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Crescimento do Brasil X China – desfazendo alguns mitos

Esse rápido texto/comentário surgiu com esse post do Paulo Nogueira, intitulado “Porque a China cresce mais do que o Brasil”

Respondi no Twitter que, sem desmerecer o post (ele postou o link, e a publicação parece mesmo ser bem interessante) e sem dizer que é a única explicação, é preciso considerar que a China tem um PIB per capita (por pessoa) mais baixo que o brasileiro, o que explica como, partindo de uma população mais pobre, é mais fácil crescer percentualmente mais do que o Brasil.

Recebi essa resposta.

“@pnogueira56 @ZeKley Não adianta buscar desculpas para explicar por que a China cresce mais que o Brasil. Logo mais é a maior economia do mundo …”

Então, PIB per capita não é desculpa, é matemática, explicação.

A população brasileira é de 201 milhões de habitantes, e nosso PIB está em 2.194 bilhões de dólares. PIB per capita de 10.915 dólares.

A população chinesa é de 1 bilhão e 330 milhões de habitantes. O PIB deles é de 9.854 bilhões de dólares. PIB per capita de 7.409.

O PIB per capita americano é em torno de 47 mil, e o PIB deles esté em 14,7 trilhões de dólares.

Se a nossa população fosse do tamanho da chinesa (cruzando o PIB per capita brasileiro com a população chinesa), nosso PIB já seria quase igual ao dos Estados Unidos (14,5 trilhões) e quase 50% maior que o PIB atual da China…

Quando eles crescem 9%, fazendo uma conta rude, sem cruzar dados de crescimento demográfico ou variações de câmbio, o PIB por pessoa deles cresce 666 dólares. Quando crescemos 5%, o nosso PIB por pessoa cresce 545 dólares. Relativiza muito a diferença de ritmo de crescimento.

Ou seja, esses dados e reflexões brutos sobre crescimento “em ritmo chinês” precisam ser ponderados. As vezes se esquece o básico ao analisá-los!

Não nego que a China tem um planejamento econômico muito melhor que o nosso, assim como sua ação comercial-diplomática no exterior é melhor que a nossa, seu sistema educacional está formando mais pesquisadores e gerando mais tecnologia que a gente, seus juros são mais baixos, sua política de câmbio favorece suas exportações e eles tem poupança interna para sustentar seus investimentos. Ou a importância da crítica pontual do post sobre promoção no Fórum Econômico Mundial em Davos (que sinceramente, acho relativa, o Brasil não tem tido problema algum em atrair investimentos produtivos ou não).

Mas talvez valha adicionar que as reflexões deles sobre crescimento talvez também sejam melhores que as nossas…

E que ao se fazer apologia do crescimento chinês em relação ao brasileiro (que não anda mal) desconsideramos:

1 – que é um país ainda muito mais pobre que o nosso, e onde a desigualdade cresce, enquanto no nosso diminui

2 – que os direitos e condições de vida dos trabalhadores são péssimas

3 – que não há democracia ou ampla garantia de direitos (individuais e até de propriedade)

4 – Corrupção, presença excessiva do estado na economia, falta de alternância de poder etc…todos esses questões que aqui se critica, na China são muito, mas muito piores que aqui.

Resumindo: eles não são esse céu todo em termos de crescimento, nem nós esse inferno todo.

Fonte dos dados: CIA Factbook
PIB: https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook//rankorder/2001rank.html
População: https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/rankorder/2119rank.html
PIB per capita https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/rankorder/2004rank.html

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Dinheiro que nasce em árvore

Parte I – Capital não é dinheiro mas é 110%

Não sei porque decide no blog fazer um rápido momento “escolinha” para explicar de forma muito básica duas coisas: capital e ganhos com arbitragem de juros. Na realidade eu sei porque. “Fascinado” com a quebra de Dubai e como os mercados finaceiros fazem dinheiro fácil, com conseqüências nada fáceis.
Primeiro, o famoso capital. Muita gente confunde capital com dinheiro. É importante notar que não é a mesma coisa. Todo o capital é de alguma forma “dinheiro”, mas nem todo dinheiro é capital. “Exprico”! Capital é o dinheiro (um termo melhor seria recurso) usado para gerar mais dinheiro. Digamos que você tem 10 reais e compra um ingresso para o cinema. Se sua intenção é usar esse bilhete e ver o filme, você tem dinheiro. S você comprou esse bilhete por 10 reais para revendê-lo como cambista por 12, você usou os 10 reais como capital: dinheiro com o objetivo de gerar mais dinheiro. Se a forma desse dinheiro gerar mais dinheiro é investir em uma indústria, é capital industrial. Se é através da compra venda de imóveis, é imobiliário. O capital financeiro é aquele gerido pelos bancos. Na prática as formas de capitais são mistas e se confundem umas com as outras (uma indústria mantém aplicações financeiras, um banco possui partes em indústrias ou/e pode basear seu capital em negócios imobiliários etc…).
Capital só é capital enquanto for dinheiro capaz de gerar mais dinheiro. Quando este dinheiro não é capaz de gerar mais dinheiro, mesmo sendo muito dinheiro, ele, enquanto capital, colapsa. Inclusive porque o crescimento da economia tem que dar conta dos juros cobrados pelas relações de investimento do capital (credor e devedor). Por isso que os índices de crescimento da economia ou da bolsa são tão importantes para ele, para seus mecanismos de reprodução. Por isso que para o ponto de vista financeiro (e por conseqüência do jornalismo econômico) um país com padrão de vida excelente como a França ou o Japão vai “mal” quando sua economia para de crescer. E a miserável Índia vai “bem” quando cresce a índices acelerados, mesmo que ainda esteja longe de oferecer aos seus cidadãos um padrão de vida comparado ao da França. Se para retomar os índices de crescimento econômico for necessário piorar o padrão de vida dos cidadão, é isso que a lógica do capital (e quem domina esse capital) vai demandar politicamente (costumam chamar isso de “reformas”).

Parte II – Ganhando dinheiro fácil

Uma tradução chula do conceito de especulação seria dizer que o capital é o único “animal” que se reproduz através da masturbação. Há várias formas de especulação, mas uma atualmente importante para os brasileiros é a arbitragem entre diferentes taxas de juro e tendências de câmbio entre países.
Rápida frase chata de contexto: a partir dos anos 1970 com o fim do padrão-ouro que permitiu maior flutuação entre as moedas de diferentes países e com os avanços da informatização do sistema financeiro, que possibilitaram rápidas movimentações de grandes somas de capital, surgiram possibilidades de ganhar muito, mas muuuito dinheiro simplesmente se aproveitando das diferentes condições de “pressão e temperatura” (câmbio e juros) entre diferentes moedas.
Explico com um exemplo atual. Os juros nos Estados Unidos estão quase em 0% (ou seja, na prática são negativos). Vamos dizer que um banco tome emprestado do governo americano, dentro de um programa de recuperação financeira, 10 dólares. A taxa básica dos juros no Brasil estão em 8,75% ao ano, ou seja, o governo brasileiro paga no mínimo isso pelo dinheiro emprestado para ele. Eu pego aqueles 10 dólares nos EUA a juros 0% e trago para o Brasil, onde eu converto para reais com uma taxa de câmbio de 2 reais por dólar. Eles viram 20 reais que eu empresto por um ano para o governo brasileiro. Depois de um ano o governo brasileiro me devolve esse dinheiro com juros e eu tenho R$ 21,75.
Como não só eu, mas muita gente aproveita essa mesma diferença de juros entre os Estados Unidos (ou outros países) e o Brasil, muito dólar entra na nossa economia. Isso faz com que, pelas leis da oferta e da procura, o real se torne mais valioso em relação ao dólar, que vai ficando cada vez mais banal e desnecessário para quem tem reais (já que está se desvalorizando então quem faz a troca perde dinheiro). Com isso digamos que o valor do dólar em reais, depois desse ano, tenha caído para 1,80 reais.
Quando meu dinheiro voltar do Brasil, eu vou transformá-lo de novo em dólar. Vou pegar meus 21,75 e comprar dólar a 1,80 com ele. Vou conseguir comprar 12,08 dólares, tendo um rendimento de 20% em um ano, parte dele pela diferença de juros, parte pela valorização cambial. Pago o empréstimo do governo americano e saio com 2 dólares. O que eu produzi no período? Nada. Agora imagine isso não com 10 dólares. Mas com bilhões…
Essa conta fecha? Essa tendência é sustentável? Afinal, ela tem que ser sustentada por alguém…olha ela até pode ser viável por um período… O risco é essa massa de reais que querem sair mais dólares (ou iens, ou euros…) do que entraram ir crescendo e crescendo, depois ficar com medo disso quebrar e querer toda sair ao mesmo tempo. Aí o país que viu tanto dólar entrar à 2,00 reais vai ter que dar um jeito de devolver para todos os investidores mais dólares do que entraram, ou, em um ambiente de câmbio livre, sua moeda vai desvalorizar e os investidores perderão o ganho com o câmbio. Em linhas bem simples foi o que aconteceu em 1999. Os investidores viram que não tinham mais como manter esses ganhos no Brasil e pularam fora, deixando o país e seu governo insolvente.
Mas como isso pode ser sustentado por um tempo, ainda que não seja sustentável por muito tempo? O governo e empresas podem ter “aplicado” esse dinheiro de forma a melhorar o desempenho da economia “real” e seu crescimento sustentar parte dessa rentabilidade. E há outras maneiras de obter dólares que dão segurança para essa ação financeira (como exportações maiores que importações) e o próprio dólar pode ser temporariamente uma moeda indesejada.
Quem “sustenta” esse negócio? São várias coisas. Algumas positivas, como inserção de mais consumidores no mercado pela melhora da sua renda ou ganhos tecnológicos e de produtividade derivado de melhor organização da produção. Os entusiastas do capitalismo chamam atenção para essas. Outras formas são os crescimentos dos rendimentos do capital em cima dos trabalhadores (críticos chamam de “mais-valia”. Capitalistas chamam isso de “produtividade”), a exportação de matéria-prima, as apropriações primitivas do capital, muitas delas a custa do meio ambiente ou do bem estar público (transformação de coisas sem valor para a economia, como árvores, em “valor”, como madeira, ou a descoberta de fontes de petróleo), a valorização dos imóveis (que tende a evoluir para um comportamento de bolha…) etc…Os críticos do sistema chamam atenção para essas. Na realidade, elas se misturam e se confudem.
Como a economia brasileira cresce, os juros aqui sempre foram muito altos e estão em níveis baixos historicamente (ainda que muito altos em comparação ao resto do mundo), população consumidora tem nível de endividamento também baixo e sua renda vem crescendo, como o Brasil tem muita matéria-prima que estão com preços elevados e uma balança comercial favorável, o país vai levando bem nesse jogo.
Até quando é sempre uma questão, mas com o pré-sal, os vários potenciais ainda não realizados do país etc…dá para entender porque de no meio da crise financeira mundial o Brasil, e não mais Dubai, é um oásis para quem faz o dinheiro “nascer em árvore”.

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Burle Marx e a natureza da arte

A exposição em homenagem aos 100 anos de nascimento de Roberto Burle Marx entra na sua última semana aqui no Museu de Arte Moderna de São Paulo, depois de ter sido exibida também no Rio de Janeiro. É imperdível. Poucas vezes vi questões políticas, artísticas e  ecológicas (existenciais também, mas aí vou assustar) se mostrando de forma tão integrada e interessante.

Reportagem de Gisele Kato na Bravo “contempla a minha fala”. Mas o melhor estilo assembléia estudantil quero falar coisas que estão lá com minhas palavras 🙂

Primeiro, a obra-prima que é a peça de tapeçaria feita para a prefeitura de Santo André. A gente vai até a Espanha para ver obras de Miró e deixa passar uma dessas na Grande São Paulo.

É uma visita e uma aula fantástica de como arte e ciência, trabalho e criatividade criam uma obra que é uma metáfora de como se “faz” um país. Antes de Burle Marx, como aponta o curador da mostra Lauro Cavalcanti, o paisagismo nacional ignorava as plantas brasileiras, era uma cópia mal feita do europeu.  Havia uma riqueza de conhecimento, formas, cores, possibilidades na flora local. E descobri-las foi uma tarefa de engenho, suor e arte. A invenção do nacional (que acabou renovando o paisagismo mundial) foi possível não por xenofobia, mas ao contrário, justamente por conta do estudo da arte moderna, como bem mostra a obra ao casar o trabalho do pintor, e escultor, e mostrar como este inpirava e era inspirado pelo trabalho do paisagista.

E que arte incrível pode ser esta, o paisagismo, não? O que sempre parece uma coisa de madame a primeira vista, uma opção vagabunda de quem estuda arquitetura, pode ser a bela união entre a biologia e a estética, a ecologia e as artes plásticas. Parece que ao escolher o paisagismo, Burle Marx dá um passo para “trás”  nas artes plásticas mais tradicionais, a pintura e a escultura, para dar dois a frente, criando ambientes e experiências dinâmicas e interferindo nos espaços públicos, como se torna comum mais adiante na arte contemporânea. Como Kato diz em seu texto, no fundo ele antecipa a instalação. E talvez até supere este conceito, não? Porque o que ele faz não se coloca como uma espaço isolado de “arte”, ao contrário, ele está integrado ao ambiente (e ao meio ambiente).

Burle Marx fez parte da geração de “modernos”, que começa com a semana de 22 em São Paulo e avança a partir daí, que construiu muito da identidade brasileira. Inventaram um país que não vira as costas para sua diversidade e riqueza, nem para as reflexões de fora, mas que são lidas de igual para igual, não de forma submissa. Trabalharam para registrar os muitos folclores, as culturas indígenas e negras, a riqueza natural das florestas e do cerrado. Daí nasce a arquitetura moderna, a bossa nova, o tropicalismo e uma cultura sem medo de ser si mesmo, sendo mistura.

Esta batalha parece “vencida”, mas esta longe de ser tão simples assim. Este país interessante, e rico de saber, beleza e diversidade, é sempre ameaçado por uma ignorância que as vezes é explícita, as vezes se finge de cultura “erudita”, mas que sempre exerce o desprezo pelo que o cerca. Em um dos documentários exibidos na exposição, Burle Marx aparece do lado do geógrafo Aziz Ab’Saber, que fala que ambos se preocupam não só com o paisagismo de pequena escala, mas também o de “grande escala”, as grandes paisagens/ecossistemas naturais.

A ignorância – cultural, política e também ecológica- em geral andam juntas. Aqueles que desmatam dizem que estão “limpando” um terreno, e tem uma palavra só para a diversidade da floresta: mato. Eles estão simplesmente “limpando mato”. Esta ignorância é meio par com aqueles que desprezam a cultura brasileira como um todo, porque mestiça, porque renova a tradição, porque é popular, porque rebola e batuca. E com aqueles que interditam opiniões diferentes, ou a participação dos diferentes – sejam eles pobres, evangélicos, índios, negros, mulheres – porque são “ignorantes” e tem que se tutelados.

Enfim, melhor parar por aqui. Fica a dica de ir a exposição (ou se não puder, ler sobre Burle Marx e conhecer seu trabalho, passear pelos muitos parques que ele nos deixou) e aprender com sua generosidade a generosidade da beleza do mundo. Da arte da natureza e da natureza da arte,

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