O fim da TV Globo como conhecemos – O que representaria a perda dos direitos do Brasileirão

O portal Vermelho traz com o título “Boa Notícia” a quase certa perda da Globo dos direitos do Campeonato Brasileiro de Futebol (Brasileirão) entre 2012 e 2014. (leia mais aqui).

Não sei se é boa notícia, mas se realmente ocorrer, o que significa essa mudança nos direitos do futebol para a TV Globo? Praticamente o fim do império dela como a líder isolada de audiência no Brasil e o início de um enfrentamento real entre ela e a Record pela posição de maior rede de TV do Brasil, com possível abertura de espaço (pela mudança de hábito) para um terceiro competidor entrar na briga.

Exagero? Não. Os direitos do futebol são a única opção de audiência direto “na veia” disponível para compra (horas e horas dela…) ainda mais no modelo definido pela licitação do Clube dos 13, onde só uma emissora poderá exibir os jogos, e terá poder de definir os horários das partidas. Caso a Record vença ela provavelmente o colocará para quebrar a espinha dorsal da programação da Globo, a combinação entre novelas, Jornal Nacional e linha de shows entre 19:15 e 23:00, essencial pelo faturamento e promoção da grade como um todo.

A negociação tem consequência grandes para a política, democratização da comunicação e mesmo cultura brasileira (e talvez até em alguns casamentos), difíceis de prever ao deslocar a luta Globo X Record para outro patamar.

Para o futebol em si, a notícia seria ótima. Os valores dos direitos de transmissão aumentarão muito (o que deve permitir a manutenção de mais e melhores jogadores no país) e os jogos poderão ocorrer em um horário menos absurdo do que 22:00 da noite, aumentando o público em estádios. E também o número de jogos transmitidos na TV deve crescer, subindo junto o valor dos patrocínios nas camisas. O futebol carrega audiência para onde for e tem nada a perder ao sair da Globo. É uma paixão e hábito maior que qualquer emissora.

A Globo ainda tenta, politicamente, manter os direitos, mas no campo financeiro não tem como concorrer no novo modelo que separa uma licitação para TV (onde a Record, graças a Igreja Universal, tem um fôlego financeiro insuperável) e outro para novas mídias, como internet e celular (onde a Globo não consegue concorrer com as empresas de telefonia, dezenas de vezes maiores que ela).

Dentro da sua programação a Globo terá que mudar sua atitude (arrogante) de ignorar as concorrentes. Ela não terá como fazer isso com o principal campeonato de futebol do país, por conta do efeito que teria nos seus programas jornalísticos, com o risco de danificar a audiência dos telejornais e inviabilizar o Globo Esporte.

A Globo já perdeu o domínio absoluto que teve na audiência da TV aberta até praticamente o fim do século XX. A emergência da Record, diferente de movimentos esporádicos do SBT, Band e Manchete, é ambiciosa, de longo prazo e sistemática, movida por paciência e recursos amplos. É praticamente inevitável, inclusive porque a concentração da Globo era muito grande, artificial, e a Globo tem enfrentado a questão com dificuldade, inclusive de reconhecer e mudar sua cultura interna para enfrentá-la…

Em outras frentes a Globo enfrenta mudanças de hábito (multiplicação de canais na TV por assinatura, internet) e as mudanças tecnológicas e de escala de custo que praticamente a jogaram para fora do mercado de serviço de TV a Cabo (NET) e que tornam muito difícil concorrer de frente com as empresas de telefonia no cenário de convergência digital.

Em outras palavras…não vai deixar de ter muito poder, mas o super poder político e econômico que a Globo tem em relação as demais empresas de conteúdo no Brasil parece estar com os dias contados.

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Desfazendo 10 mitos sobre cinema ou eu também posso cagar regras!

1 ) A Novelle Vague francesa não era contra o cinema americano. Muito pelo contrário.

2 ) Alfred Hitchcock fazia cinema comercial. Foi muito depois do começo da sua carreira que descobriram que aquilo era arte.

3 )  A diferença entre cinema comercial e cinema de arte não é definida por um passar no Cinemark e o outro no Espaço Unibanco.

4) Quentin Tarantino era bom, ficou ainda melhor nos seus últimos filmes. Não o contrário.

5) O dito “cinema de arte” é na realidade um segmento comercial voltado para aqueles que querem consumir algo que se parece com arte.

6 ) Cinema francês contemporâneo e cinema independente americano em geral não querem dizer nada sobre a qualidade de um filme.

7 ) Desconfie quando muita gente no Facebook chama um filme de “genial”.

8 ) Tropa de Elite 2 “de esquerda” não redime Tropa de Elite 1 “de direita”.

9) Rede Social é bom e tem muito trabalho de direção, sim senhor.


10) Para gostar, se divertir e conversar sobre cinema não precisa ser esnobe. E é bom ter a cabeça, os olhos e os ouvidos bem abertos!

PS: Colaboração fundamental da irmã Paula Chrispiniano nessa compilação.

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Por um Minc não careta ou três tempos/visões da cultura e política cultural brasileira

Aviso: esse texto contém simplificações. De ideias, de linhas políticas e da atuação de órgãos públicos. Mas é proposital por ele ser ilustrativo do que acho que são as três principais visões mais gerais de cultura brasileira/política cultural que co-existem  e se enfrentam, por exemplo, nos debates que surgem com a posse de Ana de Hollanda, e de certa forma do pensamento do PT de forma mais direta, no Ministério da Cultura (Minc).

Depois se for o caso escrevo um mais a sério e menos galhofeiro.

Eu as situei no tempo/espectro político/visão de cultura brasileira de cada uma delas.

Todas existem até hoje. Mas cada uma tem seu próprio tempo.

Vale só mais um aviso. Provavelmente a melhor política pública para a cultura possível conteria todas as concepções e tipos de projeto com que eu brinco abaixo…por mais que eles sejam diferentes entre si.

A Belle Époque Tucana (pré 1922)

Acreditam que a misssão de uma secretaria de cultura é elevar o “nível cultural” da população. Para isso devem “levar” a “boa” cultura, principalmente pelo seu efeito civilizador. Uma coisa de inspiração quase jesuítica.

Osesp em ação: o melhor projeto cultural brasileiro por poder ser de qualquer lugar do mundo

Alguns não tem certeza se vale a pena mesmo financiar uma cultura brasileira e reservadamente revelam receios de que exista, ou que valha a pena se ufanar de algo como uma cultura brasileira.

Falam em “marketing cultural”, e deixar morrer iniciativas culturais que “não sabem sobreviver no mercado”, embora sua política seja ótima para canalizar rescursos públicos para o que já poderiam sobreviver de qualquer jeito no mercado. Reconhecem a necessidade de fomento, universalização e circulação das artes clássicas, que tem dificuldade para sobreviver nesse país tropical. Música clássica e balé clássico. Sem modernismos.

Consideram a Osesp o melhor projeto de cultura do Brasil. É uma orquestra cara, de nível internacional, com músicos internacionais, maestro internacional, que poderia ser de qualquer país de primeiro mundo, faz turnês e gravações internacionais. Você assiste e nem diz que é de São Paulo: poderia ser de Boston, Berlim, Milão, não dá nem para sentir o cheiro do lixo da Cracolândia em volta. Por isso mesmo a consideram o melhor projeto cultural do Brasil.

Gozo mesmo são projetos que “levam cultura” para as favelas. Como se a favela não tivesse cultura. De preferência, aqueles que fantasiam as crianças de meninos de Viena, cantando ou tocando músicas clássicas. (Aviso: não é crítica a existência e financiamento de projetos assim em si ou do acesso de qualquer um à música clássica )

Os tucanos confundem gestor de políticas culturais com eruditos, ou ao menos, quem sabe apreciar uma boa ópera. Claúdia Costim, Francisco Weffort, João Sayad e Andrea Matarazzo, por exemplo, nenhum oriundo da área cultural (respectivamente gestão e energia, ciências políticas, banqueiro e…deixa para lá). Mas todos muito cultos e de bom gosto. Jamais são demitidos (aliás, secretário/ministro da Cultura raramente o é).

A versatilidade de Matarazzo

Vale ler esta entrevista do Matarazzo, novo secretário de Cultura de São Paulo e sua leitura das políticas públicas de cultura e ver esse vídeo do simpático  Weffort para o projeto Produção  Cultural (que admite sua dificuldade com o cargo, e faz homenagem ao legado do gigante Mário de Andrade, que é realmente quem projeta junto com o “irmão”(sic) Oswald sua sombra sobre tudo isso)

O nacional-desenvolvimentismo petista (até 1967) ³

Há uma cultura nacional. Há tradições nacionais. Há artistas. E é preciso protegê-los! São frágeis, os coitados…Da cultura de massa, das misturas que eliminam a pureza do samba, e fomentar os artistas que defendem a nossa verdadeira cultura.

Vai dizer que o samba em si nasceu de uma mistura de música da Europa com tradições africanas e que em seus primórdios foi perseguido e tratado com o mesmo desdém que os puristas hoje tratam as novas manifestações miscigenadas e periféricas de “preto, de pobre, de favelado”. Eles te interrompem antes que acabe.

Vai dizer que existem coisas para serem protegidas, que existem tradições para serem preservadas, mas que reserva de mercado e isolacionismo não protegem a vitalidade de uma cultura fundada na antropofagia (só a tiram do seu tempo, da modernidade). Por isso que ataques contra o Creative Commons baseado em sua origem em um acadêmico nos Estados Unidos (bold e vermelho) faz sentido em certos meios como “denúncia” e defeito de origem.


Gil no seu pior momento: na passeata contra a guitarra elétrica em 1967!

Claro que tradições devem ser preservadas. Mas vai dizer que “fossilizar” pessoas e comunidades é infantilizar, tratar o outro como objeto de museu, animal no zoológico cultural, e não dialogar como igual. Elas tem que ser vivas e insumos, fortalecidas não vitimizadas, não formol e farsa de si mesmas enquanto manifestações culturais.

O “nacional-desenvolvimentismo cultural” reconhece o valor das manifestações populares. Desde que nas regras quase do folclore.  Pobre pode. De sandália de coro. De Rider, não!

O nacional-desenvolvimentismo cultural é obviamente mais setorial, mais ligado a classe artística existente, e ao proteger o setor, acaba as vezes por extensão protegendo um modelo comercial, corporativo e cartorial de cultura.Ele protege o que existe porque é mais defensivo que propositivo. O que é novo não tem corporação para defendê-lo.

Nesse modelo existem os artistas e os não artistas. Os que produzem e os que consomem cultura. E os que produzem são proprietários exclusivos de sua obra, que, para deixarmos claro, é entendida como propriedade. Sem inflexões.

Por se assentar no que existe, não no que está nascendo, tem apoio da classe artística estabelecida e representada simbolicamente e de forma setorial em partidos. Mas a cultura não é uma classe, ou de uma classe. E embora o artista, o criador, seja uma figura especial e essencial da cultura, ele não é seu centro, porque não há centro nesse universo, e o criador não é algo que exista fora de um sistema.

Digo isso por causa do discurso da posse de Ana de Hollanda. Tem coisas legais, tem coisas ambíguas, tem coisas que eu acho ruim, mas a ideia da “pessoa que cria”, essa ideia de um ser artista “mágico” não é base para política pública, é uma representação simbólica que um setor profissional cria para si mesmo. É mais ou menos como dizer que toda a política de esporte deve ser voltada para esporte profissional e não para a prática de atividades físicas de forma mais ampla (aliás, é assim mesmo no Brasil, né?).

A política ideal agora é fomentar e fazer circular os artistas brasileiros chancelados e estabelecidos como sua excelência, “o criador”,  pelo país (e eu até acho que artistas mesmo são pessoas especiais). Não é por acaso que o modelo ideal aqui é o Projeto Pixinguinha, que subvenciona shows de música.

Existe outros trechos do discurso de posse da nova ministra que me deixam com receio. Ela critica a antiga gestão nessa passagem:

“Visões gerais da questão cultural brasileira, discutindo estruturas e sistemas, muitas vezes obscurecem – e parecem até anular – a figura do criador e o processo criativo.”

Bizarro alguém achar que está concluída, ou não é fundamental, que a principal e mais produtiva forma de intervenção de um Ministério da Cultura incipiente no Brasil não seja criando sistemas e estruturas (por exemplo, estruturando, dando apoio e formação para políticas e redes de secretarias estaduais e municipais de cultura, ou suas relações com o sistema de educação).  E não é que essa preocupação obscurece ou anula o “criador”. Ela o contextualiza! (por exemplo, a necessidade de se pensar formação de público e vocações artísticas e relação não só com o MEC, mas também com o Ministério das Comunicações e Ciência e Tecnologia…)

O discurso indica que na visão nacional-desenvolvimentista irá se fomentar aquilo que existe, mas não se percebe que irá se perder a chance de se criar condições para aquilo que poderia ser (e que provavelmente será de qualquer jeito, aliás, já é, mas será apesar ao invés de com a ajuda do Minc)!

Como mais ou menos disse o amigo Rodrigo Savazoni @rodrigosavazoni (que de resto, não tem “culpa” por esse texto) ela aponta um ministério ligado às raízes do Brasil (grande vô Sérgio!) quando o passo além que o país precisa hoje é de redes (até mesmo para as raízes se espalharem)!

O tropicalismo/manguebit da dupla Gil e Juca (pós 1967)

O tropicalismo se voltou ao modernismo e a antropofagia para atualizá-los nos anos 60 para o mundo da cultura de massa, dos jovens, do rock. Mantendo a cultura brasileira com sua capacidade de sempre se renovar não sendo aquele menino que não desenvolve anti-corpos ao não brincar com os outros na rua, mas por ser aquele que faz do seu jeito também as brincadeiras dos outros. O manguebit veio para atualizar o tropicalismo para a era digital. Eu lembro da primeira vez que vi Chico Science. Não entendi nada! O manguebit era tão moderno que então foi “traduzido” errado pela imprensa, que o entendeu e rebatizou como beat de batida e não bit de tecnologia.

“Computadores fazem arte” – profético! Imagina se isso fosse entendido como política cultural-educacional na época em que isso foi cantado (a música foi lançada em 1994)

O Minc de Gil/Juca, é preciso dizer, foi um acaso, quase um erro, uma “falha” no sistema político…Surge do vazio deixado por Weffort, que permitia tudo, com um vazio no debate público e dos interesses politiqueiros em um Ministério da Cultura. Acharam que estavam dando o Minc para os “artistas”. E o pessoal lá fez “arte”!

Permitiu-se criar um ministério novo, garantido pela legitimidade de Gil, e,  sem muita gente para defender algum status quo consolidado internamente (exceção da questão da lei Rouanet e do audiovisual, que não era pouca gente…). E é preciso dizer que como tão novo, cometeu erros, claro, e talvez o maior dele foi não perceber a urgência do tempo contida na sua própria excepcionalidade, na sua liberdade e falta de apoio político (que depois da saída do Gil, foi apenas o compromisso do Lula com o ex-ministro) para aproveitar a oportunidade e consolidar, comunicar e sintetizar os avanços, ou partir para um tudo ou nada em grandes batalhas contra forças estabelecidas (da Lei Rouanet e dos direitos autorais), que talvez fossem perdidas de qualquer jeito.

O espaço foi conquistado pelo novo, pela descentralização, por abrir a cultura a quem não era tradicionalmente do meio, em formas transversais de apoio (os pontos de cultura, cultura digital) que não tinham a ver com as caixinhas setoriais anteriores dos criativos de profissão (sem querer desmerecê-las). Diga-se de passagem, hoje o ministério é bem mais compreendido do que antes.

A descentralização do eixo Rio-São Paulo (na realidade, dos bairros ricos de Rio São Paulo), a criação de redes, sua ampliação e apoio, não é favor, não é lateral, não é secundária em uma política cultural brasileira. Ela é CENTRAL na criação de novos modelos e manifestações artísticas na cultura brasileira. Ela sim se alinha com as demais políticas de redução das desigualdades sociais.

A política do Minc não deve ser o gasto de energia para manter a velha estrutura de Ecads e afins. Na opção de onde alocar esforços, vale mais se posicionar para desenvolver o novo do que ficar a defender velhas estruturas (não confundir aí, velhas estruturas com manifestações culturais tradicionais, indústria cultural ou economia criativa, todas fundamentais).

A periferia, as redes, as novas e mais baratas formas de criação e re-criação de cultura são a chance do Brasil se colocar melhor como um dos nós das redes globais que dialogam cultura, ao mesmo tempo que resolve suas carências históricas com a população mais pobre de forma livre, pagando menos pedágios de copyright.  Fomentar as redes internas, fomentar a cultura, não só dividida em produção e consumo, mas no novo modelo onde todos somos produtores/emissores/filtros de cultura (sempre fomos, isso só explicita). E criar e nos preparar para os pontos de diálogo dela com o mundo, com as periferias e centros espalhados seja nos países ricos (que também tem suas periferias) ou nos pobres do mundo (que também seus centros ricos de cultura “clássica”, “cosmopolita” ou o escambau) .

Isso não é “em tese”. Isso já acontece, esse é o mundo de hoje. Só para ficar em exemplos fáceis a “exportação” (globalização, digamos assim) dos “periféricos” Seu Jorge, osgemeos e Vik Muniz; a formação de redes do hip-hop, da Central Única de Favelas e das bandas independentes do Fora do Eixo; os novos modelos de negócios na música nas cenas de funk e brega, do carnaval entre amador e profissional dos blocos das ruas cariocas, de quem o Ecad quer cobrar direito autoral e etc…A vitalidade em todas as artes cada vez mais emergindo de fora do eixo Rio-São Paulo!

Esse é o agora! O que, como disse antes, não impede que todas as outras linhas de política cultural brasileira não estejam também contempladas.

A questão básica é que uma cultura tão “espontaneamente complexa” como a brasileira não pode ter um Ministério da Cultura que pense pequeno ou seja careta.

Logo criado por @barbaraszanieck para a campanha para que o Minc continue a ter um olhar inovador sobre a questão dos direitos autorais. Saiba mais

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O artigo de FHC é bom, o problema é o autor

O artigo de Fernando Henrique Cardoso, publicado hoje em vários jornais como uma orientação de assuntos para a oposição é inteligente (íntegra do artigo abaixo, e inteligente não quer dizer que eu concorde com o texto). É um bom roteiro, com várias questões importantes. Inclusive o título é excelente, “Tempo de muda”. O problema inclusive é que o título  é tão bom que também se aplica ao autor e a oposição de forma mais ampla.

Podemos dispensar o exercício quase cruel de comparar as críticas de FHC ao governo Lula-Dilma com o desepenho dele como presidente. Beira o ridículo pensar em como foram construídos nas trevas os consórcios da privatização em seu governo, para ficar em um exemplo de contradição entre sua crítica e prática. Ou o uso do BNDES na sua gestão, de novo, para financiar a privatização.

A questão principal, para a oposição, é que ter um roteiro de críticas não é nem metade (e a mais fácil) parte do trabalho. A outra seria ter um plano interessante, que representasse anseios e melhor qualidade de vida para amplos setores da sociedade. Ter, enfim, uma proposta. Só que criar um ideário não é coisa assim tão fácil…

O PSDB não tem sequer programa para concorrer com o PT. Por isso, faz oito anos que esperam que o governo federal imploda em um fracasso que não chega, muito pelo contrário (com o mensalão em 2005, e a crise de 2008, tinham certeza que Lula naufragaria). O PSDB pode defender isso externamente, mas já era hora deles se darem conta que o PT não é tão incompetente a ponto de se auto-destruir. O irônico é que talvez, mesmo quando esse dia cheguar, provavelmente do jeito que estão conduzindo seu próprio partido não estarão preparados.

O PSDB começou querendo ser social democrata, mas chegou ao poder com a cartilha neoliberal dos anos 1990, e essa fracassou na prática, aqui e no exterior, e se tornou insustentável como discurso junto ao eleitorado. Hoje o exterior não tem nenhuma cartilha para exportar, ao contrário, o Brasil anda bem mais esperto e com rumo que os países desenvolvidos. Na sociedade o PT ocupou espaços que eram do PSDB, ao não assustar mais o empresariado e o mercado financeiro. E empurrou os tucanos para o canto direito, como partido elitista, preconceituoso e entreguista, defensor de um status quo de desigualdade e submissão ao exterior, enquanto o PT representaria o novo país de classe média e potência emergente. E, em parte por tudo isso ter algo de verdade, a caracterização pegou.

É realmente, tempo de muda, de governo, da oposição e de geração política, mas ao invés disso o PSDB acha que é problema de imagem e interpretação histórica do governo FHC, não de essência. Essa batalha já foi perdida. 2010 foi a última eleição “Legado Lula” X “Legado FHC”. Perdeu, playboy! Se o PSDB quiser seguir mantendo essa discussão estará encomendando outra derrota. Ele deveria preparar o discurso para frente, para superá-la.

O caminho da oposição de direita passa bem menos por discutir a intensidade com que fará oposição contra Dilma e bem mais pela redução do papel dos tucanato paulista nas disputas nacionais. De TODO o PSDB paulista. A coisa é simples assim: após perder 3 eleições nacionais, o PSDB-SP devia trabalhar em função da construção da canditatura Aécio, visando chegar ao planalto em 4 ou 8 anos. O PT levou 13 para chegar lá com Lula…

Fernando Henrique precisava ser mais prático e desencanar de defender seu governo ou querer ser figura de proa da oposição. José Serra deveria desistir da presidência e “jogar para o time” da construção partidária (sei que jamais acontecerá) e mesmo Alckmin deveria de cara se colocar ou como candidato à vice de Aécio caso seja a melhor opção, ou trabalhar sua releição.

Aécio é o candidato forte do consórcio PSDB-DEM-PPS.  É a chance deles. O resto são xurumelas imaginárias: aventuras de grupos (Alckmin) ou, nessa altura do campeonato, distúrbio maníaco-obssesssivo mesmo (Serra).

Se a oposição fosse capaz de largar as disputas internas em nome de uma construção partidária e arco de alianças, refazendo ideário, reforçando sua construção nacional, estatutos e a qualidade dos governos do partido, ficaria em boa posição para colher esse eventual colapso petista que eles prevêm que vai acontecer todo o ano desde 2002.

O “legal” de escrever isso é saber que o PSDB é absolutamente incapaz de seguir um roteiro desses. Porque debaixo dessa coisa moderna que eles acham que tem, é um partido marcado pelos mesmos cordialismos e caciquismos da política brasileira, com um estatuto débil, cultura interna nula e incapaz de se relacionar com a sociedade civil. O desprezo deles com as classes trabalhadoras e suas organizações está demonstrado no uso do termo “pelego” no texto de FHC para as organizações sindicais. Sindicatos de que o PSDB tem nojo , quando, em geral, são a base dos partidos sociais-democratas de verdade (no caso brasileiro, o PT, não o PSDB)

E ainda tem a infinita capacidade e energia do Serra e sua gangue de sobrepor sua agenda pessoal à da oposição, mesmo quando isso já não faz nenhum sentido…

Hoje o governo e o futuro domínio político imediato é do PT, que teria que perder para si mesmo para não seguir governando pelos próximos 8 anos. E o futuro alternativo é de alguém que vai voar abaixo do radar do dia-a-dia futriqueiro do jornalismo político: Marina Silva. Que tem um discurso e está construindo uma base (se tem um programa e quanto esse programa é consistente é outra coisa, mas ela definitivamente tem um discurso e está construindo uma base).

Já os tucanos…

Se o PSDB quiser passar mais quatro anos tentando reabilitar a popularidade do governo FHC, o PT vai adorar. FHC pode disputar o passado, seu papel nos livros de história, quanto quiser…Difícil é ele quere ter a ambição de ser protagonista da construção de qualquer futuro.

Tempo de muda, por Fernando Henrique Cardoso*

Novo ano, nova presidente, novo Congresso atuando no Brasil de sempre, com seus êxitos, suas lacunas e suas aspirações. Tempo de muda, palavra que no dicionário se refere à troca de animais cansados por outros mais bem dispostos, ou de plantas que dos vasos em viveiro vão florescer em terra firme. A presidente tem um estilo diferente do antecessor, não necessariamente porque tenha o propósito de contrastar, mas porque seu jeito é outro. Mais discreta, com menos loquacidade retórica. Mais afeita aos números, parece ter percebido, mesmo sem proclamar, que recebeu uma herança braba de seu patrono e de si mesma. Nem bem assume e seus porta-vozes econômicos já têm que apelar às mágicas antigas (quanto foi mal falado o doutor Delfim, que nadava de braçada nos arabescos contábeis para esconder o que todos sabiam!) porque a situação fiscal se agravou. Até os mercados, que só descobrem estas coisas quando está tudo por um fio, perceberam. Mesmo os velhos bobos ortodoxos do FMI, no linguajar descontraído do ministro da Fazenda, viram que algo anda mal.

Seja no reconhecimento maldisfarçado da necessidade de um ajuste fiscal, seja no alerta quanto ao cheiro de fumaça na compra a toque de caixa dos jatos franceses, seja nas tiradas sobre os até pouco tempo esquecidos “direitos humanos”, há sinais de mudança. Os pelegos aliados do governo que enfiem a viola no saco, pois os déficits deverão falar mais alto do que as benesses que solidarizaram as centrais sindicais com o governo Lula.

Aos novos sinais, se contrapõem os amores antigos: Belo Monte há de vir à luz com cesariana, esquecendo as preocupações com o meio ambiente e com o cumprimento dos requisitos legais; as alianças com os partidos da “governabilidade” continuarão a custar caro no Congresso e nos ministérios, sem falar no “segundo escalão”, cujas joias mais vistosas, como Furnas (está longe de ser a única), já são objeto de ameaças de rapto e retaliação. Diante de tudo isso, como fica a oposição?

Digamos que ela quer ser “elevada”, sem sujar as mãos (ou a língua) nas nódoas do cotidiano nem confundir crítica ao que está errado com oposição ao país (preocupação que os petistas nunca tiveram quando na oposição). Ainda assim, há muito a fazer para corresponder à fase de “muda”. A começar pela crítica à falta de estratégia para o país: que faremos para lidar com a China (reconhecendo seu papel e o muito de valioso que podemos aprender com ela)? Não basta jogar a culpa da baixa competitividade nas altas taxas de juro. Olhando para o futuro, teremos de escolher em que produtos poderemos competir com China, Índia, asiáticos em geral, Estados Unidos, etc. Provavelmente serão os de alta tecnologia, sem esquecer que os agrícolas e minerais também requerem tal tipo de conhecimento. Preparamo-nos para a era da inovação? Reorientamos nosso sistema escolar nesta direção? Como investir em novas e nas antigas áreas produtivas sem poupança interna? No governo anterior, os interesses do Brasil pareciam submergir nos limites do antigo “Terceiro Mundo”, guiados pela retórica do Sul-Sul, esquecidos de que a China é Norte e nós, mais ou menos. Definimos os Estados Unidos como “o outro lado” e percebemos agora que suas diferenças com a China são menores do que imaginávamos. Que faremos para evitar o isolamento e assegurar o interesse nacional sem guiar-nos por ideologias arcaicas?

Há outros objetivos estratégicos. Por exemplo, no caso da energia: aproveitaremos de fato as vantagens do etanol, criaremos uma indústria alcoolquímica, usaremos a energia eólica mais intensamente? Ou, noutro plano, por que tanta pressa para capitalizar a Petrobras e endividar o Tesouro com o pré-sal em momento de agrura fiscal? As jazidas do pré-sal são importantes, mas deveríamos ter uma estratégia mais clara sobre como e quando aproveitá-las. O regime de partilha é mesmo mais vantajoso? Nada disso está definido com clareza.

O governo anterior sonegava à população o debate sobre seu futuro. O caminho a ser seguido era definido em surdina nos gabinetes governamentais e nas grandes empresas. Depois se servia ao país o prato feito na marcha batida dos projetos-impacto tipo trem-bala, PACs diversos, usinas hidrelétricas de custo indefinido e serventia pouco demonstrada. Como nos governos autoritários do passado. Está na hora de a oposição berrar e pedir a democratização das decisões, submetendo-as ao debate público.

Não basta isso, entretanto, para a oposição atuar de modo efetivo. Há que mexer no desagradável. Não dá para calar diante da Caixa Econômica ter se associado a um banco já falido que agora é salvo sem transparência pelos mecanismos do Proer e assemelhados. E não foi só lá que o dinheiro do contribuinte escapou pelos ralos para subsidiar grandes empresas nacionais e estrangeiras, via BNDES. Não será tempo de esquadrinhar a fundo a compra dos aviões? E o montante da dívida interna, que ultrapassa um trilhão e seiscentos bilhões de reais, não empana o feito da redução da dívida externa? E dá para esquecer dos cartões corporativos usados pelo Alvorada que foram tornados “de interesse da segurança nacional” até o final do governo Lula para esconder o montante dos gastos? Não cobraremos agora a transparência? E o ritmo lento das obras de infraestrutura, prejudicadas pelo preconceito ideológico contra a associação do público com o privado, contra a privatização necessária em casos específicos, passará como se fosse contingência natural? Ou as responsabilidades pelos atrasos nas obras viárias, de aeroportos e de usinas serão cobradas? Por que não começar com as da Copa, libertas de licitação e mesmo assim dormindo em berço esplêndido?

Há, sim, muita coisa para dizer nesta hora de “muda”. Ou a oposição fala e fala forte, sem se perder em questiúnculas internas, ou tudo continuará na toada de tomar a propaganda por realização. Mesmo porque, por mais que haja nuances, o governo é um só Lula-Dilma, governo do PT ao qual se subordinam ávidos aliados.

*Ex-presidente da República

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Os Trapalhões e o politicamente correto

É fato que seria difícil os Trapalhões existirem hoje. Nem emissora, nem classificação indicativa, nem grupos que fiscalizam a qualidade da TV deixariam o programa em paz.

Ainda mais que apesar de ter começado mais voltado para adultos, foram as crianças que logo viraram seu principal público. O programa passava 19 horas de domingo, e era tudo, menos “educativo”. De fato, é bizarro pensar em um programa desses para crianças. Ao mesmo tempo, muitas vezes, os Trapalhões eram geniais!

O curioso é ver esquetes como esses dois abaixo…que se por um lado promovem “preconceitos” ao mesmo tempo os criticam…

As vezes acho que a assepsia do politicamente correto por um lado protege os preconceitos que se tornam “subterrâneos”, não ditos…mas ainda lá. Para mim a questão do enfrentamento de preconceitos tem sua luta no campo simbólico, mas muito mais no campo prático material (igualdade de condições entre homens e mulheres, regionais e entre negros e brancos, por exemplo).

 

Os Trapalhões e as mulheres

 

 

 

Os Trapalhões e os nordestinos

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Plano de Kassab para São Paulo é “ideia de jerico”

Fiz questão de pegar a matéria da Folha de S. Paulo sobre o plano de Kassab para São Paulo e disponibilizá-la. Só inverti a ordem, colocando a análise dos especialistas (unânimes na condenação do plano) antes da notícia.  Não é possível uma boçalidade como essa do Kassab. Não é possível uma prefeitura tão burra que venha com uma proposta dessas, que só interessam empreiteiras, nessa altura do campeonato…Também não dá para acreditar que o paulisano queira/sinta falta de mais vias “expressas”, para seguir apartado da cidade como via de passagem, ou que acredite que elas serão mesmo expressas, e não monstros congestionados.

Pergunta para Kassab e seus eleitores: você é um jerico?

Você também pode ler mais sobre o plano do Kassab nesse post

É a mesma ideia de jerico, diz especialista

Engenheiro diz que só investimentos em transporte público vão reduzir a circulação de automóveis e a poluição

Presidente da ANTP diz que plano não encara o problema de frente; ônibus também vai ganhar, diz prefeitura

DE SÃO PAULO

Para especialistas, priorizar projetos para a circulação de carros vai na contramão do que a cidade precisa.
“O problema é fazer as pessoas andarem mais rápido, não os carros”, diz Ailton Brasiliense, presidente da ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos) e ex-diretor da CET na gestão de Luiza Erundina (1989-92). Para ele, a prioridade deve ser o transporte coletivo.
Horácio Augusto Figueira, mestre em transportes pela USP, concorda. Ele diz que a ideia é muito parecida com o Plano de Vias Expressas dos anos 1970, mas num contexto bem menos justificável.
“É a mesma ideia de jerico. Falar em vias expressas na situação em que o planeta vive, numa cidade como SP, é assinar atestado de óbito.”
O melhor, diz, é investir mais em corredor de ônibus. Brasiliense diz que o mais complicado é que “não se encara o problema central de frente”. “Nós ficamos o tempo todo construindo sistema para automóvel, vide as dez faixas da marginal Tietê.”
Melhorar a circulação de carros, diz Brasiliense, só colocará mais carros nas ruas.
A prefeitura afirma que a melhoria da circulação dos carros por meio dos anéis e eixos viários vai ajudar a liberar as vias radiais estruturais para os ônibus. Diz, ainda, que as vias expressas também poderão receber corredores de ônibus.

PRESTES MAIA
A ideia de estruturar a circulação em avenidas de tráfego rápido remonta aos anos 1930, quando fábricas como a Ford e a General Motors se instalaram no país.
Foi nessa década que Prestes Maia (prefeito de 1938 a 1945) implantou o Plano de Avenidas, que resultou em vias como Nove de Julho, Duque de Caxias e São Luís.
Em 1971, foi posto em prática um sistema de circulação em grelha, interligando anéis viários e rodovias- parecido com a ideia atual.

Plano de Kassab prevê via rápida para carros

Pelo projeto haverá vias expressas e dois corredores paralelos à marginal Tietê

Também está previsto eliminar cruzamentos e retirar semáforos; ideia, reedição de plano dos anos 70, é criticada

JOSÉ BENEDITO DA SILVA
DE SÃO PAULO

Vias expressas em formato de anéis ou de eixos viários que cortam São Paulo, além de dois corredores paralelos à marginal Tietê, são as apostas do prefeito Gilberto Kassab (DEM) para reduzir congestionamentos e, com isso, melhorar a qualidade do ar.
O plano, sintetizado pela CET, foi entregue ao governo de SP como parte de um trabalho coordenado por órgãos estaduais e municipais para discutir mudanças na forma de monitorar a poluição atmosférica.
A ideia -uma reedição atualizada do Plano de Vias Expressas, tocado pelo então prefeito Figueiredo Ferraz nos anos 1970- é duramente criticada por especialistas.
O principal ponto do projeto, que não prevê datas nem custos, é a consolidação de cinco anéis viários, formados por vias já existentes ou em projeto, que teriam gargalos e barreiras eliminados, além de um padrão (de pavimento, sinalização e fiscalização).
O maior deles é o Rodoanel, que tem dois dos seus quatro trechos prontos e dois em fase de aprovação da licença ambiental. O menor é o anel do centro histórico.
Para tornar a via rápida, há previsão de eliminar cruzamentos (por meio de pontes, viadutos, passagens subterrâneas e outras intervenções), retirar ou reprogramar semáforos, criar faixas de tráfego e até proibir parar em parte dessas vias.
O plano também prevê dois eixos de circulação rápida. Um deles, norte-sul, iria da rodovia Fernão Dias até o trecho sul do Rodoanel, passando por avenidas como Interlagos e 23 de Maio. O outro iria da Régis Bittencourt, a oeste, até o futuro trecho leste do Rodoanel, passando pela avenida Jacu-Pêssego.

CORREDORES
Também integram o plano a consolidação de dois corredores paralelos à marginal Tietê. Um deles ao norte, que iria da Anhanguera até a Vila Maria, próximo à via Dutra. O outro, ao sul, seria uma extensão da av. Marquês de São Vicente até a av. Aricanduva.
O objetivo principal, diz a CET, é reduzir os congestionamentos dos atuais 140 km, em média, para 90 km -a lentidão no trânsito provoca uma maior emissão de poluentes na atmosfera.
Segundo a prefeitura, parte das intervenções para os anéis e eixos viários está em fase de estudo ambiental, como os túneis da avenida Sena Madureira e da avenida Jornalista Roberto Marinho.
Outras, como a criação de uma passagem subterrânea na rua Ribeiro de Lima (sob a avenida Tiradentes) e do Apoio Sul (via paralela à marginal Tietê), estão em fase de elaboração de projeto.

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