Arquivo da tag: Chico Buarque

Uma noite em 67 – rápidos comentários

Acabei de assistir o documentário “Uma noite em 67” de Renato Terra e Ricardo Calil, sobre a final do III Festival de Música Popular Brasileira, promovido pela TV Record.

O documentário é tão gostoso de se ver que vale aqui o comentário de que o texto contém “spoilers”.

Primeiro comentário: o filme começa brilhantemente lembrando que aquilo era produzido para a TV. Ou seja, era um espetáculo, e era parte das telecomunicações “realmente” de massa do Brasil do “avanço industrial” que Tom Zé ainda cantaria. Ou seja, era parte da cultura pop, que Caetano já entendia.

Segundo comentário: o filme tem o mérito de respeitar e valorizar o material original, “direto”, de época. Ao tratá-lo e dar a ele o espaço e tempo que merece. Não tem edição idiota, ela é muito fina. E os comentários e entrevistas atuais são muito bem feitas, pontuadas e bem colocadas. Não há material gratuito e o ritmo do filme anda muito bem.

Dessa maneira uma história que já está contada e publicizada em muitas fontes (os livros de Caetano e do Zuza Homem de Melo, as imagens de arquivo mais conhecidas, principalmente os números musicais etc…), tem o mérito de aparecer reunida, viva, próxima e organizada. A gente sabe da história do violão quebrado por Sérgio Ricardo. E do tropicalismo surgindo. Mas ali fica claro que foi tudo tão próximo. E fica compreensível o contexto onde tudo aconteceu.

O título também é ótimo porque ao “diminuir” como uma mera noite em 67, amplia, porque tudo aquilo aconteceu na mesma noite em 67. E como diz um dos entrevistados, só depois se foi perceber que aquilo foi histórico. Foi preciso a história acontecer, aqueles personagens crescerem, para aquilo se tornar um ponto de inflexão da nossa música. Ou seja, o que faz o momento histórico é o que acontece e como o vemos depois dele 🙂

E tudo isso com uma dimensão humana, e as discussões políticas e estéticas de forma clara e viva. Isso é o mais impressionante do filme. Tudo é muito vivo,principalmente as entrevistas da época. Elas são conduzidas de forma tão leviana e despreparada, que revelam mais a história do que seríamos capazes ao tratá-la com reverência. Os questionamentos e reações são impagáveis.

Terceiro comentário: Há um “subtema” importante no filme. Um amigo achou que ele dá uma “caída” no final quando “Ponteio” de Edu Lobo ganha. Afinal, embora uma bela música, ela é um clássico “menor” que “Roda Viva”, “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque”. E Edu Lobo é mestre, mas menos icônico que Chico, Caetano, Gil ou Roberto. Discordo, e acho bonito o fim com o Edu, não só por manter a estrutura proposta. Mas porque tem um outro tema na trajetória do filme. Ele começa com Sérgio Ricardo, que se revolta com a platéia, não aguenta a pressão. Passa por Roberto Carlos rapidamente. É importante notar que a participação dele no festival não é tão importante nem na carreira dele, nem na história dos festivais. O que sobressai dele? O total domínio e tranquilidade no palco, mesmo sob vaias, uma tranquilidade como artista. Daí vem Gil, Caetano e Chico e como todos lidam com sua imagem e com aquele embate. Principalmente Gil, sua angústia e sua quase não participação no festival. Quase que Gil não foi “fazer a revolução” na música brasileira, quando o tropicalismo permite que nossa música possa ser jovem e sempre se renovar com o estrangeiro. E Edu Lobo? O que sobressai dele? Sobressai o desgosto em ser um artista da MPoPB na era da cultura de massas. Do peso daquela imagem, das disputas políticas, de ser porta-voz e ícone, de ser uma figura quase do “folclore nacional” pegando o termo emprestado do Pedro Alexandre Sanches quando fala do Roberto. Edu Lobo “só” queria ser músico. Não um personagem do espetáculo da música na era da TV, da comunicação de massa.

Enfim…vamos acabando por aqui que o que eu escrevi e apaguei é um pouco viagem demais. Vale a pena ver o filme que é uma manifestação muito viva da música, da cultura, da paixão e de artistas fantásticos, surgindo ainda em um momento quase ingênuo, com os artistas ainda jovens e inseguros, e antes do AI-5 e do período mais brabo após 1968.

Emocionante.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Uncategorized

O “método” Mainardi

Diogo Mianardi anda meio triste. Ele não faz mais o barulho que fez um dia. Reinaldo Azevedo roubou parte do holofotes do mundo das trevas. Então é natural que ele fique feliz quando acha um tema precioso ao seu método de trabalho. Esta semana foi Chico Buarque.

Mainardi funciona assim: ele acha algo que sabe que vai causar raiva, aperta ali e espera a reação revoltada com o artigo para se valorizar. Já fez isso com o futebol brasileiro (disse que não sabíamos jogar), com o maratonista Wanderlei Cordeiro de Lima (que segundo ele não teria ganho a medalha de ouro na Grécia mesmo se o padre irlandês não tivesse se jogado nele) e a cidade de Cuiabá (dizendo que pagaria para não visitá-la).Fez isso também com o Elio Gaspari. Que deu a melhor resposta possível para ele: nenhuma.

Esta é sua “estética”. Dela derivam obras de uma simplicidade primária como “Contra o Brasil” e “Lula é minha anta”.

É um sisteminha simples e infantil e Mainardi só pode ser entendido assim, se você perceber que ele e sua obra são todas infantis, de garoto mimado. Esta semana ele “pega” Chico Buarque (e de quebra Milton Hatoum), porque sabe que ele é um ícone respeitável, melhor ainda que é de esquerda, melhor ainda que mais bem sucedido do que ele em uma área que lhe é cara (literatura), e o chama de “fraude”. Baseado (e “escudado”) na opinião de uma escritora irlandesa Edna O´Brien.

Da obra literária de Chico Buarque só li “Leite Derramado”. Não gostei muito. Mas também não chega a ser fraude. E é claro que Buarque se beneficia ao entrar na literatura de toda sua história e grande obra como compositor. Mas isso é mérito dele. E tomar a opinião de uma escritora irlandesa como “verdade” ou “revelação”, bem, quão ridículo é isso?

Mainardi trabalha este esqueminha dele. É uma fraude. Uma fraude profissional, cotidiana e recorrente. Fraude é seu trabalho e por ele é bem pago. Como é tão bom profissional da fraude (será por isso que Daniel Dantas gosta tanto dele?) a faz de maneira séria. Sobra assim para Mainardi ao menos o benefício do paradoxo de ser uma fraude elevada à arte. Como ele mesmo diz na última frase de seu texto “neste país fraudulento, o que mais espanta é a facilidade para enganar a plateia”. Tem razão. Fica a pergunta: onde mais Mainardi poderia ser tão bem sucedido fazendo o que faz? Este é outro paradoxo divertido em relação ao playboyzinho: só no Brasil ele poderia desenvolver tão bem sua carreira de falar mal do Brasil de forma tão pré-primária.

PS: Flávio Moura, entenda o texto assim: o Mainardi quer ser convidado para a próxima edição da Flip.

2 Comentários

Arquivado em Veja Q Porcaria