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O artigo de FHC é bom, o problema é o autor

O artigo de Fernando Henrique Cardoso, publicado hoje em vários jornais como uma orientação de assuntos para a oposição é inteligente (íntegra do artigo abaixo, e inteligente não quer dizer que eu concorde com o texto). É um bom roteiro, com várias questões importantes. Inclusive o título é excelente, “Tempo de muda”. O problema inclusive é que o título  é tão bom que também se aplica ao autor e a oposição de forma mais ampla.

Podemos dispensar o exercício quase cruel de comparar as críticas de FHC ao governo Lula-Dilma com o desepenho dele como presidente. Beira o ridículo pensar em como foram construídos nas trevas os consórcios da privatização em seu governo, para ficar em um exemplo de contradição entre sua crítica e prática. Ou o uso do BNDES na sua gestão, de novo, para financiar a privatização.

A questão principal, para a oposição, é que ter um roteiro de críticas não é nem metade (e a mais fácil) parte do trabalho. A outra seria ter um plano interessante, que representasse anseios e melhor qualidade de vida para amplos setores da sociedade. Ter, enfim, uma proposta. Só que criar um ideário não é coisa assim tão fácil…

O PSDB não tem sequer programa para concorrer com o PT. Por isso, faz oito anos que esperam que o governo federal imploda em um fracasso que não chega, muito pelo contrário (com o mensalão em 2005, e a crise de 2008, tinham certeza que Lula naufragaria). O PSDB pode defender isso externamente, mas já era hora deles se darem conta que o PT não é tão incompetente a ponto de se auto-destruir. O irônico é que talvez, mesmo quando esse dia cheguar, provavelmente do jeito que estão conduzindo seu próprio partido não estarão preparados.

O PSDB começou querendo ser social democrata, mas chegou ao poder com a cartilha neoliberal dos anos 1990, e essa fracassou na prática, aqui e no exterior, e se tornou insustentável como discurso junto ao eleitorado. Hoje o exterior não tem nenhuma cartilha para exportar, ao contrário, o Brasil anda bem mais esperto e com rumo que os países desenvolvidos. Na sociedade o PT ocupou espaços que eram do PSDB, ao não assustar mais o empresariado e o mercado financeiro. E empurrou os tucanos para o canto direito, como partido elitista, preconceituoso e entreguista, defensor de um status quo de desigualdade e submissão ao exterior, enquanto o PT representaria o novo país de classe média e potência emergente. E, em parte por tudo isso ter algo de verdade, a caracterização pegou.

É realmente, tempo de muda, de governo, da oposição e de geração política, mas ao invés disso o PSDB acha que é problema de imagem e interpretação histórica do governo FHC, não de essência. Essa batalha já foi perdida. 2010 foi a última eleição “Legado Lula” X “Legado FHC”. Perdeu, playboy! Se o PSDB quiser seguir mantendo essa discussão estará encomendando outra derrota. Ele deveria preparar o discurso para frente, para superá-la.

O caminho da oposição de direita passa bem menos por discutir a intensidade com que fará oposição contra Dilma e bem mais pela redução do papel dos tucanato paulista nas disputas nacionais. De TODO o PSDB paulista. A coisa é simples assim: após perder 3 eleições nacionais, o PSDB-SP devia trabalhar em função da construção da canditatura Aécio, visando chegar ao planalto em 4 ou 8 anos. O PT levou 13 para chegar lá com Lula…

Fernando Henrique precisava ser mais prático e desencanar de defender seu governo ou querer ser figura de proa da oposição. José Serra deveria desistir da presidência e “jogar para o time” da construção partidária (sei que jamais acontecerá) e mesmo Alckmin deveria de cara se colocar ou como candidato à vice de Aécio caso seja a melhor opção, ou trabalhar sua releição.

Aécio é o candidato forte do consórcio PSDB-DEM-PPS.  É a chance deles. O resto são xurumelas imaginárias: aventuras de grupos (Alckmin) ou, nessa altura do campeonato, distúrbio maníaco-obssesssivo mesmo (Serra).

Se a oposição fosse capaz de largar as disputas internas em nome de uma construção partidária e arco de alianças, refazendo ideário, reforçando sua construção nacional, estatutos e a qualidade dos governos do partido, ficaria em boa posição para colher esse eventual colapso petista que eles prevêm que vai acontecer todo o ano desde 2002.

O “legal” de escrever isso é saber que o PSDB é absolutamente incapaz de seguir um roteiro desses. Porque debaixo dessa coisa moderna que eles acham que tem, é um partido marcado pelos mesmos cordialismos e caciquismos da política brasileira, com um estatuto débil, cultura interna nula e incapaz de se relacionar com a sociedade civil. O desprezo deles com as classes trabalhadoras e suas organizações está demonstrado no uso do termo “pelego” no texto de FHC para as organizações sindicais. Sindicatos de que o PSDB tem nojo , quando, em geral, são a base dos partidos sociais-democratas de verdade (no caso brasileiro, o PT, não o PSDB)

E ainda tem a infinita capacidade e energia do Serra e sua gangue de sobrepor sua agenda pessoal à da oposição, mesmo quando isso já não faz nenhum sentido…

Hoje o governo e o futuro domínio político imediato é do PT, que teria que perder para si mesmo para não seguir governando pelos próximos 8 anos. E o futuro alternativo é de alguém que vai voar abaixo do radar do dia-a-dia futriqueiro do jornalismo político: Marina Silva. Que tem um discurso e está construindo uma base (se tem um programa e quanto esse programa é consistente é outra coisa, mas ela definitivamente tem um discurso e está construindo uma base).

Já os tucanos…

Se o PSDB quiser passar mais quatro anos tentando reabilitar a popularidade do governo FHC, o PT vai adorar. FHC pode disputar o passado, seu papel nos livros de história, quanto quiser…Difícil é ele quere ter a ambição de ser protagonista da construção de qualquer futuro.

Tempo de muda, por Fernando Henrique Cardoso*

Novo ano, nova presidente, novo Congresso atuando no Brasil de sempre, com seus êxitos, suas lacunas e suas aspirações. Tempo de muda, palavra que no dicionário se refere à troca de animais cansados por outros mais bem dispostos, ou de plantas que dos vasos em viveiro vão florescer em terra firme. A presidente tem um estilo diferente do antecessor, não necessariamente porque tenha o propósito de contrastar, mas porque seu jeito é outro. Mais discreta, com menos loquacidade retórica. Mais afeita aos números, parece ter percebido, mesmo sem proclamar, que recebeu uma herança braba de seu patrono e de si mesma. Nem bem assume e seus porta-vozes econômicos já têm que apelar às mágicas antigas (quanto foi mal falado o doutor Delfim, que nadava de braçada nos arabescos contábeis para esconder o que todos sabiam!) porque a situação fiscal se agravou. Até os mercados, que só descobrem estas coisas quando está tudo por um fio, perceberam. Mesmo os velhos bobos ortodoxos do FMI, no linguajar descontraído do ministro da Fazenda, viram que algo anda mal.

Seja no reconhecimento maldisfarçado da necessidade de um ajuste fiscal, seja no alerta quanto ao cheiro de fumaça na compra a toque de caixa dos jatos franceses, seja nas tiradas sobre os até pouco tempo esquecidos “direitos humanos”, há sinais de mudança. Os pelegos aliados do governo que enfiem a viola no saco, pois os déficits deverão falar mais alto do que as benesses que solidarizaram as centrais sindicais com o governo Lula.

Aos novos sinais, se contrapõem os amores antigos: Belo Monte há de vir à luz com cesariana, esquecendo as preocupações com o meio ambiente e com o cumprimento dos requisitos legais; as alianças com os partidos da “governabilidade” continuarão a custar caro no Congresso e nos ministérios, sem falar no “segundo escalão”, cujas joias mais vistosas, como Furnas (está longe de ser a única), já são objeto de ameaças de rapto e retaliação. Diante de tudo isso, como fica a oposição?

Digamos que ela quer ser “elevada”, sem sujar as mãos (ou a língua) nas nódoas do cotidiano nem confundir crítica ao que está errado com oposição ao país (preocupação que os petistas nunca tiveram quando na oposição). Ainda assim, há muito a fazer para corresponder à fase de “muda”. A começar pela crítica à falta de estratégia para o país: que faremos para lidar com a China (reconhecendo seu papel e o muito de valioso que podemos aprender com ela)? Não basta jogar a culpa da baixa competitividade nas altas taxas de juro. Olhando para o futuro, teremos de escolher em que produtos poderemos competir com China, Índia, asiáticos em geral, Estados Unidos, etc. Provavelmente serão os de alta tecnologia, sem esquecer que os agrícolas e minerais também requerem tal tipo de conhecimento. Preparamo-nos para a era da inovação? Reorientamos nosso sistema escolar nesta direção? Como investir em novas e nas antigas áreas produtivas sem poupança interna? No governo anterior, os interesses do Brasil pareciam submergir nos limites do antigo “Terceiro Mundo”, guiados pela retórica do Sul-Sul, esquecidos de que a China é Norte e nós, mais ou menos. Definimos os Estados Unidos como “o outro lado” e percebemos agora que suas diferenças com a China são menores do que imaginávamos. Que faremos para evitar o isolamento e assegurar o interesse nacional sem guiar-nos por ideologias arcaicas?

Há outros objetivos estratégicos. Por exemplo, no caso da energia: aproveitaremos de fato as vantagens do etanol, criaremos uma indústria alcoolquímica, usaremos a energia eólica mais intensamente? Ou, noutro plano, por que tanta pressa para capitalizar a Petrobras e endividar o Tesouro com o pré-sal em momento de agrura fiscal? As jazidas do pré-sal são importantes, mas deveríamos ter uma estratégia mais clara sobre como e quando aproveitá-las. O regime de partilha é mesmo mais vantajoso? Nada disso está definido com clareza.

O governo anterior sonegava à população o debate sobre seu futuro. O caminho a ser seguido era definido em surdina nos gabinetes governamentais e nas grandes empresas. Depois se servia ao país o prato feito na marcha batida dos projetos-impacto tipo trem-bala, PACs diversos, usinas hidrelétricas de custo indefinido e serventia pouco demonstrada. Como nos governos autoritários do passado. Está na hora de a oposição berrar e pedir a democratização das decisões, submetendo-as ao debate público.

Não basta isso, entretanto, para a oposição atuar de modo efetivo. Há que mexer no desagradável. Não dá para calar diante da Caixa Econômica ter se associado a um banco já falido que agora é salvo sem transparência pelos mecanismos do Proer e assemelhados. E não foi só lá que o dinheiro do contribuinte escapou pelos ralos para subsidiar grandes empresas nacionais e estrangeiras, via BNDES. Não será tempo de esquadrinhar a fundo a compra dos aviões? E o montante da dívida interna, que ultrapassa um trilhão e seiscentos bilhões de reais, não empana o feito da redução da dívida externa? E dá para esquecer dos cartões corporativos usados pelo Alvorada que foram tornados “de interesse da segurança nacional” até o final do governo Lula para esconder o montante dos gastos? Não cobraremos agora a transparência? E o ritmo lento das obras de infraestrutura, prejudicadas pelo preconceito ideológico contra a associação do público com o privado, contra a privatização necessária em casos específicos, passará como se fosse contingência natural? Ou as responsabilidades pelos atrasos nas obras viárias, de aeroportos e de usinas serão cobradas? Por que não começar com as da Copa, libertas de licitação e mesmo assim dormindo em berço esplêndido?

Há, sim, muita coisa para dizer nesta hora de “muda”. Ou a oposição fala e fala forte, sem se perder em questiúnculas internas, ou tudo continuará na toada de tomar a propaganda por realização. Mesmo porque, por mais que haja nuances, o governo é um só Lula-Dilma, governo do PT ao qual se subordinam ávidos aliados.

*Ex-presidente da República

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Porque voto em Dilma Rousseff e também porque não voto em José Serra

Quando as calúnias, os preconceitos, o chavão e a preguiça mental atacam…só nos resta ser mais sinceros, pacientes, dialogar mais, explicar nossos argumentos, dar a cara para bater e colocar nossa sinceridade a serviço do que acreditamos. Acompanhei, vi e vivi os governos de FHC, Lula, Marta, Kassab, Serra e Alckmin. Conheço as biografias, propostas e realizações deles. É com o aprendizado, conhecimento da minha vida que decido meu voto. E assim que deve ser. Não com preconceitos ou ignorância.

Defendo a eleição da Dilma Roussef e voto nela. Pela evolução desse governo em relação ao anterior em várias áreas – inclusão social, economia, cultura, ciência e tecnologia, política externa, infra-estrutura, universidades etc…Estou disposto a debater e mostrar os avanços em cada uma dessas áreas, com quem quiser (alguns temas quero tratar nesse blog).

E também poque este governo foi mais democrático, abriu para participação, em conselhos da sociedade civil e conferências temáticas, de vários setores da sociedade (inclusive, e muito, os empresários) nas decisões governamentais.

 

 

Dilma e Lula

Dilma e Lula

 

O governo deu um show, por exemplo, na defesa do Brasil durante a crise econômica mundial de 2008, enquanto em 1999, governo do PSDB/Fernando Henrique/José Serra, o Brasil CAUSAVA crises mundiais. É importante dizer que nossa situação econômica era péssima em 2002, fim do govenro FHC. A imprensa brasileira tem tratado a grave crise econômica mundial como coisa menor, e o que o governo brasileiro fez como banal. Quem lê inglês e a imprensa estrangeira sabe que não é nada banal o que Guido Mantega, Henrique Meirelles, Lula e Dilma coordenando o governo, fizeram.

O resultado desse bom trabalho: o Brasil nunca cresceu tanto, teve tanto emprego, foi tão respeitado no exterior, ou os pobres nunca melhoraram tanto de condição de vida (mesmo com muito a ser feito). Tudo isso com liberdade de expressão (a imprensa bate no governo, e muito), religiosa, eleições livres etc…Como deve ser.

Estou ciente que o governo e o PT são cheios de defeitos, mas o PSDB tem os mesmos, mesmos defeitos (alianças bizarras, corrupção etc…), e menos respeito institucional (o FHC mudou a constituição para se beneficiar, diferente de Lula, que não disputou o terceiro mandato.), menos defesa do nosso país , do seu patrimônio e menos empenho no combate à pobreza (em 16 anos no governo estadual de São Paulo, parece que até hoje o tema não virou prioridade aqui).

O PSDB também é menos fiscalizado pela imprensa, ou seja, no final das contas, se você for pensar, o PT estimula mais a liberdade de imprensa que o PSDB. A imprensa adora fiscalizar e criticar o PT, e isso o obriga o partido e os governos administrados por ele a terem limites, a ser cada vez melhor. Diferente do governo de São Paulo, que abafa CPIs e não tem que dar explicações de suas políticas, e falta de políticas, públicas.

Imagine quanta restrição existe, indireta ou direta, no jornal Estado de S. Paulo para fiscalizar quem os donos do jornal, em editorial, chamaram de “homem público exemplar”? A melhor coisa para nós, cidadãos, é a imprensa fiscalizando o PT. Por exemplo: o governo melhorou muito depois que Zé Dirceu e Antonio Palocci caíram com o mensalão e foram substituídos por Dilma e Guido Mantega.

Vale falar também porque eu não voto no Serra, especificamente, o que envolve traços pessoais peculiares dele: acho ele mentiroso (além do normal, mesmo para um político), de um ego descontrolado e dono de uma ambição desmedida. Não vou entrar aqui nos casos enrolados em que ele esteve envolvido, nas bobagem que ele disse, dos dossiês armados até contra aliados, ou nos jornalistas que ele pediu para serem demitidos, ou nas relações perigosas com Daniel Dantas e Gilmar Mendes, ou nas contas de dividir errada que ele fez em uma sala de aula… (de novo, posso fazer isso, a pedidos). Para mim, e porque eu não me conformo, bastaria o vídeo abaixo, onde ele assume o compromisso, que depois assinou e firmou em cartório, de ficar seu mandato completo na prefeitura de São Paulo. Ele saiu em menos de 18 meses para ser candidato a governador (cargo que ocupou o tempo inteiro pensando em ser presidente…), deixando o Kassab aqui… Para mim o vídeo abaixo prova que eu não posso acreditar em nenhum compromisso dele, em nada que ele diz em debates, programas eleitorais, entrevistas ou discursos. Nem sobre o pré-sal, a Petrobras e demais privatizações (essa nova dele que vendeu a Nossa Caixa para fortalecer o Banco do Brasil é de ofender a inteligência de qualquer um), nem com a manutenção do Bolsa-Família (diga-se de passagem, porque todo mundo que é contra o Bolsa Família vota nele?). O sujeito fala qualquer coisa, faz qualquer coisa para cumprir sua obsessão de mais de 45 anos (medo!) em ser presidente. O tal “preparo” que ele fala é ambição em tomar o poder, não a humildade necessária para exercê-lo.

E assim, entramos na razão que fortaleceu ainda mais a minha convicção da necessidade de derrotar o Serra. Nessa campanha, nem é o PSDB, mas José Serra e o seu vice, e isso me surpreendeu, tem apelado descaradamente para o machismo, o fanatismo religioso a ameaça de restrição dos direitos dos homossexuais e demais medos e preconceitos, principalmente da classe média.

É um falso debate de uma hipocrisia sem limites, um oportunismo eleitoral nojento jogando com coisas perigosas. O Serra consegue ser pior do que o Alckmin, que muito mais religioso que ele, nunca apelou para isso (aliás, o Serra para mim conseguiu o feito de  um governo estadual pior que o do Alckmin). Bem, nem isso é exatamente novidade. Quer dizer, o caráter moralista, preconceituoso e religioso é novidade sim (o machismo ele já tinha usado e abusado contra a “Dona Marta”). Mas quem foi mesmo que sacou o medo na eleição de 2002? Veja o vídeo abaixo. Veja como a Regina Duarte fala que o outro candidato, o Lula, se tornou “desconhecido”, um rico e que votar em outro que não o Serra é “perigoso”. Você tem razão em uma coisa Regina. Do Serra a gente sabe o que esperar. Todo o tipo de golpe baixo na luta pelo poder. Inclusive usar todas as armas disponíveis para incitar o ódio enquanto pela frente posa de simpático candidato da “união”.

 

 

PS: quero adicionar ao post esse simpático infográfico do @ilustrebob Muito legal e muito ético

 

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Os retardatários do atraso – ou a imprensa e Serra

Acabei de ver pela primeira vez o “novo” Roda Viva, entrevistando Demétrio Magnoli. Ainda volto ao tema. Mas enqanto assistia  pensei em Serra, na TV Cultura, na nossa grande imprensa, nas bancas nos dias de hoje, na Veja, que eu já analisei tanto, Folha de S. Paulo, direita brasileira etc… E a guerra santa deles contra blogs, twitter, Lula, Dilma, a popularidade do presdente etc…
Eu não pensei sozinho não. Conversei muito com a minha irmã. “Não tenho jornal para ler. É tudo idiota, fascista, mentiroso. Eu não posso ler uma crítica justa ao governo, bem feita.”
A questão toda é essa. Nesse mês que vai até as eleições e talvez por um tempo depois, vamos ver um espetáculo muito tosco. Onde jornal é Folha de S.Paulo, revista é Veja, e intelectuais são o Reinaldo Azevedo e o Magnoli. Essas são as referências deles…
O ponto é que se não fossem tão fiéis à suas próprias naturezas – toscos (a palavra merece ser repetida), preconceituosos, isolados na sua visão de elite ou classe média arrivista e medrosa –  talvez pudessem de fato construir críticas aos aspectos negativos que existem no PT e no governo. Talvez conseguissem construir uma alternativa. Talvez conseguissem ser a oposição que querem ser. Quem sabe até cumprir uma função pública construtiva como oposição. Mas hoje o atraso no Brasil está conseguindo ser incompetente até no seu papel de ser reacionário…(essa tese de mestrado de Fabio Jammal Makhou, na PUC-SP é genial nesse sentido, ao mostrar que a tosquice da Veja em tentar derrubar Lula só fortaleceu Lula).
A mídia diz que é problema do Serra, que não parte para o confronto direto, ou do PSDB, que não fez oposição por 8 anos. Serra acha que falta apoio da mídia. O problema são sempre os outros. Não enxergam que se merecem, são espelho um do outro: toscos, avessos ao debate, a organização, incampazes de atuar no longo prazo ou construir instituições que funcionam, adeptos dos conchavos, traições e personalismos.
O que dizer de um candidato cujo “plano de governo” são dois discursos seus… E que se defende “mas eu escrevi mesmo os discursos”. Plano de governo deveria ser uma peça séria desenvolvida por gente de várias áreas em debates inteligentes, cobrindo e integrando temas complexos com propostas de políticas públicas. Não redações: “O que eu farei como presidente”, não importa quem seja o autor.
O que dizer da Folha de S.Paulo?  O que as pessoas tem que fazer para se tornarem chefes naquele ambiente? Ou na Veja? Quanto diversidade foi expulsa da imprensa no eixo Rio-São Paulo-Brasília? Eu tenho hoje dó de ver essa burrice de Merval Pereira, de Augusto Nunes, tentando achar em seus repertórios pobres, em sua cultura de salão, no meio da sua empáfia que deve ter sido muito útil  para chegarem onde chegaram, uma saída para se contrapor ao “apedeuta”, ao “analfabeto”, ou para não serem humilhados em blogs feitos por pessoas no seu tempo livre… eles ficam tentando travestir de “análise de política” tentativas desastradas de consultoria política ao PSDB. É ridículo.
O que sobrou na oposição? É importante lembrar que eles não são a elite, o capital, os poderosos, o fisiologismo, ou mesmo muitas das oligarquias. A maioria desses, os mais ponderados, sensatos, ou mais espertos no cuidar dos seus interesses também estão com a Dilma. O mercado financeiro está com o PT, o que é bizarro em muitos sentidos. Mas um dos mais interessantes é ver o que sobrou, nessa imprensa mais realista que o rei, mais tucana que os tucanos, exposto para quem quiser ver:
a burrice e o preconceito estão desnudos.
Voltemos ao Roda Viva. Tradicionalmente um espaço de debate, de entrevistas amplas que vem desde a redemocratização do país. O PSDB finalmente conseguiu destruí-lo. Por causa de uma pergunta sobre pedágios feito ao Serra, finalmente acabou sua pluralidade, diversidade e colocaram no comando a apresentadora mais perdida e rasa de toda sua história, nada pessoal contra a Marília Gabriela, é só uma pessoa completamente deslocada de onde deveria estar, para ser útil a essa imbecilidade. Dois jornalistas medalhões “caga-regras” fixos, independente de serem quem são, e até respeito o Paulo Moreira Leite, mas em plena era onde esses tipos ficam cada vez menos relevantes e patéticos…E só dois  convidados rotativos.
Como Magnoli é opositor das cotas, deram de chamar em uma dessas vagas o escritor Paulo Lins. E Paulo Lins, a certa altura, apontou o óbvio, denunciou a farsa estrutural de sua presença ali: por que ele era o único negro na mesa? E por que eles não notavam que ele era o único negro na mesa de entrevistadores, mas que entre os técnicos a proporção de negros era maior? Todos se indignaram, se ofenderam, e reagiram em uníssono contra Paulo, como se  que ele tivesse dizendo fosse racismo, depois tratando-o de forma condescendente.
Típico! Típico! Típico!
O que Paulo Lins tentou foi denunciar que sua presença ali era uma espécie de “cota racial”. Ou concessão. Para fazer o papel de negro que defende as cotas.Imagine a produção “xi, o Magnoli  ataca as cotas, mas não tem nenhum negro na bancada. Ah, vê se o Paulo Lins pode vir…”
No fim, Magnoli, talvez tenha feito forma perversamente calculada, mas provavelmente de forma incosciente, comentou as participações de todos os entrevistadores. Menos de Paulo Lins. Menos do negro que estava ali para justificar que eles não eram racistas, que não havia discriminação no debate. Para “fazer uma pose” e “dar um colorido” ao debate.
Essa gente não nota que faz essas coisas. Não nota o quanto discrimina. Não nota quanto oprime a empregada. Não nota a arrogância idiota e ignorante de São Paulo em relação ao resto do país. Não nota e não quer reconhecer o que os últimos 8 anos representaram – no campo simbólico, mas ainda mais na prática – para o Brasil. Não percebem que isso é obra de muito mais que um homem, ou partido, mas de uma trajetória do país. Preferem dizer que tudo foi conquistado por FHC, para não quebrar sua escala de valores simbólicos. Falam demais. Ouvem muito pouco. Não enxergam nada que escape aos seus preconceitos. Vão para a Europa e Estados Unidos, e não entendem porcaria nenhuma, confundem primeiro mundo com ostentação. Nesse mês  que estarão histéricos  tudo isso será ainda pior.
Não é por causa do PT, de Lula, das pessoas de esquerda que essa gente está esfarelando. É culpa da indigência mental, moral, de projeto, de relação com o Brasil  que eles tem.
Esses nossos compatriotas…pareciam imbatíveis, tão pouco tempo atrás…que decepção…Mas era de se esperar que o programa de incentivos à burrice deles fosse terminar nesse show tosco que estamos vendo nos jornais e TVs deles esses dias.

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FHC, Lula e uma partida de futebol

Para explicar o que acho da polêmica discussão sobre os legados e papéis de Fernando Henrique Cardos, o FHC, e Luís Inácio da Silva, o Lula, na indiscutível melhora recente da situação  do Brasil, resolvi vestir a pátria de chuteiras e usar como ampla metáfora algo que muitos de nós entendem melhor do que política e economia: futebol!

É como se os últimos 16 anos fosses duas partidas de 90 minutos, cada mandato de 4 anos os 45 minutos de um tempo de jogo. FHC foi o técnico na primeira partida, Lula na segunda. Quem é o adversário? Vamos dizer que são as “forças ocultas”, os problemas do país. E vamos ao jogo, que é bola rolando meus amigos!

O jogo começa com o time de FHC marcando um golaço com o Plano Real e já saindo 1 X0. A maldição chamada memória grande não me deixa esquecer que o gol foi marcado quando FHC ainda era jogador/assistente técnico de Itamar Franco, mas o time já era praticamente dele. Esse gol era muito esperado, e levou a torcida ao delírio, todo mundo comendo yogurte e frango na arquibancada. O time se empolgou um pouco com esse 1×0 e o tratou como goleada. Vendeu jogadores importantes (telefonia fixa, Vale do Rio Doce) por valores baixos para clubes estrangeiros. E seguindo a orientação dos assistentes Gustavo Franco (volante de contenção que não sabia dar qualidade a saída de jogo) e Pedro Malan, o time passou a jogar extremamente recuado (juros altos e câmbio sobrevalorizado) tocando a bola lá atrás perigosamente.

Essa foi a dinâmica de todo o primeiro tempo, com a torcida empolgada com a vantagem e apenas alguns críticos apontando que não dava para seguir com aquela tática para sempre. Aqui e ali o adversário ameaçava o gol brasileiro, e a resposta era mais do mesmo, recuar com troca de passes perigosos na frente da área. Um jogador da Ásia e um da Rússia meteram bolas na trave do escrete brasileiro. Mas a trinca da comissão técnica FHC-Malan-Franco não mudava o padrão de jogo e com uma ajuda do juiz FMI conseguiram se segurar por todo o primeiro tempo. FHC foi reeleito em 1998 para comandar o escrete canarinho por mais 45 minutos.

Mas o segundo tempo iria parecer o do Brasil e Holanda da última copa. Logo no começo, em janeiro de 1999, um gol dos mercados especulativos empatou tudo, 1X1 e o real e o jogo ficaram em risco. Gustavo Franco deu uma de Felipe Melo e foi expulso do banco (central) sendo substituído por Armínio Fraga, que conhecia muito da tática do adversário por ser olheiro do time deles.

Armínio mudou o padrão de jogo, soltando o câmbio livre para flutuar e instalando um sistema de metas de inflação para ordenar a defesa. O Brasil não chegou a ir para o ataque, mas o adversário também já não chegava toda hora na cara do gol. Com o passar da crise e melhora das exportações, em 2001 o Brasil começou a se arriscar mais a frente.

Mas desde o primeiro tempo a comissão técnica não prestava atenção para o zagueiro setor elétrico. Os críticos apontavam que o veterano andava lento e precisava de um reforço muscular. Enquanto o time estava na defesa, tudo bem, ele se posicionava com qualidade. Mas assim que o Brasil começou a avançar, e o crescimento econômico ameaçou voltar, ficou claro que ele não seguraria os atacantes adversários nos contra-ataques. E foi assim, que em em 2001, houve o apagão elétrico. O zagueiro teve caimbrã, e foi praticamente um gol contra, com recessão, por falta de planejamento do preparardor físico de FHC, Pedro Parente.

2X1 e uma situação difícil, com um zagueiro contundido, um volante expulso, e contas a pagar. O salário do time estava atrasando, a condição física não era daquelas. A direção dependia de agiotas para fechar as despesas básicas do clube.

Em 2002, as vésperas da nova eleição, o time tomou outro gol, com mais um ano péssimo para a economia. 3×1. FHC culpou a instabilidade com a chegada prevista do novo técnico, que colocaria o time para jogar mais ofensivo e pela esquerda. Disse que isso dividiu o grupo e permitiu outro ataque especulativo.

No fim do ano de 2002, começo de 2003, nova partida começa, com novo técnico.

FHC de fato fez um gol, mas entregou uma situação difícil para o sucessor, que teria que virar a partida no jogo de volta.

Lula fez sua preleção e entrou com um esquema tático que ninguém esperaria dele. Manteve a organização da defesa nos moldes do Armínio Fraga, trocando o 6 (Fraga) por 1/2 dúzia (Henrique Meirelles). Mais: Antônio Palocci recuou o time todo para trás da linha da bola, com um forte arrocho chamado superávit primário. Tática completamente inesperada, que irritou a torcida organizada do treinador e inclusive gerou uma dissidência chamada PSOL.

Todo mundo ficou desconfiado, e o jogo passou 2003 inteiro com o Brasil sem marcar um gol, e sem vergonha de dar canelada e bola para o mato que o jogo é de campeonato. Tensão. Mas o treinador já preparava suas cartas na manga. Duas delas dariam bom resultado ainda no desenrolar do primeiro tempo.

Lula mandou aquecer 3 jogadores que nunca tinham entrado em campo. Sempre ouviam promessas de que teriam sua chance, mas na hora H sempre eram barrados, tachados de inexperientes, despreparados, não mereciam ser titulares. São as classes C, D e E.  A comissão técnica preparou uma receita para colocá-los em forma: crédito consignado para expansão do consumo, aumento do salário mínimo e Bolsa Família. Outras formas de preparação, como Reforma Agrária e Fome Zero, não foram utilizadas ou abandonadas no meio do caminho. E eles ficaram lá, se aquecendo na beira do gramado.

A outra cartada na manga veio do meia-armador Celso Amorim. No governo FHC o ataque do comércio exterior insistia em centralizar as jogadas pelo meio, dando de cara com a forte trinca de zagueiros dos Estados Unidos, Comunidade Européia e Japão, que exerciam um forte protecionismo da área. Com a linha burra de impedimento chamada Alca, havia o risco dos atacantes do Brasil sempre estarem em posição irregular e jamais ficarem na cara do gol novamente. Amorim começou a acionar mais as jogadas (multi) laterais, com avanço pelas pontas. De um lado, os emergentes Rússia, Índia e China. Do outro, a integração com a América do Sul e a busca de mercados na África e Oriente Médio. Claro que a China estar ávida por commodities chegando na sua linha de (produção) fundo ajudou muito, mas é importante um técnico também ter estrela e aproveitar o momento. Essa diversificação de jogadas visava não parar de tentar tabelas pelo meio, mas abrir a zaga central e marcar um ou vários gols no comércio exterior. Foi por aí que o Brasil passou a ter superávit na balança comercial.

Gol do time de Lula, mas ainda 3X2 para os adversários. O técnico então colocou as classes C, D e E em campo, mais ou menos quando Zé Dirceu, um falso ponta (esquerda) do time, foi expulso de campo por simulação (mensalão) e Palocci por um escândalo envolvendo sexo e o caseiro da concentração.

Os novos jogadores melhoraram a distribuição da bola e da renda no campo e nas cidades também. A distância entre o primeiro e último jogador do time Brasil continuou enorme e injusta, mas diminuiu em relação ao que sempre foi um problema crônico do nosso escrete. O time ganhou novo ar e fôlego para crescer. Fica claro que dá para ir saindo do campo de defesa (baixando os juros) e voltar a exibir nosso futebol mais vistoso. O empate era questão de tempo, e veio quando até os mais ricos notaram que podiam tabelar com o consumo da Classe C, expandindo a economia e chegando juntos na cara do gol: 3X3.

Muita emoção!!!! Empate. Será que o time agora engrena?

Bem nessa hora o juiz apita o fim da primeira etapa. Muito bafafá de troca de treinador, mas é Lula que volta para o segundo tempo. Orienta o time para usar mais jogadas ensaiadas, que ele chama de PAC, para marcar mais gols, e não se contentar só com o empate.

O time volta muito bem no segundo tempo. Uma discreta alteração tática é notada por poucos. Meirelles deixa de ser volante e passa a atuar como líbero, reforçando as reservas do país, e trocando a dívida interna de moeda estrangeira para real. Essa nova posição do banqueiro central vai ser fundamental para nos livrar do FMI, e ainda mais em 2008, quando a crise econômica internacional, dos derivativos e sub-prime, passa driblando todo mundo, inclusive o goleiro e chega na cara do gol. Era um adversário terrível que já tinha feito muitos gols nas fortes seleções européias e norte-americana. Mas no bico da chuteira a zaga não só salva o gol adversário na risca da nossa meta, como ainda liga o contra-ataque usando os criticados bancos públicos, que a turma do mercado-financeiro-amendoim sempre defendeu que fossem vendidos para algum clube espanhol, como o Santander. Pois não é que os bancos públicos fazem um belo lançamento de longa distância de empréstimos que reanimam nossa economia em tempos de futebol recuado pelo mundo e ainda aumentam o valor do seu passe? Era nossa virada, 4 X3! As publicações especializadas estrangeiras  (Marca, Olé, Gazzeta dello Sport e The Economist) louvam a solidez e bom futebol que os brasileiros exibem após anos de promessas.

Jovens craques recentemente adicionados ao time podem marcar ainda mais gols. O pré-sal promete  até a Copa de 2014. E tem as Olimpíadas de 2016, que também serão jogadas em casa. A classe C amplia seu domínio do meio campo, com a redução das classe D e E. Enquanto seleções como a espanhola, inglesa e italiana sofrem com a falta de emprego, o Brasil tem é dificuldade de preencher as vagas abertas no mercado de trabalho.

Opinião desse comentarista: FHC teve alguns méritos, seu time saiu na frente e marcou um gol, mas entregou uma equipe em crise, perdendo feio. Lula manteve no começo algumas táticas e jogadores do antecessor, mas foi achando sua identidade, virou o jogo e se mostrou um treinador que antecipa as jogadas do adversário, que segue um plano tático mais adequado para a grandeza do futebol brasileiro.

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Lula ganhou o jogo no campo do PSDB

Uma das maiores dificuldades do candidato do PSDB que o Serra escolher para o ano que vem (o próprio ou o Aécio se Serra achar que não tem chance), será a falta de discurso, apelo, apoios e projeto contra a candidata de Lula, Dilma Rousseff. Isso acontece por vários motivos, mas um deles talvez ainda tenha sido pouco falado: Lula dominou os critérios que o PSDB alardeava serem importantes para avaliar um governo.
Vejamos rapidamente:

– O Brasil atingiu o “nirvana” tucano: o “investment grade”

– Reduziu o risco país

– Aumentou as defesas contra crises financeiras internacionais.

– A Bolsa de Valores nacional e o tamanho e faturamento das principais empresas do país disparou

– Aumentou a proporção do comércio exterior em relação ao PIB

– Melhorou a relação entre exportações e importações da balança comercial

– Pagamos os empréstimos do FMI

– As reservas e mudança do perfil da dívida eliminaram a necessidade de financiamento anual em moeda estrangeira

– O país melhorou sua imagem no exterior (sendo o maior símbolo disso as Olimpíadas de 2016), aumentou sua importância no cenário internacional e influência regional.

Outro exemplo, a relação dívida/PIB estava em queda vertiginosa antes da crise financeira. Chegou a 38,8% em 2008. Ano que vem deve subir para 44% (tal relação subiu praticamente no mundo inteiro como conseqüência da crise. No Brasil, o aumento da dívida PIB foi relativamente baixo).
No ano 2000, pleno governo FHC, tal relação estava em alta constante e atingiu o pico de 55%. Em dezembro de 2001 estava em 53,36%. Sendo bastante justo, Armínio Fraga então previa muito bem que em 2010 a dívida/PIB chegaria a 35,9% mantida a sua linha macroeconomia, e caso houvesse crescimento do PIB e queda dos juros (como vinha acontecendo).
Isso significa, como dizem, que Lula, simplesmente “manteve a política de FHC”? Não é tão simples. Estou preparando cinco textos para expurgar o que penso sobre o passado, presente e futuro do Fla X Flu da política nacional: Lula do PT X FHC e Serra do PSDB. Mas resumindo, o governo Lula de fato manteve a linha macroeconômica desenhada por Armínio Fraga (faz diferença especificar) mas conseguiu isso sem executar o programa amargo que o PSDB dizia ser necessário para chegar a esse “paraíso” (sic). Vejamos:

– O governo executou apenas parcialmente a reforma da previdência do setor público. E não mudou a do setor privado para o modelo de contas individuais.

– O programa de privatizações foram paralisadas quase que completamente. Não houve nada da escala de uma Vale, Banespa, Sistema Telebrás, Embraer ou blocos de ações da Petrobrás. Ao contrário. O governo adquiriu empresas e reforçou a atuação, principalmente dos 3 bancos federais (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES)

– Não houve reforma trabalhista. Ao contrário, aumentou a fiscalização e formalização do mercado de trabalho

– Os sucessivos ganhos reais dos salários mínimos não causaram inflação ou desordem nas contas públicas

– Não precisamos abrir mais o mercado interno para produtos e serviços, com propunha a Alca ou a OMC, para termos maior acesos aos mercados e aumentarmos exportações. A China e a política de diversificação dos mercados se encarregaram disso

– O aumento de pessoas e salários no funcionalismo público em escala razoável não causou o caos. Acabou a precarização planejada de setores e instituições públicas como o sistema de universidades federais e várias autarquias. Está longe de ser o ideal, mas para vários setores foram feitos planos de carreira, concursos foram abertos etc…

Ou seja: O PT atingiu as bandeiras do PSDB ao mesmo tempo em que esvaziou o programa de ações do partido, superando-o. Isso sem falar de áreas em que o PSDB nem tinha tanto foco: ampliação do acesso ao crédito, distribuição de renda, habitação, Bolsa Família e ampliação da seguridade social, agricultura familiar, infra-estrutura (compare a efetividade do PAC com o “Avança Brasil” do FHC), cotas etc…
Como existiram ganhos consistentes e seguidos de renda em todas as classes sociais (e redução das classes mais baixas com crescimento da classe média) fica mais fácil entender a popularidade de Lula. Como o governo mantém uma prática de se relacionar com vários setores organizados, mesmo aqueles que tem conflito um com outro, usando partes diferentes da máquina do Estado para tanto (Exemplo: o Min. Da Agricultura defende o Agronegócio enquanto o do Desenvolvimento Agrário é próximo do MST e de entidades de agricultura família. Desenvolvimento-Fiesp; Trabalho-Centrais Sindicais) praticamente toda a sociedade civil sente que tem canais de relação e representação dentro do governo, que internaliza os conflitos (arbitrados pela figura “paternal”e singular do Lula). Não significa que todos esses setores apoiarão a candidato do Lula. Mas que tem pouca motivação para romper com o status quo e apoiar a oposição.
O PSDB mantém de forma automática o mesmo programa de “como”: as velhas reformas neoliberais que reduzem direitos, privatizações e abertura de mercado. Mas não consegue dizer para que precisamos fazer isso. Nem consegue explicar o porque de quando fazíamos isso a situação piorar cada vez mais. Não consegue sequer perceber, mesmo com Lula dizendo isso em entrevista, que toda uma geração de questões se esgotou, e são necessárias nova ambições, para um país com uma composição social diferente (longe dela ser suficientemente diferente).

O fato é que a candidatura do PSDB, principalmente se for Serra, sequer conseguiu ainda admitir a existência desse novo país e se relacionar simbolicamente com ele. A direção do PSDB já descobriu o problema. Mas ao entrar em campanha, vai ser difícil conter e afinar discurso com a extrema direita da elite conservadora, financista e midiática de São Paulo, antigos coronéis da política nordestina, e conservadores do Sul e Centro-Oeste, a base que sobrou para uma candidatura de oposição ao governo Lula.

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São Paulo parece moderna…

Instigado por alguns cidadãos excelentes resolvi escrever sobre o Festival de Política da Trip, que aconteceu no último domingo, dia 18 de outubro. Parto de uma pergunta via twitter

@aloisiomilani: Pergunta boa: se o negócio é para os jovens, qual o conceito de política que eles (Gabeira e Luiz Felipe D’Ávila) passaram?

Não vi o festival inteiro. Só vi o debate “principal” com o deputado pelo PaVê Fernando Gabeira, o publisher (odeio esta palavra) Luiz Felipe D´Ávila, fundador das revistas República e Bravo e que trabalhou na campanha do Fernando Henrique Cardoso, e Ronaldo Lemos, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas especializado, para reduzir bastante o que ele faz, em propriedade intelectual e cultura livre. E para os meus ouvidos, e apesar do Ronaldo e da boa mediação o debate foi de doer pela sua substância e digamos assim, “contexto”…Mas o que pode ter rolado de legal ou não em outros horários, não sei. Parece que a Verônica Kroll foi provocadora. Que deve ser o melhor possível a se fazer nessas situações. Jogar umas provocações e deixar todo mundo refletindo, fora do seu lugarzinho confortável de falso bem intencionado, ou pretensa ingenuidade.

Enfim, todo mundo tem direito a organizar e falar o que quiser, toda movimentação é legal em princípio, viva a democracia, e é isso aí galera, gente jovem e bonita falando de política, com área vip e hostess…

Do debate que vi, e respondendo a sua pergunta, foi um conceito de política bem raso (o que é meio normal, já que o evento era mesmo “pop/juvenil”) e institucional.

Foi quase que só focado na questão do voto (deve ter tido bastante ONG em outros momentos). E tratou a Internet como um “bezerro de ouro” da renovação da política. Lógico que a internet é importante politicamente. Fiz meu trabalho de conclusão de curso sobre isso, e seria o único tema pelo qual faria mestrado. Mas ouvir o Gabeira dizer que quase se elegeu governador do Rio graças a Internet (quando teve o apoio massivo dos veículos das Organizações Globo) é de doer.

O Gabeira tem muita história. Mas falar que existe um pequeno grupo de cidadãos conscientes graças a imprensa (ele está falando de Veja? Folha? Globo?) e uma massa sem consciência (não sei as palavras, mas era nitidamente a ideia) que “trocaria” votos por favores político é beirar a desqualificação da democracia…uma espécie de “brasileiro não sabe votar”. Sinceramente? Acho que são muito mais conscientes politicamente os 80% que aprovam o governo Lula porque viram sua vida e a vida das pessoas ao redor melhorar do que aqueles que odeiam o governo baseado no que leram na Veja…

O Ronaldo Lemos foi mais OK, mas bem coxinha, sem provocar, sabe? Ele fez cutucadas sutis na área de cultura, quando mostrou que mesmo com a internet longe de atingir toda a população, artistas que as elites desconhecem tem muito mais “view” que gente “estabelecida”, do esquema tradicional como Maria Rita. Ou seja, que o gosto A e B dos grandes centros é muito pequeno diante desse “país” que ganha visibilidade online com a emergência das classes C e D. Essa é uma questão fundamental, que desafia a esquerda e direita tradicional do país e sua própria compreensão. Mas ele não extrapolou isso para a política.

Já o Luiz Felipe D´Ávila é um achado! Figuraça! Bem apessoado, rico de berço, cientista político raso como um pires, alinhadinho, bem sucedido e aparentemente bem intencionado, Fernando Henrique até o osso é o estereótipo do tucano, que parece acreditar mesmo naquele besteirol todo sabe…Teve passagens antológicas. Por exemplo, ele disse que tem dois tipos de políticos: os que fortalecem as instituições e os que querem usá-las para se fortalecer. Nitidamente, e pelo campo que atua, ele deve achar que Fernando Henrique Cardoso faz parte do primeiro grupo e Lula do segundo. O fato do FHC ter feito a barbaridade de passar uma lei em benefício próprio, enquanto estava no poder e usando corrupção como meio, dando o direito de se reeleger, enquanto o Lula sempre barrou as iniciativas de outros para um terceiro mandato deve escapar a ele completamente nessa sua reflexão…

Mas o melhor veio na resposta de uma excelente pergunta do Fernando Luna, que mediava o debate. Ele questionou o que o D´Ávila, como representante da elite, achava da atuação política desse setor. Ele disse que a elite já foi mais atuante na política, citando com saudosismo a época do império, onde a participação política era vista como condição de ser cidadão. E disse que a elite foi se afastando da política, se voltando mais para curtir “o próprio sucesso” e que por isso hoje temos “essa elite política aí”. E que a elite devia voltar mais a participar da política, não só a elite econômica como “a cultural, a intelectual etc…”. Foi aplaudido por essa fala. Eu não entendo como alguém que estudou ciências políticas pode citar o Brasil do Império, uma sociedade escravocrata, com algum tipo de saudosismo que não seja pela chance de bater um papo com o Machado de Assis…Para minha visão de país, e para onde eu quero que ele vá, uma fala dessa é um ultraje. Por que quem eram os “não-cidadão” na época? O lugar da elite era o poder, era onde deviam estar, então onde estavam os outros? E o lugar dos negros então? Não digo que ele é racista. Ele simplesmente não consegue fazer esta reflexão. E idealiza o império como tendo essa qualidade. É uma leitura histórica de merda que se transforma em uma reflexão de merda, e uma fala de bosta. Ele não consegue perceber o próprio conservadorismo e opressão, em uma bela homenagem ao conceito de “consciência de classe”. Fala sério…

Ficou o tempo todo citando os Estados Unidos, “Marquinhos style”. Claro que a democracia norte-americana tem coisas legais, tem muito a se aprender com ela. Mas ficar idealizando, exemplo de “primeiro mundo”…parece que a gente não viu eles serem governados por 8 anos pelo herdeiro inepto de uma oligarquia política texana conservadora, trapaceira e mentirosa que deve nada aos Sarney (o Grande Satã do debate, o que não é injusto,mas esclarece pouco). Ou que a gente está saindo de uma crise enquanto eles estão se afundando nela. Ou que eles são incapazes de estabelecer o princípio de saúde universal na sociedade deles.

É legal ver alguém como ele falar, a gente não tem muita chance disso, até para não perder tempo demais na vida. Como o cara lê exemplos de outros países, como ele lê a história do país….A coisa que ele mais defendeu como solução foi voto distrital. Claro, voto distrital (sem o voto misto) recria a lógica das eleições majoritárias no legislativo, derruba o voto ideológico e o das minorias ou setores sindicais e reforça a lógica do poder econômico em disputas de currais. Mas enfim…Aos finalmente.

O debate que eu vi não foi nada inovador (não que esperasse que fosse). Ao contrário, focado bastante em política institucional-eleitoral, o tempo inteiro me pareceu permeado do típico rancor anti-Lula que assola a parte “nobre” de São Paulo e o entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas, com o qual, sorry anti-periferia, não consigo compartilhar. Até porque o rancor é justamente porque Lula mandou bem exatamente naquilo que lhes interessa (crescimento econômico, controle dos movimentos sociais, imagem do Brasil no exterior etc…) Deve ser isso que mais “irrita”. Ele ganhou no jogo da direita, nos critérios que eles inventaram.

Falou-se muito em “indignação”, em “corrupção”, em “moralizar”. Parecia que fora do Studio SP reinava o caos e as manifestações de rua contra este governo “odiado”. Teve muita ironia, indireta e diminuição do Lula, na linha “pegou tudo pronto pelo FHC” (parece que o país em 2002 estava uma maravilha…).

Então a análise do “lá fora” era uma coleção de chavões. Não parecia que estamos em um dos países que está enfrentando melhor a crise econômica mundial, ou que tem um dos presidentes mais populares, talvez o mais popular, do mundo, tudo isso com liberdade de imprensa, oposição, associação etc…

Quem eram as pessoas ali? Quem e o que representam? Do que elas estão reclamando?

Já que estamos falando em política, quais as causas concretas? As questões urgentes? As reivindicações?

Não que o Brasil não tenha problemas. Tem um monte. Mas quem reclamava ali quer a solução deles? Tem coragem de resolver isso? Essa é a causa política da molecada bem nascida e daqueles senhores que a “introduziam” na política do palco?

Sinceramente…As pessoas ali, as que estavam ali, estavam para reclamar do que mesmo?

Que país eles querem? Mas que país eles querem mesmo? A vida de carrão, dinheiro, empregados, fim-de-semana no litoral norte e viagens para a Europa não é boa o suficiente?

Ficou uma coisa bastante vaga, fora a revolta contra a “corrupção” (genérica ou encarnada no José Sarney), a necessidade de “moralizar” e clamores de crescente “indignação”. Olha, este comportamento na política brasileira não é nada novo e tem até nome. Chama-se udenismo, e é um show de conservadorismo, para que tudo permaneça como está. Porque a classe média e alta brasileira não tem vergonha na cara de admitir que vive bem paca no Brasil (com a questão da segurança sendo a nuvem nesse céu de brigadeiro). E que quando as coisas ficarem mais iguais por aqui, não vai dar para bancar este vidão, porque não vai ter empregada e a casa na praia vai ficar cara, e talvez você tenha que lavar a própria roupa e fazer faxina da própria casa…

É, estou generalizando, eu sei, mas para mim, o trecho e o clima que vi foi “vintage”: Udenismo e 32. Sabe, a trilha sonora “jovem” perfeita para o evento não tem nada a ver com o “Fight the Power” do Public Enemy que o Instituto tocou. Não precisavam ir longe não. É uma música do Tatá Aeroplano, que discotecou no evento. Chama “Pareço Moderno”. A letra acerta para esse tipinho tão paulistano, moderno na superfíce, as vezes até nos costumes, mas FPP no família, propriedade e política.

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Novo e excelente blog sobre esporte e política

O UOL Esporte, dono de dois dos mais populares blogs do país (o do Juca Kfoure e o do Cosme Rímoli), lançou o blog do José Cruz, sobre política e esporte. Os primeiros posts são sensacionais, começando a destrinchar a política esdrúxula do PC do B  na pasta (claro, chancelados por Lula). Os “comunistas” promoveram uma ciranda cirandinha, onde eles e Lula dão a mão para a CBF  (Ricardo Teixeira) e o COI (Arthur Nuzman) que por sua vez dão a mão a Globo Esportes e todos giram, giram alegremente…E não tem que dar satisfação a ninguém, já que assim fecham o circuito do meio esportivo, político e mídia.

Como diz um amigo meu que entende de assunto, a excitação é tamanha, ainda mais com as verbas monstruosas da Copa de 2014, que os ratos nem sabem por onde começam a roubar…mas desobrem logo.

Por isso mesmo um blog como esse é uma coisa fundamental. Esporte visto pela ótica da política e da economia vai ser muito importante entre hoje e a final da copa de 2014.

http://blogdocruz.blog.uol.com.br/

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