O artigo de FHC é bom, o problema é o autor

O artigo de Fernando Henrique Cardoso, publicado hoje em vários jornais como uma orientação de assuntos para a oposição é inteligente (íntegra do artigo abaixo, e inteligente não quer dizer que eu concorde com o texto). É um bom roteiro, com várias questões importantes. Inclusive o título é excelente, “Tempo de muda”. O problema inclusive é que o título  é tão bom que também se aplica ao autor e a oposição de forma mais ampla.

Podemos dispensar o exercício quase cruel de comparar as críticas de FHC ao governo Lula-Dilma com o desepenho dele como presidente. Beira o ridículo pensar em como foram construídos nas trevas os consórcios da privatização em seu governo, para ficar em um exemplo de contradição entre sua crítica e prática. Ou o uso do BNDES na sua gestão, de novo, para financiar a privatização.

A questão principal, para a oposição, é que ter um roteiro de críticas não é nem metade (e a mais fácil) parte do trabalho. A outra seria ter um plano interessante, que representasse anseios e melhor qualidade de vida para amplos setores da sociedade. Ter, enfim, uma proposta. Só que criar um ideário não é coisa assim tão fácil…

O PSDB não tem sequer programa para concorrer com o PT. Por isso, faz oito anos que esperam que o governo federal imploda em um fracasso que não chega, muito pelo contrário (com o mensalão em 2005, e a crise de 2008, tinham certeza que Lula naufragaria). O PSDB pode defender isso externamente, mas já era hora deles se darem conta que o PT não é tão incompetente a ponto de se auto-destruir. O irônico é que talvez, mesmo quando esse dia cheguar, provavelmente do jeito que estão conduzindo seu próprio partido não estarão preparados.

O PSDB começou querendo ser social democrata, mas chegou ao poder com a cartilha neoliberal dos anos 1990, e essa fracassou na prática, aqui e no exterior, e se tornou insustentável como discurso junto ao eleitorado. Hoje o exterior não tem nenhuma cartilha para exportar, ao contrário, o Brasil anda bem mais esperto e com rumo que os países desenvolvidos. Na sociedade o PT ocupou espaços que eram do PSDB, ao não assustar mais o empresariado e o mercado financeiro. E empurrou os tucanos para o canto direito, como partido elitista, preconceituoso e entreguista, defensor de um status quo de desigualdade e submissão ao exterior, enquanto o PT representaria o novo país de classe média e potência emergente. E, em parte por tudo isso ter algo de verdade, a caracterização pegou.

É realmente, tempo de muda, de governo, da oposição e de geração política, mas ao invés disso o PSDB acha que é problema de imagem e interpretação histórica do governo FHC, não de essência. Essa batalha já foi perdida. 2010 foi a última eleição “Legado Lula” X “Legado FHC”. Perdeu, playboy! Se o PSDB quiser seguir mantendo essa discussão estará encomendando outra derrota. Ele deveria preparar o discurso para frente, para superá-la.

O caminho da oposição de direita passa bem menos por discutir a intensidade com que fará oposição contra Dilma e bem mais pela redução do papel dos tucanato paulista nas disputas nacionais. De TODO o PSDB paulista. A coisa é simples assim: após perder 3 eleições nacionais, o PSDB-SP devia trabalhar em função da construção da canditatura Aécio, visando chegar ao planalto em 4 ou 8 anos. O PT levou 13 para chegar lá com Lula…

Fernando Henrique precisava ser mais prático e desencanar de defender seu governo ou querer ser figura de proa da oposição. José Serra deveria desistir da presidência e “jogar para o time” da construção partidária (sei que jamais acontecerá) e mesmo Alckmin deveria de cara se colocar ou como candidato à vice de Aécio caso seja a melhor opção, ou trabalhar sua releição.

Aécio é o candidato forte do consórcio PSDB-DEM-PPS.  É a chance deles. O resto são xurumelas imaginárias: aventuras de grupos (Alckmin) ou, nessa altura do campeonato, distúrbio maníaco-obssesssivo mesmo (Serra).

Se a oposição fosse capaz de largar as disputas internas em nome de uma construção partidária e arco de alianças, refazendo ideário, reforçando sua construção nacional, estatutos e a qualidade dos governos do partido, ficaria em boa posição para colher esse eventual colapso petista que eles prevêm que vai acontecer todo o ano desde 2002.

O “legal” de escrever isso é saber que o PSDB é absolutamente incapaz de seguir um roteiro desses. Porque debaixo dessa coisa moderna que eles acham que tem, é um partido marcado pelos mesmos cordialismos e caciquismos da política brasileira, com um estatuto débil, cultura interna nula e incapaz de se relacionar com a sociedade civil. O desprezo deles com as classes trabalhadoras e suas organizações está demonstrado no uso do termo “pelego” no texto de FHC para as organizações sindicais. Sindicatos de que o PSDB tem nojo , quando, em geral, são a base dos partidos sociais-democratas de verdade (no caso brasileiro, o PT, não o PSDB)

E ainda tem a infinita capacidade e energia do Serra e sua gangue de sobrepor sua agenda pessoal à da oposição, mesmo quando isso já não faz nenhum sentido…

Hoje o governo e o futuro domínio político imediato é do PT, que teria que perder para si mesmo para não seguir governando pelos próximos 8 anos. E o futuro alternativo é de alguém que vai voar abaixo do radar do dia-a-dia futriqueiro do jornalismo político: Marina Silva. Que tem um discurso e está construindo uma base (se tem um programa e quanto esse programa é consistente é outra coisa, mas ela definitivamente tem um discurso e está construindo uma base).

Já os tucanos…

Se o PSDB quiser passar mais quatro anos tentando reabilitar a popularidade do governo FHC, o PT vai adorar. FHC pode disputar o passado, seu papel nos livros de história, quanto quiser…Difícil é ele quere ter a ambição de ser protagonista da construção de qualquer futuro.

Tempo de muda, por Fernando Henrique Cardoso*

Novo ano, nova presidente, novo Congresso atuando no Brasil de sempre, com seus êxitos, suas lacunas e suas aspirações. Tempo de muda, palavra que no dicionário se refere à troca de animais cansados por outros mais bem dispostos, ou de plantas que dos vasos em viveiro vão florescer em terra firme. A presidente tem um estilo diferente do antecessor, não necessariamente porque tenha o propósito de contrastar, mas porque seu jeito é outro. Mais discreta, com menos loquacidade retórica. Mais afeita aos números, parece ter percebido, mesmo sem proclamar, que recebeu uma herança braba de seu patrono e de si mesma. Nem bem assume e seus porta-vozes econômicos já têm que apelar às mágicas antigas (quanto foi mal falado o doutor Delfim, que nadava de braçada nos arabescos contábeis para esconder o que todos sabiam!) porque a situação fiscal se agravou. Até os mercados, que só descobrem estas coisas quando está tudo por um fio, perceberam. Mesmo os velhos bobos ortodoxos do FMI, no linguajar descontraído do ministro da Fazenda, viram que algo anda mal.

Seja no reconhecimento maldisfarçado da necessidade de um ajuste fiscal, seja no alerta quanto ao cheiro de fumaça na compra a toque de caixa dos jatos franceses, seja nas tiradas sobre os até pouco tempo esquecidos “direitos humanos”, há sinais de mudança. Os pelegos aliados do governo que enfiem a viola no saco, pois os déficits deverão falar mais alto do que as benesses que solidarizaram as centrais sindicais com o governo Lula.

Aos novos sinais, se contrapõem os amores antigos: Belo Monte há de vir à luz com cesariana, esquecendo as preocupações com o meio ambiente e com o cumprimento dos requisitos legais; as alianças com os partidos da “governabilidade” continuarão a custar caro no Congresso e nos ministérios, sem falar no “segundo escalão”, cujas joias mais vistosas, como Furnas (está longe de ser a única), já são objeto de ameaças de rapto e retaliação. Diante de tudo isso, como fica a oposição?

Digamos que ela quer ser “elevada”, sem sujar as mãos (ou a língua) nas nódoas do cotidiano nem confundir crítica ao que está errado com oposição ao país (preocupação que os petistas nunca tiveram quando na oposição). Ainda assim, há muito a fazer para corresponder à fase de “muda”. A começar pela crítica à falta de estratégia para o país: que faremos para lidar com a China (reconhecendo seu papel e o muito de valioso que podemos aprender com ela)? Não basta jogar a culpa da baixa competitividade nas altas taxas de juro. Olhando para o futuro, teremos de escolher em que produtos poderemos competir com China, Índia, asiáticos em geral, Estados Unidos, etc. Provavelmente serão os de alta tecnologia, sem esquecer que os agrícolas e minerais também requerem tal tipo de conhecimento. Preparamo-nos para a era da inovação? Reorientamos nosso sistema escolar nesta direção? Como investir em novas e nas antigas áreas produtivas sem poupança interna? No governo anterior, os interesses do Brasil pareciam submergir nos limites do antigo “Terceiro Mundo”, guiados pela retórica do Sul-Sul, esquecidos de que a China é Norte e nós, mais ou menos. Definimos os Estados Unidos como “o outro lado” e percebemos agora que suas diferenças com a China são menores do que imaginávamos. Que faremos para evitar o isolamento e assegurar o interesse nacional sem guiar-nos por ideologias arcaicas?

Há outros objetivos estratégicos. Por exemplo, no caso da energia: aproveitaremos de fato as vantagens do etanol, criaremos uma indústria alcoolquímica, usaremos a energia eólica mais intensamente? Ou, noutro plano, por que tanta pressa para capitalizar a Petrobras e endividar o Tesouro com o pré-sal em momento de agrura fiscal? As jazidas do pré-sal são importantes, mas deveríamos ter uma estratégia mais clara sobre como e quando aproveitá-las. O regime de partilha é mesmo mais vantajoso? Nada disso está definido com clareza.

O governo anterior sonegava à população o debate sobre seu futuro. O caminho a ser seguido era definido em surdina nos gabinetes governamentais e nas grandes empresas. Depois se servia ao país o prato feito na marcha batida dos projetos-impacto tipo trem-bala, PACs diversos, usinas hidrelétricas de custo indefinido e serventia pouco demonstrada. Como nos governos autoritários do passado. Está na hora de a oposição berrar e pedir a democratização das decisões, submetendo-as ao debate público.

Não basta isso, entretanto, para a oposição atuar de modo efetivo. Há que mexer no desagradável. Não dá para calar diante da Caixa Econômica ter se associado a um banco já falido que agora é salvo sem transparência pelos mecanismos do Proer e assemelhados. E não foi só lá que o dinheiro do contribuinte escapou pelos ralos para subsidiar grandes empresas nacionais e estrangeiras, via BNDES. Não será tempo de esquadrinhar a fundo a compra dos aviões? E o montante da dívida interna, que ultrapassa um trilhão e seiscentos bilhões de reais, não empana o feito da redução da dívida externa? E dá para esquecer dos cartões corporativos usados pelo Alvorada que foram tornados “de interesse da segurança nacional” até o final do governo Lula para esconder o montante dos gastos? Não cobraremos agora a transparência? E o ritmo lento das obras de infraestrutura, prejudicadas pelo preconceito ideológico contra a associação do público com o privado, contra a privatização necessária em casos específicos, passará como se fosse contingência natural? Ou as responsabilidades pelos atrasos nas obras viárias, de aeroportos e de usinas serão cobradas? Por que não começar com as da Copa, libertas de licitação e mesmo assim dormindo em berço esplêndido?

Há, sim, muita coisa para dizer nesta hora de “muda”. Ou a oposição fala e fala forte, sem se perder em questiúnculas internas, ou tudo continuará na toada de tomar a propaganda por realização. Mesmo porque, por mais que haja nuances, o governo é um só Lula-Dilma, governo do PT ao qual se subordinam ávidos aliados.

*Ex-presidente da República

4 Comentários

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4 Respostas para “O artigo de FHC é bom, o problema é o autor

  1. Ricardo

    É verdade tudo isso – quer dizer, tenho os meus reparos mas não quanto ao cerne do teu texto – mas em (alguns) outros países os sindicatos estão mais empenhados em realmente gerar garantias e direitos aos trabalhadores do que em contabilizar em conta própria. Bobagem dizer que figuras como Paulinho da Força e Luis Marinho têm um grande viés social-democrata. Têm nada. Têm é uma conta bancária. Existe, portanto, um elemento peleguista aí sim, infelizmente.

  2. Ricardo

    Aliás, existe um elemento peleguista até porque (algumas) das leis que regem o modelo sindical brasileiro são do Estado getulista, que – a historiografia é consensual sobre isso – foi montado pra ser pelego (Angela de Castro Gomes).

    Se nem um cara como o FHC, que repetia ad infinitum quando no poder estar desmontando o Estado varguista, fez algo pra que fosse alterado esse status quo, como podemos esperar que o PT mude isso? Não mudará, mesmo porque tem excelente relação com os sindicatos, especialmente após o apoio recebido no pós-mensalão.

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