10 temas para sonhar/construir uma São Paulo melhor

No aniversário de uma cidade onde a vida é tão complicada (no bom e no mau sentido) como São Paulo, talvez a melhor homenagem seja sonhar com melhorias para seus problemas crônicos, para que possamos nos orgulhar com o que há para se orgulhar daqui sem ficar colocando “poréns”.

Lembrei algumas iniciativas, de curto a mais longo prazo, que podem fazer a cidade melhorar muito.

Texto totalmente aberto a críticas, sugestões e correções nos comentários.

Conselho de representantes nas subprefeituras e conselho social

O governo Marta errou feio ao não implantar, por cálculos políticos mesquinhos, os conselhos de representantes eleitos nas subprefeituras. Em uma cidade com o tamanho de São Paulo, não tem como aproximar o poder público dos cidadãos sem descentralizar. Isso criaria maior fiscalização local das atividades dos subprefeitos, cargos historicamente (mal) usados para acomodar aliados políticos, e mal utilizados, com uma visão pequena de ser quase que apenas de zeladoria…

Além disso a prefeitura se beneficiaria de um “conselhão” da cidade, que reunisse entidades da sociedade civil para discutir suas questões, nos moldes do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do governo federal. Isso obrigaria a prefeitura a pensar, planejar e dialogar com a sociedade e daria espaços para a sociedade cobrar, acompanhar e engajar-se por São Paulo.

Alternativas/restrições para os automóveis

Não é que “São Paulo vai parar”. Já parou. Para todo o dia. Você perde um tempão e qualidade de vida com isso! E a solução tem que combinar atitudes individuais com muita presença do poder público.

As pessoas precisam analisar se no seu dia-a-dia não sai mais barato e/ou mais rápido usar o transporte público, a caminhada, bicicleta, táxi ou carona solidária. Em regiões como a Paulista e a Faria Lima o estacionamento é tão caro, que chega a ser mais barato, previsível em tempo gasto e menos estressante usar outras alternativas. Ao invés disso, insistem em usar carro toda hora, sem nem calcular se é a melhor opção.

A prefeitura tem que melhorar a rede de ônibus (me impressiona como é medíocre a relação das empresas privadas e o poder público, que não percebem o potencial, até de negócio, de uma rede de qualidade de transporte público na cidade), criar circuitos de ciclovias, também dentro dos bairros (Kassab destinou só R$ 1 milhão para ciclovias, viu Soninha?). A classe média precisa parar de ser contra corredores de ônibus, atitude escrotíssima, e passar a demandar opções de transporte público. Serra, quando eleito, enterrou um plano que tinha financiamento do BNDES para fazer 300 quilômetros de corredores de ônibus nas principais vias da cidade.

Ao invés disso, São Paulo embarca em obras viárias bilionárias e ridículas, como a ampliação de faixas da marginal, estimuladas e as vezes mesmo projetadas descaradamente por empreiteiras. São bilhões e bilhões, desde de 1990, jogados fora em obras desnecessárias, superfaturadas e voltadas para enxugar gelo e alimentar caixa 2 de campanhas eleitorais.

Governo do Estado precisa conseguir acelerar o ritmo de implantação do Metrô (se bem que esse só fica cada dia mais lento). Sem a Linha Amarela completa, até o centro da cidade, o sistema está cada dia mais perto do colapso. Seria fundamental acelerar o cronograma das novas linhas, não adiá-lo, além de planejar a construção de mais garagens e integrações do metrô com a rede de ônibus/ciclovias e trens. O programa Expansão São Paulo, do Serra, que prometia muito, foi tratado como peça de ficção/propaganda assim que Alckmin assumiu.

RECICLAGEM

Em 2000 Porto Alegre, entre outras cidades, já tinha uma coleta de lixo reciclável que humilhava São Paulo. Até hoje a reciclagem na cidade está por conta do “terceiro setor”, de cooperativas, bem intecionadas, claro, mas continua sendo uma reciclagem voluntária e de pequena escala, enquanto as empresas privadas que tem contratos com a prefeitura lucram com um serviço medíocre e o poder público não cobra efetivamente a implantação de um sistema oficial e organizado de coleta de lixo reciclável.

Tanto na questão dos contratos com serviço de ônibus, quanto dos serviços de lixo, o tamanho da leniência e pouca exigência do poder público com as concessionárias traz a minha cabeça lembranças de uma palavra que começa com c e termina com ão.

CEUs/Escolas como centros da comunidade

Os CEUs, os originais, da Marta, e até as sub-cópias do Serra, mas não as sub-sub-cópias do Kassab (que mantém o nome mas não a dimensão do projeto original) criaram circuitos de diálogos culturais centro-periferia e locais de lazer em bairros pobres de São Paulo (Mano Brown diz que quando viu o CEU, era isso que ele cantava/queria na música “Fim de semana no Parque”).

As escolas, parques e demais equipamentos públicos devem ser construídos, não só na periferia, mas especialmente nela, com a dimensão de serem centros que reúnam e ajudem as comunidades a se organizarem para terem acesso ao lazer e cultura, mas também para se organizarem, discutirem e resolverem seus problemas.

Nesse ponto, é importante notar que o Alckmin vai retomar o programa Escola da Família na rede estadual, bizarramente encerrado por Serra quando assumiu o governo do Estado de São Paulo.

Retomar o centro como coração da cidade

A cidade precisa retomar os imóveis vazios devedores de IPTU (lembrança de @lucianomaximo), negociar com eles para ocupá-los por uma política de moradia social no centro (novamente, interrompida com a chegada de José Serra ao poder). E além disso, planejar uma política de múltiplos usos – cultural, empresarial, habitacional, turístico – para o centro da cidade. As principais iniciativas hoje nesse sentido são privadas, pontuais e não muito integradas, sejam os clubes noturnos que avançam no Baixo Augusta-Centro, sejam as requalificações de edifício pela iniciativa privada, motivadas pela escassez/escalada de custo de novos terrenos. A principal iniciativa da prefeitura, o projeto para a Cracolândia, é mais um uso do poder público como incorporadora/demolidora para lucros privados.

Planejamento urbano com visão ambiental/freio na voracidade imobiliária

Essa não é uma questão simples, mas São Paulo precisa colocar freio e exigir contrapartidas (públicas, não a propina usual) do voraz mercado imobiliário, principalmente em grande projetos. O Center Norte, por exemplo, era uma região de várzea do Tietê que foi toda asfaltada e elevada. Fizeram piscinão para compensar isso? E o impacto do Shopping Bourbon no trânsito? Ao mesmo tempo, São Paulo precisa de um adensamento urbano em regiões que já tem infra-estrutura instalada.

Sumaré, Pacaembu, Mandaqui, Águas Espraiadas, Tietê, Aricanduva, Pinheiros, não são nomes de ruas, bairros ou avenidas. São nomes de rios, que foram poluídos,  canalizados, retificados e muitas vezes escondidos sob concreto. Em janeiro, eles se vingam do que foi feito com eles, pegando inocentes nesse fogo cruzado. A cidade precisa rever sua ocupação de espaço e como convive com a bacia hidrográfica sobre a qual foi construída. Muitas vezes isso foi resolvido nos bairros ricos com piscinões como o Pacaembu. A solução, que envolve a Sabesp, é a revisão da nossa rede de esgotos, criação de estações de tratamento e parques lineares ao redor dos rios, e estudos e planos para contornar as cheias enquanto tivemos que conviver com elas. Muito mais do que não ter obras, me espanta como é pobre nosso plano de contingências para situações como os transbordamentos do Tietê (que com a ampliação das marginais e falta de cuidado com desassoreamento, voltaram a transbordar no governo Serra).

Conviver com o ambiente em que fomos construíndo envolve rever a ocupação de encostas e a impermiabilização do solo, o que de novo, envolve além do poder público, a população (estímulo a jardins em residências e armazenamento de água da chuva por condomínios para reuso).

Combate a pobreza – fim da birra com o governo federal

São Paulo, por uma opção política dos eleitores, no que é seu direito, assumiu essa de capital da oposição ao governo federal. Mas deveria acabar com a birra em trabalhar junto com Brasília no combate a pobreza da cidade, porque são as pessoas mais frágeis que pagam essa conta. São Paulo manda mal no cadastro do Bolsa Família (além de Serra ter acabado com o programa de complementação de renda da prefeitura) e não tem programas em escala para combater a pobreza extrema. A situação social da cidade melhorou junto com o crescimento econômico do país. Pro-uni, e geração de empregos, muitos na construção civil, mudou o cenário e a perspectiva das pessoas da periferia, que não mais “sobrevivem no inferno”, mas ao invés disso ralam muito mais que nós entre trabalho e faculdade, na luta por uma vida melhor. Mas as escolas públicas (estado e prefeitura) tem que dar condições reais de seus estudantes aprenderem tanto ou mais do que nas privadas (que não são grande coisa também).

A cidade tem que aproveitar o crescimento econômico e recursos públicos para reduzir a pobreza dentro dela.

Uso de novas tecnologias para tranparência, participação e mobilização

O governo Kassab criou o sistema que permite acompanhar nome e salários de cargos da prefeitura, e houve algumas autoridades e iniciativas aqui e e ali, como a zeladoria da Avenida Paulista, mas fez pouco além disso para usar as novas tecnologias (redes sociais, geolocalização) para que a população possa apontar problemas, ou se organizar localmente para atuar no seu bairro. O twitter da prefeitura, por exemplo é um “fala que eu não te escuto”. Imagine as possibilidades de reclamação usando o googlemaps, mobilização para discussão e ação em temas públicos, e por exemplo, orçamento participativo, usando a rede!

PS: Claro que eu não sou ingênuo de achar que os governos querem ser transparentes ou terem a população participando. Esse espaço tem que ser conquistado.

Cultura/Economia criativa/identidade

Talvez o principal termo seja que a cidade precisa se valorizar. Valorizar seus espaços únicos e históricos, sejam prédios, cinemas (como o Belas Artes), restaurantes tradicionais como O Castelões, grupos de teatro (como o Oficina ou o Vertigem) e sua fortíssima cultura urbana (hip-hop, grafite, pixo etc…).

São Paulo tem uma vocação para produção de cultura e economia criativa (publicidade, audiovisual, moda, música etc…). A prefeitura precisa estimular essa vocação e seus segmentos econômicos. Ela precisa integrar um circuito interno da cidade (como o Sesc já faz na sua rede, e os CEUs em parte) centro-periferia com circuitos de circulação estadual e nacional. Hoje São  Paulo está meio deitada em berço esplêndido cultural, se isolando de iniciativas novas que surgem pelo país (como o Circuito Fora do Eixo). No fundo, está ficando para trás. Precisa pensar em eventos como a Virada, e além, para reforçar o papel da cultura na identidade, recuperação de espaços urbanos (Praça Roosevelt), turismo etc… Usar a vitalidade cultural para recuperar bairros e regiões.

Iniciativas criativas e ambiciosas

Falta criatividade, iniciativas inovadoras e ambição de resolver os problemas. A postura da maioria da cidade, pessoas, prefeitura e muitas vezes do PT também, é pequena, mesquinha. Tirando o Cidade Limpa e a Virada Cultural do primeiro mandato do Kassab, ele não fez tantas inovações (CEU, Bilhete Único, uniforme escolar) e com tanto impacto quanto a Marta.

Um símbolo da jequeci e pensamento estreito desse governo é a falta de uma secretaria de relações internacionais. São Paulo é uma megalópole com população maior que a maioria dos países do mundo. Tem que se relacionar com outras mega-cidades, para programas de intercâmbio, parcerias culturais, obter recursos, atrair eventos.

A cidade (poder público/sociedade civil organizada/seus moradores) tem que ter uma (ou mais) visão de futuro e lutar por ela. Talvez o mais desesperador nesse aniversário de São Paulo seja isso. É que em meio a tantos problemas cotidianos, a cidade parece não ter um plano ou rumo. Ao menos um digno de reconhecimento.

O brasão diz que a cidade não é conduzida, conduz. Mas com uma mentalidade pública tacanha (não só do governo, mas de grande parte da população, como daqueles que acham que resolvem o trânsito buzinando) São Paulo sequer sabe para onde ir, e vai sendo conduzida no improviso, em meio aos ventos, chuvas, carros e caos do peso do seu próprio gigantismo…

Hora de rever esse orgulho dos seus defeitos, deixar de achar que eles são insolúveis ou comprar soluções falsas e começar a andar em direção as soluções que levarão muito tempo para se concretizarem.

2 Comentários

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2 Respostas para “10 temas para sonhar/construir uma São Paulo melhor

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  2. Rogéria Goy Villar

    Adorei sua abordagem. Todos foram elencados com sapiência, contudo, o item transporte público em SÃO PAULO está um caos mesmo. Já viu a largura dos ônibus? E as roletas? E os acessos do Metrô? A quantidade de linhas,todos são ligados aos acessos culturais da nossa cidade?
    Poderia falar também do LIXO que é um problemão mesmo e os famosos contêiners, nossa muita coisa…vai ficar muito longo.
    Parabéns, adoro ler artigos inteligentes!

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