de mais de 45 anos (medo!) em ser presidente. O tal “preparo” que ele fala é ambição em tomar o poder, não a humildade necessária para exercê-lo.

E assim, entramos na razão que fortaleceu ainda mais a minha convicção da necessidade de derrotar o Serra. Nessa campanha, nem é o PSDB, mas José Serra e o seu vice, e isso me surpreendeu, tem apelado descaradamente para o machismo, o fanatismo religioso a ameaça de restrição dos direitos dos homossexuais e demais medos e preconceitos, principalmente da classe média.

É um falso debate de uma hipocrisia sem limites, um oportunismo eleitoral nojento jogando com coisas perigosas. O Serra consegue ser pior do que o Alckmin, que muito mais religioso que ele, nunca apelou para isso (aliás, o Serra para mim conseguiu o feito de  um governo estadual pior que o do Alckmin). Bem, nem isso é exatamente novidade. Quer dizer, o caráter moralista, preconceituoso e religioso é novidade sim (o machismo ele já tinha usado e abusado contra a “Dona Marta”). Mas quem foi mesmo que sacou o medo na eleição de 2002? Veja o vídeo abaixo. Veja como a Regina Duarte fala que o outro candidato, o Lula, se tornou “desconhecido”, um rico e que votar em outro que não o Serra é “perigoso”. Você tem razão em uma coisa Regina. Do Serra a gente sabe o que esperar. Todo o tipo de golpe baixo na luta pelo poder. Inclusive usar todas as armas disponíveis para incitar o ódio enquanto pela frente posa de simpático candidato da “união”.

 

 

PS: quero adicionar ao post esse simpático infográfico do @ilustrebob Muito legal e muito ético

 

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Veja e a liberdade de “prensa”

Não li, nem vou ler, a matéria da Veja sobre os supostos ataques a liberdade de imprensa feitos pelo PT/Lula/governo (devem estar se referindo às críticas contra a cobertura eleitoral e escândalos de corrupção).
Vou só aproveitar a oportunidade para explicar o pouco que sei de como funciona a liberdade de imprensa dentro da Veja. Essas informações são de alguns anos atrás, talvez tenha mudado, acho que não.
Os repórteres apuram as matérias. Mas não escrevem matérias, e sim relatórios, enviados aos editores. Os editores, em espaço separado dos repórteres, escrevem o texto, dando aquela famosa cara de que toda a revista foi escrita pela mesma pessoa, com o mesmo estilo.
O repórter, ou os repórteres, que apuraram os fatos só vão ver o texto já diagramado e com fotos, igual vai sair na revista, quando ele sair de uma impressora dentro da redação. Eles ficam lá, aguardando (aguardar é uma atividade comum lá dentro) para ver o que vai sair, tirar alguma dúvida do editor ou dos checadores de fato, e corrigir algum erro daqueles erros que eles corrigem (grafia de nome, por exemplo).

Essa é a liberdade de expressão da Veja.Os editores invertem coisas apuradas, colocam ali suas teses, opiniões, piadinhas etc…
As matérias que não são assinadas, ou foram apuradas por muita gente ou o repórter pediu para ter seu nome tirado da matéria. Mas atenção! Cada vez que um repórter pede para não assinar algo ele se queima um pouquinho dentro da redação da Veja. Ele tem que entrar entusiasmado e seguir o modelo de produção da “maior revista do Brasil”. Um recém-entrevistado para trabalhar lea foi avisado antes de entrar para trabalhar na revista, em termos amis ou menos assim, que a Veja “altera texto mesmo, tem inimigos mesmo, tem opiniões mesmo” (estou reproduzindo de memória o que quem passou pela entrevista me disse, faz tempo). No primeiro texto que ele fez e colocaram o nome dele, ele disse que o que saiu era o exato inverso do que havia no relatório da apuração.

Lembro de quatro amigos que saíram da revista. Para todos a Veja foi uma experiência pesada. Todos ficaram mais joviais, alegres e bonitos depois de saírem de lá. A frase que mais me marcou foi a de uma delas que disse “em algumas matérias que eu fiz eu me senti estuprada”. Ela não se sentiu ofendida, com seu nome mal usado. Ela se sentiu, veja o termo, violentada.

A Veja tem uma estrutura imensa de repórteres, fotógrafos, diagramadores e checadores de fato a serviço de meia dúzia de teses, preconceitos e posições dos seus editores, do Reinaldo Azevedo e do “seu” Civita, herdeiro dono do negócio. Se os fatos entram em conflito com as teses, danem-se os fatos. É liberdade de imprensa que não acaba mais para quem pode mandar. Liberdade poética, dos fatos, da realidade…Quem te juízo, assina o texto e fica quieto. É assim a liberdade de “prensa” da Veja. De prensar quem bem quiser e ignorar o que quiser.

Por exemplo: a capitalização da Petrobras (a maior do CAPITALISMO) atraiu dezenas de bilhões para novos investimentos no Brasil. Vai ter impacto no rasil pelas próximas décadas. Não tem uma matéria na edição impressa. Quando os tucanos traziam “bilhões” para as privatizações (o grosso da grana era do BNDES e fundos de pensão) a Veja gozava e colocava na capa. Se FHC tivesse feito essa capitalização (não que tivesse capacidade de construir algo assim) não seria capa com 30 páginas de louvação?

Veja não é tão importante quanto parece, nem essa discussão atual sobre liberdade de imprensa vai dar em muita coisa…Porque na realidade, não tem imprensa nenhuma sendo “atacada” (criticada sim), nem risco real de ameaças contra a democracia ou de efetiva manipulação eleitoral por parte da imprensa. A democracia está tão estabelecida, que podemos nos dar o luxo de fingir que não, como um hétero travestido de mulher no carnaval jamais será questionado na sua opção sexual.

O que existe é muito bafafá para já tentar enfraquecer um governo Dilma que controlará o congresso e evitar assim mudanças de legislação ou um aumento ainda maior de poder do PT.

Não vou então nem para eventos contra a manipulação da imprensa, nem para eventos a favor da “democracia” em clubes militares. Mas quando tiver algum evento para defender a verdadeira liberdade de imprensa e diversidade dentro da Folha, da Globo ou da Veja, pode me chamar que eu vou.

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Por uma TV bêbada 8 – Sérgio Cabral

A TV Bêbada não conhece fronteiras ideológicas. Por exemplo, mostramos Lucia Hippolito, bêbada, tentando atacar Lula. Agora mostraremos Sérgio Cabral (o filho), governador do Rio, bêbado, apoiando, ou se apoiando, em Dilma. Enrolando a língua…

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Lula ganhou o jogo no campo do PSDB

Uma das maiores dificuldades do candidato do PSDB que o Serra escolher para o ano que vem (o próprio ou o Aécio se Serra achar que não tem chance), será a falta de discurso, apelo, apoios e projeto contra a candidata de Lula, Dilma Rousseff. Isso acontece por vários motivos, mas um deles talvez ainda tenha sido pouco falado: Lula dominou os critérios que o PSDB alardeava serem importantes para avaliar um governo.
Vejamos rapidamente:

– O Brasil atingiu o “nirvana” tucano: o “investment grade”

– Reduziu o risco país

– Aumentou as defesas contra crises financeiras internacionais.

– A Bolsa de Valores nacional e o tamanho e faturamento das principais empresas do país disparou

– Aumentou a proporção do comércio exterior em relação ao PIB

– Melhorou a relação entre exportações e importações da balança comercial

– Pagamos os empréstimos do FMI

– As reservas e mudança do perfil da dívida eliminaram a necessidade de financiamento anual em moeda estrangeira

– O país melhorou sua imagem no exterior (sendo o maior símbolo disso as Olimpíadas de 2016), aumentou sua importância no cenário internacional e influência regional.

Outro exemplo, a relação dívida/PIB estava em queda vertiginosa antes da crise financeira. Chegou a 38,8% em 2008. Ano que vem deve subir para 44% (tal relação subiu praticamente no mundo inteiro como conseqüência da crise. No Brasil, o aumento da dívida PIB foi relativamente baixo).
No ano 2000, pleno governo FHC, tal relação estava em alta constante e atingiu o pico de 55%. Em dezembro de 2001 estava em 53,36%. Sendo bastante justo, Armínio Fraga então previa muito bem que em 2010 a dívida/PIB chegaria a 35,9% mantida a sua linha macroeconomia, e caso houvesse crescimento do PIB e queda dos juros (como vinha acontecendo).
Isso significa, como dizem, que Lula, simplesmente “manteve a política de FHC”? Não é tão simples. Estou preparando cinco textos para expurgar o que penso sobre o passado, presente e futuro do Fla X Flu da política nacional: Lula do PT X FHC e Serra do PSDB. Mas resumindo, o governo Lula de fato manteve a linha macroeconômica desenhada por Armínio Fraga (faz diferença especificar) mas conseguiu isso sem executar o programa amargo que o PSDB dizia ser necessário para chegar a esse “paraíso” (sic). Vejamos:

– O governo executou apenas parcialmente a reforma da previdência do setor público. E não mudou a do setor privado para o modelo de contas individuais.

– O programa de privatizações foram paralisadas quase que completamente. Não houve nada da escala de uma Vale, Banespa, Sistema Telebrás, Embraer ou blocos de ações da Petrobrás. Ao contrário. O governo adquiriu empresas e reforçou a atuação, principalmente dos 3 bancos federais (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES)

– Não houve reforma trabalhista. Ao contrário, aumentou a fiscalização e formalização do mercado de trabalho

– Os sucessivos ganhos reais dos salários mínimos não causaram inflação ou desordem nas contas públicas

– Não precisamos abrir mais o mercado interno para produtos e serviços, com propunha a Alca ou a OMC, para termos maior acesos aos mercados e aumentarmos exportações. A China e a política de diversificação dos mercados se encarregaram disso

– O aumento de pessoas e salários no funcionalismo público em escala razoável não causou o caos. Acabou a precarização planejada de setores e instituições públicas como o sistema de universidades federais e várias autarquias. Está longe de ser o ideal, mas para vários setores foram feitos planos de carreira, concursos foram abertos etc…

Ou seja: O PT atingiu as bandeiras do PSDB ao mesmo tempo em que esvaziou o programa de ações do partido, superando-o. Isso sem falar de áreas em que o PSDB nem tinha tanto foco: ampliação do acesso ao crédito, distribuição de renda, habitação, Bolsa Família e ampliação da seguridade social, agricultura familiar, infra-estrutura (compare a efetividade do PAC com o “Avança Brasil” do FHC), cotas etc…
Como existiram ganhos consistentes e seguidos de renda em todas as classes sociais (e redução das classes mais baixas com crescimento da classe média) fica mais fácil entender a popularidade de Lula. Como o governo mantém uma prática de se relacionar com vários setores organizados, mesmo aqueles que tem conflito um com outro, usando partes diferentes da máquina do Estado para tanto (Exemplo: o Min. Da Agricultura defende o Agronegócio enquanto o do Desenvolvimento Agrário é próximo do MST e de entidades de agricultura família. Desenvolvimento-Fiesp; Trabalho-Centrais Sindicais) praticamente toda a sociedade civil sente que tem canais de relação e representação dentro do governo, que internaliza os conflitos (arbitrados pela figura “paternal”e singular do Lula). Não significa que todos esses setores apoiarão a candidato do Lula. Mas que tem pouca motivação para romper com o status quo e apoiar a oposição.
O PSDB mantém de forma automática o mesmo programa de “como”: as velhas reformas neoliberais que reduzem direitos, privatizações e abertura de mercado. Mas não consegue dizer para que precisamos fazer isso. Nem consegue explicar o porque de quando fazíamos isso a situação piorar cada vez mais. Não consegue sequer perceber, mesmo com Lula dizendo isso em entrevista, que toda uma geração de questões se esgotou, e são necessárias nova ambições, para um país com uma composição social diferente (longe dela ser suficientemente diferente).

O fato é que a candidatura do PSDB, principalmente se for Serra, sequer conseguiu ainda admitir a existência desse novo país e se relacionar simbolicamente com ele. A direção do PSDB já descobriu o problema. Mas ao entrar em campanha, vai ser difícil conter e afinar discurso com a extrema direita da elite conservadora, financista e midiática de São Paulo, antigos coronéis da política nordestina, e conservadores do Sul e Centro-Oeste, a base que sobrou para uma candidatura de oposição ao governo Lula.

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São Paulo parece moderna…

Instigado por alguns cidadãos excelentes resolvi escrever sobre o Festival de Política da Trip, que aconteceu no último domingo, dia 18 de outubro. Parto de uma pergunta via twitter

@aloisiomilani: Pergunta boa: se o negócio é para os jovens, qual o conceito de política que eles (Gabeira e Luiz Felipe D’Ávila) passaram?

Não vi o festival inteiro. Só vi o debate “principal” com o deputado pelo PaVê Fernando Gabeira, o publisher (odeio esta palavra) Luiz Felipe D´Ávila, fundador das revistas República e Bravo e que trabalhou na campanha do Fernando Henrique Cardoso, e Ronaldo Lemos, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas especializado, para reduzir bastante o que ele faz, em propriedade intelectual e cultura livre. E para os meus ouvidos, e apesar do Ronaldo e da boa mediação o debate foi de doer pela sua substância e digamos assim, “contexto”…Mas o que pode ter rolado de legal ou não em outros horários, não sei. Parece que a Verônica Kroll foi provocadora. Que deve ser o melhor possível a se fazer nessas situações. Jogar umas provocações e deixar todo mundo refletindo, fora do seu lugarzinho confortável de falso bem intencionado, ou pretensa ingenuidade.

Enfim, todo mundo tem direito a organizar e falar o que quiser, toda movimentação é legal em princípio, viva a democracia, e é isso aí galera, gente jovem e bonita falando de política, com área vip e hostess…

Do debate que vi, e respondendo a sua pergunta, foi um conceito de política bem raso (o que é meio normal, já que o evento era mesmo “pop/juvenil”) e institucional.

Foi quase que só focado na questão do voto (deve ter tido bastante ONG em outros momentos). E tratou a Internet como um “bezerro de ouro” da renovação da política. Lógico que a internet é importante politicamente. Fiz meu trabalho de conclusão de curso sobre isso, e seria o único tema pelo qual faria mestrado. Mas ouvir o Gabeira dizer que quase se elegeu governador do Rio graças a Internet (quando teve o apoio massivo dos veículos das Organizações Globo) é de doer.

O Gabeira tem muita história. Mas falar que existe um pequeno grupo de cidadãos conscientes graças a imprensa (ele está falando de Veja? Folha? Globo?) e uma massa sem consciência (não sei as palavras, mas era nitidamente a ideia) que “trocaria” votos por favores político é beirar a desqualificação da democracia…uma espécie de “brasileiro não sabe votar”. Sinceramente? Acho que são muito mais conscientes politicamente os 80% que aprovam o governo Lula porque viram sua vida e a vida das pessoas ao redor melhorar do que aqueles que odeiam o governo baseado no que leram na Veja…

O Ronaldo Lemos foi mais OK, mas bem coxinha, sem provocar, sabe? Ele fez cutucadas sutis na área de cultura, quando mostrou que mesmo com a internet longe de atingir toda a população, artistas que as elites desconhecem tem muito mais “view” que gente “estabelecida”, do esquema tradicional como Maria Rita. Ou seja, que o gosto A e B dos grandes centros é muito pequeno diante desse “país” que ganha visibilidade online com a emergência das classes C e D. Essa é uma questão fundamental, que desafia a esquerda e direita tradicional do país e sua própria compreensão. Mas ele não extrapolou isso para a política.

Já o Luiz Felipe D´Ávila é um achado! Figuraça! Bem apessoado, rico de berço, cientista político raso como um pires, alinhadinho, bem sucedido e aparentemente bem intencionado, Fernando Henrique até o osso é o estereótipo do tucano, que parece acreditar mesmo naquele besteirol todo sabe…Teve passagens antológicas. Por exemplo, ele disse que tem dois tipos de políticos: os que fortalecem as instituições e os que querem usá-las para se fortalecer. Nitidamente, e pelo campo que atua, ele deve achar que Fernando Henrique Cardoso faz parte do primeiro grupo e Lula do segundo. O fato do FHC ter feito a barbaridade de passar uma lei em benefício próprio, enquanto estava no poder e usando corrupção como meio, dando o direito de se reeleger, enquanto o Lula sempre barrou as iniciativas de outros para um terceiro mandato deve escapar a ele completamente nessa sua reflexão…

Mas o melhor veio na resposta de uma excelente pergunta do Fernando Luna, que mediava o debate. Ele questionou o que o D´Ávila, como representante da elite, achava da atuação política desse setor. Ele disse que a elite já foi mais atuante na política, citando com saudosismo a época do império, onde a participação política era vista como condição de ser cidadão. E disse que a elite foi se afastando da política, se voltando mais para curtir “o próprio sucesso” e que por isso hoje temos “essa elite política aí”. E que a elite devia voltar mais a participar da política, não só a elite econômica como “a cultural, a intelectual etc…”. Foi aplaudido por essa fala. Eu não entendo como alguém que estudou ciências políticas pode citar o Brasil do Império, uma sociedade escravocrata, com algum tipo de saudosismo que não seja pela chance de bater um papo com o Machado de Assis…Para minha visão de país, e para onde eu quero que ele vá, uma fala dessa é um ultraje. Por que quem eram os “não-cidadão” na época? O lugar da elite era o poder, era onde deviam estar, então onde estavam os outros? E o lugar dos negros então? Não digo que ele é racista. Ele simplesmente não consegue fazer esta reflexão. E idealiza o império como tendo essa qualidade. É uma leitura histórica de merda que se transforma em uma reflexão de merda, e uma fala de bosta. Ele não consegue perceber o próprio conservadorismo e opressão, em uma bela homenagem ao conceito de “consciência de classe”. Fala sério…

Ficou o tempo todo citando os Estados Unidos, “Marquinhos style”. Claro que a democracia norte-americana tem coisas legais, tem muito a se aprender com ela. Mas ficar idealizando, exemplo de “primeiro mundo”…parece que a gente não viu eles serem governados por 8 anos pelo herdeiro inepto de uma oligarquia política texana conservadora, trapaceira e mentirosa que deve nada aos Sarney (o Grande Satã do debate, o que não é injusto,mas esclarece pouco). Ou que a gente está saindo de uma crise enquanto eles estão se afundando nela. Ou que eles são incapazes de estabelecer o princípio de saúde universal na sociedade deles.

É legal ver alguém como ele falar, a gente não tem muita chance disso, até para não perder tempo demais na vida. Como o cara lê exemplos de outros países, como ele lê a história do país….A coisa que ele mais defendeu como solução foi voto distrital. Claro, voto distrital (sem o voto misto) recria a lógica das eleições majoritárias no legislativo, derruba o voto ideológico e o das minorias ou setores sindicais e reforça a lógica do poder econômico em disputas de currais. Mas enfim…Aos finalmente.

O debate que eu vi não foi nada inovador (não que esperasse que fosse). Ao contrário, focado bastante em política institucional-eleitoral, o tempo inteiro me pareceu permeado do típico rancor anti-Lula que assola a parte “nobre” de São Paulo e o entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas, com o qual, sorry anti-periferia, não consigo compartilhar. Até porque o rancor é justamente porque Lula mandou bem exatamente naquilo que lhes interessa (crescimento econômico, controle dos movimentos sociais, imagem do Brasil no exterior etc…) Deve ser isso que mais “irrita”. Ele ganhou no jogo da direita, nos critérios que eles inventaram.

Falou-se muito em “indignação”, em “corrupção”, em “moralizar”. Parecia que fora do Studio SP reinava o caos e as manifestações de rua contra este governo “odiado”. Teve muita ironia, indireta e diminuição do Lula, na linha “pegou tudo pronto pelo FHC” (parece que o país em 2002 estava uma maravilha…).

Então a análise do “lá fora” era uma coleção de chavões. Não parecia que estamos em um dos países que está enfrentando melhor a crise econômica mundial, ou que tem um dos presidentes mais populares, talvez o mais popular, do mundo, tudo isso com liberdade de imprensa, oposição, associação etc…

Quem eram as pessoas ali? Quem e o que representam? Do que elas estão reclamando?

Já que estamos falando em política, quais as causas concretas? As questões urgentes? As reivindicações?

Não que o Brasil não tenha problemas. Tem um monte. Mas quem reclamava ali quer a solução deles? Tem coragem de resolver isso? Essa é a causa política da molecada bem nascida e daqueles senhores que a “introduziam” na política do palco?

Sinceramente…As pessoas ali, as que estavam ali, estavam para reclamar do que mesmo?

Que país eles querem? Mas que país eles querem mesmo? A vida de carrão, dinheiro, empregados, fim-de-semana no litoral norte e viagens para a Europa não é boa o suficiente?

Ficou uma coisa bastante vaga, fora a revolta contra a “corrupção” (genérica ou encarnada no José Sarney), a necessidade de “moralizar” e clamores de crescente “indignação”. Olha, este comportamento na política brasileira não é nada novo e tem até nome. Chama-se udenismo, e é um show de conservadorismo, para que tudo permaneça como está. Porque a classe média e alta brasileira não tem vergonha na cara de admitir que vive bem paca no Brasil (com a questão da segurança sendo a nuvem nesse céu de brigadeiro). E que quando as coisas ficarem mais iguais por aqui, não vai dar para bancar este vidão, porque não vai ter empregada e a casa na praia vai ficar cara, e talvez você tenha que lavar a própria roupa e fazer faxina da própria casa…

É, estou generalizando, eu sei, mas para mim, o trecho e o clima que vi foi “vintage”: Udenismo e 32. Sabe, a trilha sonora “jovem” perfeita para o evento não tem nada a ver com o “Fight the Power” do Public Enemy que o Instituto tocou. Não precisavam ir longe não. É uma música do Tatá Aeroplano, que discotecou no evento. Chama “Pareço Moderno”. A letra acerta para esse tipinho tão paulistano, moderno na superfíce, as vezes até nos costumes, mas FPP no família, propriedade e política.

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Porque eu me cansei da política Soninha

Fazia tempo que eu estava me segurando para escrever sobre a Soninha…Ela é um assunto complicado para mim por uma contradição fundamental. Conheço-a faz muito tempo, e gosto muito dela, a acho uma pessoa incrível. Muito melhor do que eu sou, engajada, por isso é difícil criticá-la…Mas a acho politicamente equivocada. E acontece dela faz algum tempo ser política…e cada vez mais ser só política e cada vez mais equivocada…

Dessa contradição nasce este texto, e por isso ele ser tão extenso e ter esta estrutura: primeiro falo da minha admiração pessoal por ela, para a partir daí transmitir minha irritação e frustração com a sua trajetória política. Espero que o formato dê conta. Tratar, uma parte de cada vez, dois aspectos que não tenho como separar ao escrever sobre ela.

Então, vamos lá, os antecendentes antes dos finalmentes.

Pessoal

Conheci a Soninha 13 anos atrás, quando ela e minha irmã trabalhavam na MTV. Nesses anos todos ela passou a ser uma amiga e pessoa querida não só dela, como da família, uma pessoa muito legal. Em 2002, quando meu pai morreu, Soninha, que ainda não tinha nada a ver com política, fez companhia para a minha mãe por longas horas na madrugada do velório, quando todos nós estávamos derrubados. É o tipo de coisa generosa, em uma noite no meio da semana, sem nada em troca que não se pode esquecer nunca.

Quando a Época fez aquela cafajestada com ela, colocando uma pessoa responsável como “maconheira” em sua capa, minha mãe se indignou. Porque ela sabia que a “maconheira” era uma pessoa amável, que trabalhava muito e era muito generosa. Ali minha mãe viu que havia pessoas que consumiam eventualmente maconha, mas que eram sérias e que aquilo não afetava a vida dela. Acho que minha mãe deve ter sido a única pessoa que entendeu justamente o que a Soninha queria dizer quando se expôs daquele jeito, superando o preconceito contra usuários de maconha.

A Soninha sempre foi uma pessoa cheia de energia que diante de um desafio, se lança nele muito mais do que recua. Eu sou um que prefere quase sempre dar um passo atrás. Eu ainda acredito na sua sinceridade e honestidade na política. E realmente acredito que ela está tentando fazer o que acha certo. O que torna tudo mais complicado, mas também mais interessante.

Política parte 1 – Historinha…

Não sei se isso me dá mais ou menos autoridade para falar desse assunto…Mas em 2003, quando soube que Soninha seria candidata à vereadora de São Paulo pelo PT, eu lhe escrevi um longo e-mail aconselhando ela a NÃO se candidatar. Trabalhava na Câmara na época, e o que eu disse é que o PT era complicado, que o ambiente da câmara era podre, que o PT tinha problemas etc…Por conta disso eu me afastei do meu pequeno papel na política. Ela caiu dentro.

Em 2004 fez campanha com estrelinha vermelha e “Marta Prefeita” e foi muito bem votada. Mas a Marta em si não se elegeu. E Soninha foi ser oposição à prefeitura dentro de uma muy complicada bancada do PT municipal. E aí reside a primeira ironia…para a cúpula do partido e certamente para a própria Marta, um dos aspectos interessantes da candidatura Soninha era minar votos do “PT Vila Madalena” que era uma parte relevante da “bancadinha”, a ala mais independente da bancada do PT (estou falando de Nabil Bonduki, Tita Dias e Carlos Neder, e mais alguns outros). Nesse desenho, Soninha, “jovem e ingênua”, roubaria votos deles, ampliando a bancada do PT mais submissa ao executivo no segundo mandato de Marta. Tita, Nabil e Neder não se elegeram, mas não teve segundo mandato de Marta e a Câmara, e a própria Soninha, sofreram, principalmente sem Nabil e Neder, dois políticos muito qualificados, no legislativo…

Nos quatro anos de Soninha na Câmara estava afastado da política…Nunca pisei no gabinete dela, e fiquei nos meus trabalhinhos…Acompanhava as notícias, como ela se relacionava com ONGs, tinha iniciativas legais, comunicava as bizarrices da Câmara e comprava brigas homéricas contra os maus hábitos da casa. Um bom mandato.

Política parte 2 – o caldo começa a entornar

As coisas começam a ficar estranhas quando pouco depois de um ano de mandato ela tenta sair candidata a deputada federal. Rola uma ansiedade, uma falta de compromisso, uma ambição estranha…Acho que muita gente sente o mesmo…porque ela não se elege…é tipo um “fica aí Soninha, você é importante na cidade…”

Aí vem 2005 e a crise do mensalão…E as falhas do PT e das suas relações com os partidos aliados ficam expostas…

Antes disso já rolava uma relação próxima da Soninha com o executivo. Ela “convence” Serra a construir novos Centros de Educação Unificados (os CEUs). E ajuda na indicação de Carlos Augusto Calil (pessoa fantástica), que foi nomeado para o Centro Cultural Vergueiro na época da Marta, para secretário de Cultura do Município. Tudo bem…Mas sinceramente…O buraco é mais embaixo. O primeiro governo municipal “mezzo Serra/mezzo Kassab” foi muito esperto em não bater de frente com o que Marta havia construído na prefeitura…Muita gente de confiança seguiu nos seus cargos, muitos programas continuaram…E muito hipócrita também, para quem lembra como eles bateram nos CEUs, transformarem os CEUs “de segunda” que fizeram em bandeira política. E finalmente foram muito hábeis em fazer um governo “sub-Marta”, mantendo marcas dela, sinceramente melhorando algumas áreas, mas não avançando em mudanças estruturais como corredores, investimentos na periferia e habitação popular (inclsuive no Centro) e Renda Cidadã, e regredindo no transporte público e nas relações internacionais da cidade. E tirando o Cidade Limpa, inovando necas….Mataram o Orçamento Participativo, o Renda Cidadã, não avançaram no Conselho de Representantes e Coleta Seletiva…Isso tudo enquanto tinha um orçamento muito maior do que a Marta e uma máquina pública muito melhor do que a que ela herdou após Pitta/Maluf. Foi a estratégia deles. Não foi Soninha que os convenceu disso. Soninha se encaixou nessa estratégia.

A soma de um, sei lá, “fascínio”com o poder do Executivo com a pressão sobre o PT em 2005 (que visava derrotar Lula em 2006), com os problemas do PT municipal, mais o convite a ser candidata a prefeita pelo PPS (e aí a coragem de se lançar em desafios que admiro nela fica difícil de separar da precipitação e equívoco que vejo nos seus erros políticos), tudo isso soma para que ela saia do PT. E seja candidata a prefeita pelo PPS. Hoje eu acho que o José Serra estava por trás dessa oferta de legenda que o PPS fez para ela. Não tenho nenhum dado ou informação, mas é algo que acho, até porque esta operação PV/Marina é parecida demais, e coincidência demais…enfim…tende a não ser coincidência. Mas Soninha poderia estar na busca da trajetória dela, como acho que está a Marina. Tipo “desejo que seja feliz nesse novo caminho”, sabe?

Está certo que o PPS merece um parágrafo (merece é um texto inteiro…). É na minha opinião o partido mais equivocado do cenário político nacional…Por que quão maluco é um partido que acha que critica o governo do PT pela esquerda, ou seja, que as “reformas”, o DEM e principalmente o PSDB são um projeto mais “digno” do ex-PCB, de sua herança comunista, do que apoiar o governo Lula? A inveja que o Roberto Freire deve sentir do PT e de Lula, ele que lá atrás achou que não ia dar certo, ele que aderiu de forma tão entusiasmada ao Fernando Henrique Cardoso e ao projeto neoliberal…Coisa de maluco mesmo…E acabou assim, como a mais absoluta legenda auxiliar do PSDB (sei lá porque não se fundem logo…), e com seu líder irrelevante com um discurso de ocasião e sem fundamento…

Enfim…Soninha passou a se posicionar errado no fundamental plano nacional do embate entre o governo Lula e o PT (e seus aliados, muitos deles nojentos, como o Sarney, e de ocasião) X PSDB+DEM+PPS (prontos a receberem a turma de ocasião e com seus nojentos, como Quércia).  Ela não saiu do PT para criticá-lo pela esquerda, entende…E aliás, acho talvez que ela nem acredita neste tipo de divisão/embate. Sabe luta de classes, sindicatos X empresas, entreguistas x interesse nacional…é nessas que a “nova” política assume o papel de inocente útil…Porque a direita o odeia, mas nunca deixa de usar para consumo interno quando lhe interessa as brilhantes análises daquele velho barbudo que gostava da cor vermelha…E não, não é do Papai Noel que estou falando…

Mas voltando…No primeiro turno de 2008, Soninha fez uma campanha discutindo temas importantes para a cidade, do jeito dela. Segui defendendo-a como pessoa de amigos que a criticavam, apesar de não apoiá-la mais politicamente…E tudo bem em 2008 ela não defender a candidata dela em 2004, se ela estava defendendo diretamente uma visão dela que devia achar melhor que a da Marta em 2004.

Política parte 3 – “Aqui nos separamos…”

O problema começa mesmo em algo estranho no discurso e postura nos debates, como se Marta fosse pior que Kassab, e evolui feio no segundo turno. Soninha diz que vai sumir, que não vai apoiar ninguém. Mas nitidamente este “ninguém” é mais um contra Marta e só um silêncio em relação a Kassab. Na prática e nas declarações, Soninha está apoiando o Kassab. E isso é bizarro, porque e naquela eleição quem prestasse atenção notaria isso, Kassab defendia um governo “sub-Marta”, isso mesmo arrecadando muito, mas muito mais dinheiro que ela (e a ironia cruel de Marta ser chamada de “Martaxa”, mesmo com a arrecadação da prefeitura tendo subido muito mais que a economia da cidade, ou seja, com Kassab aumentando a carga tributária, não deve ter escapado aos canalhas). Vou escrever algo aqui que já escrevi nesse blog: Marta é rejeitada acima de tudo pelos seus próprios erros e alguns membros do lado escuro da força que a rodeiam, ou rodeavam. Mas para mim não fazia sentido político algum Soninha, tendo apoiado Marta em 2004, apoiar Kassab em 2008. Se ainda tivesse de fato ficado neutra, escapava de fazer besteira e se mantinha coerente…Não dava um tapa na cara naqueles que votaram nela quando o que aparecia na maquininha ao lado da foto dela era o 13…

E aí vem o pior…o fim da picada…Soninha aceita um cargo, ou como dizem muitos “CARGUINHO”, de Subprefeita da Lapa na gestão Kassab. Ou seja, passa a referendar, apoiar e se subordinar a esta gestão do ex-PFL, de um ex-malufista.

Pausa: não existe obrigatoriamente algo de vergonhoso em exercer uma função pública na gestão Kassab. O já citado Calil, por exemplo, acho que ele faz o que sempre fez, está no “partido da cultura” como ele diz. É possível executar funções públicas, de estado, dentro de certas condições, mesmo em uma administração com a qual não se identifique, de um partido que defende um ideário diferente do seu. Isso não vale para mim, mas admito que para outros sim…Também não há nada de desonroso e menor no cargo em si, em ser Subprefeito da Lapa. Aliás, moro na jurisdição dessa Subprefeitura, deve ser um trabalho duro, e Soninha deve tentar exercê-lo da melhor forma possível e eu tenho todo o interesse nisso. Para a região onde vivo, antes ela lá que alguém pior.

Mas veja bem…foi um tapa na cara de quem sempre a defendeu que a Soninha tenha aceitado este cargo. Porque foi uma contradição com o discurso dela, com a postura dela, e com o que ela defendia para a cidade. E aí está uma coisa interessante…os políticos de hoje parecem não entender a relação entre cargo e militância política…Se a Marta tivesse ficado e lutado pelo seu legado, contra as difamações e apropriações hipócritas das políticas públicas do seu governo, teria feito um bem para a cidade e para sua carreira política muito maior do que ocupando cargo por ter “máquina” em Brasília (quem acha que adianta algo em campanha em São Paulo ter sido ministra do Turismo…). Soninha perdeu a coerência quando ao invés de lutar por “outra forma de fazer política” se submeteu a um carguinho. Passou a baixar a cabeça para o segundo mandato do Kassab, quando ele começa a revelar sua alma malufista, e pior, defender absurdos totalmente contraditórios com suas ideais como a “Nova” Marginal, ou comandar Guardinha Municipal para cima do pobre do ambulante que vende CD Pirata…

E cada vez mais Soninha deixa claro que é a cara, o orgulho, a voz e discurso de um PPS parte do “Bloco Democrático Reformista” da Oposição para disputar as eleições de 2010. Ou seja, que esta do lado do DEM e do PSDB, com Serra, para retomar as “Reformas” (privatizações, perda de direitos trabalhistas e dos aposentados) é melhor do que estar com a continuidade do governo Lula. Isso mesmo após o “massacre” que o molusco aplicou em FHC, e com a tremenda melhora da qualidade de vida das classes mais baixas, das perspectivas do país, de sua inserção no cenário internacional, e da sua atuação na proteção de governos de esquerda em países da região (Bolívia, Venezuela, Paraguai e agora Honduras).

Soninha também está começando a verbalizar coisas que a aproximam de uma tendência que está surgindo por aí (prestem atenção) que acho bizarra…pessoas que usam o discurso ambiental contra o desenvolvimento de país para disfarçar um incômodo com a ascensão das classes C e D ao mundo do consumo…Gente que usa o ambientalismo para disfarçar preconceitos sociais e disputa de classes…É bem sutil (o movimento contra carros, por exemplo, não cai nessa roubada)…Mas preste atenção que tu vai ver…Não é fácil separar de ambientalistas legais…e muitos dos dois grupos estão embarcando na candidatura da Marina Silva…mas repare bem…

Então, se a Soninha se irrita quando o Paulo Henrique Amorim a chama de traíra, ou quando ela diz no Twitter que as pessoas a acham “no mínimo, desprezível” por ter saído do PT…Bem o Paulo Henrique Amorim não é exemplo de nada, é um Reinaldo Azevedo menos parnasiano e de sinal trocado…pelo sinal trocado acerta de vez em quando (até o Azedo vez por outra se distrai e solta uma verdade), mas é grosso, deselegante e enfim…Agora quem votou nela ou apoiou ou a defendeu quando ainda era “13”, se estes acham que ela os traiu estão no seu direito. Assim como de achar que esta fazendo besteira e o pior para o país quando passa a apoiar o Serra contra a Dilma ano que vem….É o preço de ter mudado de ideia e/ou lado.

Repare, ninguém chama a Heloísa Helena, o Ivan Valente, ou outros do PSOL de traíras por terem saído (ou sido expulsos) do PT… Eles se mantiveram a esquerda. Mesmo a Marina Silva ainda não está claro o que vai sair disso.

Eu não acho a Soninha “no mínimo, desprezível”. Acho-a uma pessoa incrível, mesmo que profundamente equivocada do embate político que se dá no país, na posição errada. Podia estar na oposição, mas não do lado de quem está…mas enfim…direito dela. É a vida e a democracia.

Da minha parte, que bom que desabafei….e chega de segui-la no Twitter…Onde tive que resistir a tentação de responder algo que (ufa, podem ver) levou muito mais que 140 caracteres para explicar…

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