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Desfazendo 10 mitos sobre cinema ou eu também posso cagar regras!

1 ) A Novelle Vague francesa não era contra o cinema americano. Muito pelo contrário.

2 ) Alfred Hitchcock fazia cinema comercial. Foi muito depois do começo da sua carreira que descobriram que aquilo era arte.

3 )  A diferença entre cinema comercial e cinema de arte não é definida por um passar no Cinemark e o outro no Espaço Unibanco.

4) Quentin Tarantino era bom, ficou ainda melhor nos seus últimos filmes. Não o contrário.

5) O dito “cinema de arte” é na realidade um segmento comercial voltado para aqueles que querem consumir algo que se parece com arte.

6 ) Cinema francês contemporâneo e cinema independente americano em geral não querem dizer nada sobre a qualidade de um filme.

7 ) Desconfie quando muita gente no Facebook chama um filme de “genial”.

8 ) Tropa de Elite 2 “de esquerda” não redime Tropa de Elite 1 “de direita”.

9) Rede Social é bom e tem muito trabalho de direção, sim senhor.


10) Para gostar, se divertir e conversar sobre cinema não precisa ser esnobe. E é bom ter a cabeça, os olhos e os ouvidos bem abertos!

PS: Colaboração fundamental da irmã Paula Chrispiniano nessa compilação.

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“Em algum lugar” superbacana com uma melancolia super indie-cool-descolada!

São muitas as razões de porque não gostei do novo filme de Sofia Coppola, Um Lugar Qualquer (Somewhere). Mas  posso resumir assim:

A diretora quer nos convencer/mostrar que é muito sofrimento ser filha de Francis Ford Coppola, e para isso faz um pastiche vazio de Michelangelo Antonioni (conjunto da obra), Win Wenders (Paris, Texas) e Lucrecia Martel (A Menina Santa). Como é filha do Coppola e ex-namorada do Tarantino, o filme ganhou o festival de Veneza.


É isso. Como resume bem minha irmã a Sofia Coppola faz filmes sobre “pobres meninas ricas” (e olha que eu até gosto de Maria Antonieta). Nesse ela atingiu a essência do tema.

Os planos são bonitos, os figurinos e a trilha vão maravilhar os indies. E é isso. Caia nessa quem quiser!

O tratamento é de doer, o filme é preguiçoso. As metáforas visuais são sutis como um elefante se jogando do topo de um prédio, o filme não tem ritmo nem bons personagens. Repetições de truques do Encontros e Desencontros (Lost in Translation) como o humor feito em cima das diferenças com outro país, que geram cenas engraçadas, mas… E claro, tem gente pensando na vida olhando pela janela. Maneirismos, e muito estilo por quase nada…


Poderia-se dizer que ela faz um retrato “real e cru” do mundo das megacelebridades, mas isso não é verdade. Ela só retrata isso de uma outra maneira “super cool”.

Sem nem mencionar que o filme é moralista…

Enfim, Sofia Coppola tem o mérito de retratar o mundo que gira em torno do seu umbigo, o que poderia ser sincero e interessante (não é porque ela não consegue deixar de ser poser). Não dá para negar que ela é “autoral”, depois de um filme para tratar do namorado (Spyke Jonze em Encontros e Desencontros) fez um para falar sobre seu pai.

Enfim…um filme vazio que em tese critica a vida vazia das celebridades…

Ou seria uma obra prima de beleza e sensibilidade e eu que sou um ogro?

 

PS: A música dos Strokes é linda, e foi exatamente nesse momento que eu perdi o resto de paciência que eu estava tendo com o filme…

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Cinco razões para assistir “O Mágico” – rápido, antes que suma de cartaz

Vai que “O Mágico” segue o mesmo destino e fica meses e meses em cartaz como o filme anterior de Sylvain Chomet, “As Bicicletas de Belleville“. Mas como a sessão não estava muito cheia e como sempre existe o risco de subitamente estar fora de cartaz, vamos com cinco razões rápidas para assistir ao filme.

1) Os desenhos são belíssimos. Os tons das cores, detalhe dos traços, na tradição do melhor das HQs e animações francesas.

2) Você já deve saber que “O Mágico” é a execução de um roteiro do genial Jacques Tati (existe toda uma controvérsia em torno desse roteiro e uma filha não reconhecida por Tati). Recriar a figura de Mr. Hulot em animação para concluir esse projeto é uma bela homenagem ao cineasta e um regalo para nós.

3) O filme, como a obra de Tati, é praticamente cinema mudo, com os recursos da riqueza de expressões que o bom desenho dá. Vale perceber como conta uma história, como mostra personagens, através do gestual e do tom dos sons que emitem, mesmo sem o que é dito por ele fazer sentido, dá para entender quem são e o que dizem. Isso é cinema! Ao não ter diálogos/nem legendas, permite o total deslumbramento com os nosso primeiro tópico, os desenhos

4) Edimburgo. A capital da Escócia, cenário da história e atual casa do diretor do filme é uma cidade linda. Entre montanhas e mar, como o Rio de Janeiro, mas nada como o Rio de Janeiro: gelada, com muitas nuvens e vento impiedoso, cheia de sombras e com uma luz em tons já quase glaciais, antiga e pesada. E ao mesmo tempo cheio de vida, álcool e animação. A cidade tem muitos níveis, e construções de tempos diferentes (ruínas, o castelo, prédios mais modernos) e ladeiras. Fiquei um dia lá procurando o túmulo do Adam Smith em um cemitério, sem me dar conta que apesar de ainda estar claro, era quase 11 horas da noite…

5) O fim do filme, com um tom diferente do habitual, ainda mais do habitual do cinema atual. Não vou estragar entregando algo dele, apenas vale dizer que achei o final muito bonito e que a forma do filme e o conteúdo do seu fim, há um evidente sentimento paralelo entre eles (provavelmente o sentimento com que deixará o cinema, mas não vamos nomeá-lo!).

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Uma noite em 67 – rápidos comentários

Acabei de assistir o documentário “Uma noite em 67” de Renato Terra e Ricardo Calil, sobre a final do III Festival de Música Popular Brasileira, promovido pela TV Record.

O documentário é tão gostoso de se ver que vale aqui o comentário de que o texto contém “spoilers”.

Primeiro comentário: o filme começa brilhantemente lembrando que aquilo era produzido para a TV. Ou seja, era um espetáculo, e era parte das telecomunicações “realmente” de massa do Brasil do “avanço industrial” que Tom Zé ainda cantaria. Ou seja, era parte da cultura pop, que Caetano já entendia.

Segundo comentário: o filme tem o mérito de respeitar e valorizar o material original, “direto”, de época. Ao tratá-lo e dar a ele o espaço e tempo que merece. Não tem edição idiota, ela é muito fina. E os comentários e entrevistas atuais são muito bem feitas, pontuadas e bem colocadas. Não há material gratuito e o ritmo do filme anda muito bem.

Dessa maneira uma história que já está contada e publicizada em muitas fontes (os livros de Caetano e do Zuza Homem de Melo, as imagens de arquivo mais conhecidas, principalmente os números musicais etc…), tem o mérito de aparecer reunida, viva, próxima e organizada. A gente sabe da história do violão quebrado por Sérgio Ricardo. E do tropicalismo surgindo. Mas ali fica claro que foi tudo tão próximo. E fica compreensível o contexto onde tudo aconteceu.

O título também é ótimo porque ao “diminuir” como uma mera noite em 67, amplia, porque tudo aquilo aconteceu na mesma noite em 67. E como diz um dos entrevistados, só depois se foi perceber que aquilo foi histórico. Foi preciso a história acontecer, aqueles personagens crescerem, para aquilo se tornar um ponto de inflexão da nossa música. Ou seja, o que faz o momento histórico é o que acontece e como o vemos depois dele 🙂

E tudo isso com uma dimensão humana, e as discussões políticas e estéticas de forma clara e viva. Isso é o mais impressionante do filme. Tudo é muito vivo,principalmente as entrevistas da época. Elas são conduzidas de forma tão leviana e despreparada, que revelam mais a história do que seríamos capazes ao tratá-la com reverência. Os questionamentos e reações são impagáveis.

Terceiro comentário: Há um “subtema” importante no filme. Um amigo achou que ele dá uma “caída” no final quando “Ponteio” de Edu Lobo ganha. Afinal, embora uma bela música, ela é um clássico “menor” que “Roda Viva”, “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque”. E Edu Lobo é mestre, mas menos icônico que Chico, Caetano, Gil ou Roberto. Discordo, e acho bonito o fim com o Edu, não só por manter a estrutura proposta. Mas porque tem um outro tema na trajetória do filme. Ele começa com Sérgio Ricardo, que se revolta com a platéia, não aguenta a pressão. Passa por Roberto Carlos rapidamente. É importante notar que a participação dele no festival não é tão importante nem na carreira dele, nem na história dos festivais. O que sobressai dele? O total domínio e tranquilidade no palco, mesmo sob vaias, uma tranquilidade como artista. Daí vem Gil, Caetano e Chico e como todos lidam com sua imagem e com aquele embate. Principalmente Gil, sua angústia e sua quase não participação no festival. Quase que Gil não foi “fazer a revolução” na música brasileira, quando o tropicalismo permite que nossa música possa ser jovem e sempre se renovar com o estrangeiro. E Edu Lobo? O que sobressai dele? Sobressai o desgosto em ser um artista da MPoPB na era da cultura de massas. Do peso daquela imagem, das disputas políticas, de ser porta-voz e ícone, de ser uma figura quase do “folclore nacional” pegando o termo emprestado do Pedro Alexandre Sanches quando fala do Roberto. Edu Lobo “só” queria ser músico. Não um personagem do espetáculo da música na era da TV, da comunicação de massa.

Enfim…vamos acabando por aqui que o que eu escrevi e apaguei é um pouco viagem demais. Vale a pena ver o filme que é uma manifestação muito viva da música, da cultura, da paixão e de artistas fantásticos, surgindo ainda em um momento quase ingênuo, com os artistas ainda jovens e inseguros, e antes do AI-5 e do período mais brabo após 1968.

Emocionante.

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O que mudou em 30 anos de cinema?

Estreará em breve no Brasil o remake do filme Fúria de Titãs. O original é de 1981, um dos primeiros filmes que eu lembro e um clássico das Sessões da Tarde da minha infância.

Entre um e outro filme se passaram 28 anos, mas dá para arredondar e comparando os trailers, ver as 3  maiores mudanças nos filmes de aventura, quiçá no cinema [e da nossa própria percepção audiovisual] dos últimos  anos. Os apontamentos são óbvios, mas vale a pena pensar nisso ao comparar a linguagem dos trailers.

1.  O uso intensivo de efeitos especiais computadorizados

2. A estética e ritmo de edição desenvolvida pelos videoclipes musicais e pelos comerciais da TV

3. O uso brutal e espetacular dos efeitos sonoros para nos sentirmos na “montanha russa” do cinema. Essa terceira no fundo advém das duas anteriores e visa esconder o que ainda tem de artifical nos efeitos visuais e reforçar a vertigem e a velocidade da edição. E valorizar a experiência do cinema contra os equipamentos domésticos.

Perceba: o primeiro é mais racional e ordenado. O segundo não tem narrador, explica bem menos a história e usa trechos e slogans para causar sensações, transmitir emoção, mais do que dizer ou mencionar atores. Em um há romantismo. No outro testosterona e erotismo [o que implica em tipos de beleza masculina e feminina, bem diferentes em cada caso]. É importante notar que ambos os trabalhos tem os mesmos objetivos: levar espectadores para assistir um filme de aventura e ver criaturas fantásticas criadas por efeitos especiais. Mas são os atores que fecham o primeiro trailer. E nesse, a estrela explícita é a estrela que já estava implícita no anterior: o monstro chamado Kraken.

O original de 1981

O novo filme.

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O cinema é o campo da batalha

Samuel Fuller disse que o cinema é como um campo de batalha. Em Bastardos Inglórios o cinema é o campo de batalha. É no cinema que se trava a Segunda Guerra Mundial. Não é só a história de ação do filme que acontece dentro de um cinema. A história do cinema está dentro da ação do filme. E todo este subtexto, este prazer e paixão pelo cinema, esta reflexão incrível é também um filme divertido e inteligente que passa rápido e de forma emocionante, inclusive para quem não sabe nada disso…

(Aviso de “spoilers” adiante…)

A batalha entre o projeto de Goebbels e Holywood, o que ambos tinham de cinema de propaganda, a cinefilia francesa, a relação entre os judeus e o cinema…Tarantino mistura um caldeirão infinito de referências cinematográficas e conhecimento prático e teórico sobre cinema. Não é só que ele viu muito filme, de todos os tipos e lugares. Ele estudou e discutiu horrores. E atualmente ele sabe misturar tudo isso em níveis que fazem seus próprios filmes mais antigos, como Pulp Fiction, parecerem brincadeira de criança (e deve ser por isso que os modernos agora seguem Michel Gondry). Eu tenho que agradecer a Paula, minha irmã, por notar isso: “Tarantino” assina “ele mesmo” o filme, dizendo assim: “Acho que esta é minha obra-prima”. É como aquela história de que Michelangelo, quando terminou Moisés, deu uma martelada e disse “Parla”…(e eu me divirto horrores fazendo essa comparação profana!)

Tem muito que poderia ser escrito sobre esse filme. A discussão aqui não é ganhar premiozinho, é quando ele vai fazer parte da lista dos 10 mais de todos os tempos. Mas ele está aí para ser visto. Vejam. Tem para todos. Para quem se diverte, para quem gosta de ação e suspense, e vai ver um filme sobre a Segunda Guerra diferente de tudo que você já viu, e para quem ama cinema, suas reflexões, seus truques, a complexidade dessa arte.

Muito também foi dito sobre a relação do filme com a história. Vale chamar a atenção para algo interessante: Tarantino também fez um filme sobre como, de fato, o cinema foi a arma de vingança dos judeus contra Hitler. Prestem atenção: não no filme, mas na História. “O que os livros de história dirão?” pergunta o vilão Hans Landa, genialmente interpretado por Cristoph Waltz. Como declarou Eli Roth, ator no filme e diretor do “filme dentro do filme” sobre o atirador, ele, como judeu, sempre sonhou em se vingar de Hitler, mas jamais teria a coragem de fazer um filme assim. Um “ultraje” libertário e libertador, como Chaplin em “O grande ditador”. Tarantino cruza fronteiras e simplesmente “exorciza” o nazismo. A vingança é a história (“isso ficará sempre marcado”) e a história é, em muito, cinema. A vitória no cinema também é a vitória na guerra. Preste atenção no nome da tese do “soldado/crítico” inglês.

Enfim…Para rir, suar, se embasbacar. De tirar o fôlego e as palavras…Mas eu não sei calar a boca 🙂

Outras anotações

O que dizer da principal arma do vilão do filme ser seu domínio da linguagem? E da “arma” final ser filme, em si, na tela e como objeto?

Deixa eu entregar uma coisa: quão genial e delicado é a história de amor entre a loira e o negro, que nenhum personagem no filme consegue notar ou sequer conceber? Eles que partem para fazer seu filme “novelle vague”. Quando eles se beijam, escondidos, na sala de cinema, é importante lembrar que “então” não haviam beijos entre negros e brancos nas telas de cinema. E que até hoje retratar esses romances ainda tem muito de provocação.

Outra: Quando Shoshana foge, o enquandramento dela sendo vista de dentro da sala? Homenagem ao final de Rastros de Ódio do John Ford. Deve ter uns 2 milhões de coisas assim no filme…(eu já achei no youtube, mas tiraram, em um filme oriental da década de 70 ,o chão de vidro da batalha de espadas Kill Bill Vol. I). Por exemplo, o cachimbo ridículo de Landa: referência a Sherlock Holmes.

Outra: preste atenção nos closes do strudel. Eles são propositadamente artificiais, “quebram” a cena. O filme é cheio de jogos e recursos para lembrar que aquilo É CINEMA…(é Brecht) e isso que torna a discussão sobre a “violência” do filme bobagem. Toda a violência se dá em um território que não existe, em um contexto onde ela é justificada – “nazistas não tem humanidade” – e  Tarantino basicamente destrói essa questão nessa entrevista sobre como Kill Bill deveria ser assistido por meninas com mais de 12 naos – vida é vida, filme é filme! E filme é tão mais “verdade”, e só pode ser “verdade”, por conta disso (e esse são os mesmos princípios, rompidos, que fazem de Tropa de Elite um filme escroto e mau caráter).

E os diálogos com vários níveis, quase sempre jogos de xadrez? Sempre sabemos que os personagens “jogam” em cena, há camadas no que eles dizem, alguém está sempre interpretando um papel, conduzindo uma conversa, ou escondendo algo…Sempre há tensão. Tarantino realmente compõem partidas de xadrez de linguagem uma após a outra…Ela é a verdadeira arma, que salva ou trai um personagem (até a linguagem das mãos entra em jogo). Sequência mais sequência genial como a dos “sicilianos”. Como ele mesmo sabe, o nível dele de roteiro, que já era absurdo, subiu ainda mais.

E a decupagem, a composição das cenas, os movimentos de câmera…

E os ossos jogados para os cinéfilos, que fazem parte da história…Como a fala que é errado comparar Goebbels com Louis B. Mayer, que ele veria a si mesmo mais como um David O. Selznick…

Enfim. Chega. Vale a pena colocar esta lista abaixo dele, com seus 20 filmes preferidos desde 1992, quando se tornou um diretor (vídeo em inglês). O ecletismo da lista é lindo, tem desde Speed até Dogville, para ele um dos melhores roteiros já escritos. E o comentário dele sobre Matrix, que certamente é compartilhado pela torcida do Flamengo, consciente ou incoscientemente, é ótimo!

E um link para a entrevista dele (em francês) para a Cahiers du Cinema. E outro para o roteiro do filme vazado na internet. Dá para ver que houve muitos cortes, que tornaram o filme mais aberto, direto e enxuto.

PS: Dane-se o que o filme não é! É um saco as pessoas julgarem obras de arte pelo que elas não são. “Pô, 2001 deveria ter mais diálogos….” devem dizer esses manés! Acho sensacional ele enganar o público com Brad Pitt e um trailer colocando como principal o segundo tema do filme e entregar algo muito melhor! Uma coisa é informar isso, tudo bem, mas fora críticos de cinema “Procon”…(ainda mais em blog, o mané se preocupar com uma coisa dessas…). Não são “dois filmes em um”, como li em tantos lugares. Que besteira…Eu entendo que jornalistas talvez achem mais fácil explicar assim para um público que subestimam, no que podem ou não ter razão, mas o que me dá pânico é imaginar que tem jornalista sobre cinema em grandes veículos que realmente acredita nisso…

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Esperando Tarantino

Hoje estreou Bastardos Inglórios o novo filme do Quentin Tarantino.

Vou assisti-lo amanhã. Este texto é só para compartilhar o prazer da ansiedade e a admiração por Tarantino.

Sim, eu, como todo mundo, já deduzi o “final” do filme. E sim, eu tenho certeza de que vai ser uma obra-prima, e isso é estranho.  Eu sei pelas pessoas que falaram bem do filme. Quase mais do que isso, eu sei pelas que falaram mal.

Tarantino surgiu como um ícone primeiro dos cinéfilos (“Cães de Aluguel”) depois dos modernosos (Pulp Fiction). Na mesma “vala comum” de Spyke Jonze e Michel Gondry. Mas cresceu. Naquela onde maneirismo e talento se confundem, onde uma boa obra se confunde com um projeto de cinema. Ao longo dos anos Tarantino foi se diferenciando. Os modernos não acompanham mais sua obra do mesmo jeito. Ganharam novos “darlings”. E Tarantino foi jogar em outra liga. Começou a escrever seu nome entre os monstros, os mestres de todos os tempos do cinema. Exatamente onde ele quer estar.

Roger Avary e Robert Rodriguez, seus amigos e parceiros, foram ficando para trás ou meio assim de lado. Ele teve seus “contratempos”: Jackie Brown que só é um fracasso pelos altos padrões que ele mesmo estabeleceu; Assassinos por Natureza, roteiro assassinado por Oliver Stone.

Mas aí ele veio com Kill Bill…Saí do primeiro filme revoltado. Discuti muito. Como alguém com tanto talento podia desperdiçá-lo em puro estilo e virtusiosmo cinematográfico. Isso me revoltava. Rapaz tolo…Veio a segunda parte daquilo que é um filme só (que foi desmenbrado). Ele dá o sentido e recupera a primeira, que já era brilhante…Quando todos vão esperando novo show de coreografia, que o filme de novo se resolva em artes marciais, no segundo tudo é supresa, superação interna, fábulas, até o clímax de um filme de luta ser…Um looongo e maravilhoso diálogo entre os personagens de Uma Thurman e David Carradine. E eu pude delirar em paz com os malabarismos, show de imagem e controle cênico que ele tem. É técnica, é estilo e é conteúdo e uma profunda reflexão sobre cinema e a vida (sim, mesmo que não lhe pareça…)

Depois veio Deathproof…Que pouca gente viu porque ele casou o filme com a porcaria do Robert Rodriguez…Uma “pequena” obra-prima, desde o movimento de câmera da sequência de abertura, aos diálogos (das meninas, do delegado com sue filho), a atuação, ao enredo em dois atos…ao jogo com a película…

Cada dia mais Tarantino parece um Kubrick, mas simpático e festeiroao invês do gênio ermitão, racional e enxadrista de “2001”. Ou um Godard compreensível. Ou um Orson Welles organizado, capaz de gerenciar sua carreira e não se perder na genialidade e boemia. Ou um Scorcese capaz de mixar todo o conhecimento de diferentes cinematografias e estilos só que dentro do mesmo filme e ainda rir de tanto conhecimento cinéfilo. A ambição de Tarantino está nesse nível. Até onde isso pode ir chega a ser assustador.

E amanhã, para mim, tem Bastardos Inglórios. Onde ele está agora. O surreal do Tarantino é o conhecimento de cinema e a auto-consciência sobre seu trabalho. Ele dizer que finalmente conseguiu escrever uma cena no nível da que ele considera sua melhor como roteirista, esta obra prima aqui embaixo (bem feita por Tony Scott, mas escondida em um filme que não a merece, viva o Youtube! 🙂 deixa a espera ainda mais doce.

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