Recado para a velha imprensa: o inferno não são os outros

Uma vez perguntei para um amigo psicólogo qual era o problema mais comum que os clientes traziam para ele. A resposta foi rápida: “eles reclamam dos outros”. E explicou-me que a maior parte do seu trabalho era fazer a pessoa entender que a origem e a solução para muitos dos seus problemas estava dentro dela mesmo.

Nesse período pós-eleitoral, nesse momento de derrota (não neguem), crise e muita DR, meu conselho para a chamada “grande imprensa” ou “imprensa tradicional”, ou qualquer outro apelido para o “combo” Abril/Veja+Folha de S.Paulo+Estado de S. Paulo+ Organizações Globo (TV, jornal e CBN, especialmente) é : olhem para dentro de vocês mesmos.

O problema de vocês não é o “comunismo”, “chavismo” ou outro ismo do PT. Nem os militantes pela democratização da comunicação ou as “ameaças” de conselhos reguladores. Nem são os veículos que adotaram linhas editorias e relações diferentes com o governo. O problema de vocês não é de esquerda. É a evolução da tecnologia da informação e do capitalismo brasileiro. Não está fora, em nós que os criticamos no twitter, ou em outros veículos cuja visão tem sido diferente do “núcleo duro e tradicional” (nomeando: Ig, Terra, Record, Bandeirantes e Isto é).  Está dentro de vocês.

O que me motivou a escrever esse texto foram duas conversas, uma por e-mail, outra ao vivo, com jornalistas do grupo Abril. Ambos com discurso extremamente defensivos e “ofendidos”. E desculpe, ingênuos, com muitas das teses pré-fabricadas que a Abril vende por aí. Deviam seguir aquele clássico conselho do mundo do tráfico de drogas: pode até vender, mas não use a porcaria que você vende…

Ah, e ver ontem o Augusto Nunes,  elogiando suas próprias perguntas, e pensar que ele é um “ícone intelectual”(sic) de um certo tipo de jornalismo.

O conselho que dou é fútil e pretencioso, porque seus dirigentes, seus “generais”, já sabem do que estou falando (embora guardei para o final uma surpresinha). Mas a maioria da “população civil” (leitores) e seus “soldados de infantaria”, ou mesmo alguns “tenentes”, acreditam piamente na história que vocês contam de que a ameaça à liberdade de imprensa, ou melhor dizendo, à liberdade dessas empresas fazerem o que quiserem com a imprensa, vem do governo ou do PT. Então, embora eu seja “ninguém” (o que pode ser motivo de orgulho, em uma profissão onde o Augusto Nunes é “alguém”), porque não apontar o que realmente ameaça vocês, do que realmente tem medo?

Vocês estão bem das pernas financeiramente, diferente do tempo do fim do amado governo FHC, por causa da boa situação econômica deixada pelo odiado governo Lula. Essas ameaças são menos ao negócio de vocês (isso é mais fácil de reinventar) do que ao poder político  que estão acostumados a ter. Vocês sabem que tem 3 grandes desafios:

1) As novas tecnologias, redes sociais e a convergência digital, que tornam o conteúdo cada vez mais gratuito e fácil de ser produzido/disseminado, com  seu acesso se dando por plataformas técnicas que vocês não controlam, são de empresas estrangeiras maiores que vocês (hoje são basicamente Google, Facebook, Twitter e Apple)

2) A dificuldade, principalmente da mídia impressa (a TV Globo já resolveu isso faz tempo), de se comunicar com a nova classe C, que já entra no mercado de comunicação direto no mundo digital (acesso à internet é prioridade para eles em relação a assinatura de jornais e revistas)

3) O verdadeiro “problema”: as empresas de telecomunicação que são 10, 20 vezes maiores que vocês. Essas empresas (Telmex, Telefonica, Oi etc…) faturam tanto que podem criar, com a verba do seu marketing, imensas estruturas de produção de conteúdo que não precisam gerar lucro por si só (são braços de marketing ou posicionamento estratégico para ganhos futuros).

Qual a questão chave? O momento em que as empresas de mídia vivem hoje é muito semelhante ao que a indústria fonográfica viveu cerca de 10 anos atrás. E, de novo, ao invés de entender o seu negócio (que vendem ou distribuem informação para o público e audiência e credibilidade para os anunciantes) e abraçar o novo, resolveram brigar com o futuro (vejam a coluna da Ombudsman da Folha no último domingo).  Uma luta inglória…E para qual as empresas tradicionais de mídia estão mal posicionadas. Por que?

Desde a década de 1990, tem acontecido uma, para usar um termo suave, “depuração ideológica” nas redações. Não acho que no primeiro momento perderam competência, mas perderam diversidade. E passaram a premiar a obediência aos dogmas ideológicos nas promoções, ao invés, e de novo essa é a palavra-chave, da diversidade de reflexões e linhas de pensamento. Nas chefias das empresas de jornalismo, debate e ideias novas são maus vistos (acha que exagero? leia esses texto, e esse também, do Paulo Nogueira, exatamente sobre esse tema, e com relatos de dentro das Globo).

Voltando para as eleições, o resultado disso, muito claro no segundo turno: uma gama imensa de ex-jornalistas desses veículos, ou jovens e talentosos comunicadores que nunca colocaram os pés neles (mas trabalham com mídia também), criticando-os, movimentando as redes, ganhando seus espaços em um meio (a internet) que permite a crítica, o ruído (os comentários que criticam a matéria estando debaixo dela) e que privilegia, pela sua natureza, a diversidade. E que hoje atinge mais gente do que a imprensa escrita e praticamente todo o público da imprensa escrita.

A mídia tradicional parou de privilegiar a seleção do melhor da mão-de-obra (propositadamente uso um termo em geral relacionado ao proletariado), para selecionar e promover os mais alinhados ideologicamente. Obviamente, esta estratégia um dia daria errado por si só, ainda mais em um tempo onde quem tem talento para se comunicar, mesmo não sendo jornalista, tem os meios para isso. E ainda mais quando a imprensa insiste em uma visão que não é compartilhada por amplos setores da população (sem embasar bem essa posição e sem dar contrapontos suficientes).

Entre os jornalistas, poderia citar casos e mais casos de gente que foi demitida, ou saiu por vontade própria, desses veículos, por sentir que não poderia fazer bom jornalismo neles. Muitos, inclusive em áreas que não teriam, diretamente, nada a ver com política, porque esse movimento contaminou essas empresas como um todo (e também porque esporte, cultura, economia etc…tem sempre, muito de visão política do mundo).

Não quero dizer o contrário, que todos que ficaram são incompetentes. Não é isso, tem muita gente boa, principalmente nos “escalões inferiores”.  Além disso, uma boa reportagem, bem fundamentada, ou uma opinião inteligente, sustenta-se independente da origem, pode vir até da Veja (quando a revista fez jornalismo direito, derrubou o José Genoíno da presidência do PT em menos de 24 horas). Mas existe mesmo uma “crise de mérito”, ou de inteligência, principalmente nas chefias e colunistas da grande imprensa. É difícil entender a qualificação do Carlos Sardenberg para falar de economia, o que o Merval Pereira acrescenta além de seus delírios  nos seus comentários de política, ou porque Augusto Nunes (sim, estou fascinado por ele) e Marília Gabriela, que são incapazes de entender e apontar contradições no que o Zé Dirceu diz, são, respectivamente, entrevistador e apresentadora fixa do Roda Viva (ainda mais quando esse era, de longe, o principal motivo da entrevista feita pela TV Cultura, controlada pelo PSDB).

Mesmo as pessoas que tem qualificação, em geral, tem pouca diversidade ideológica. Pior, não aceitam a diversidade ideológica das fontes.  O que mina a credibilidade e leva inclusive  as pessoas a generalizar nas críticas e qualificações (claro que não é só por isso) das fontes que falam com propriedade, concordemos ou não com a opinião da pessoa.

Nessa eleição vimos esses veículos descerem a ladeira, baixarem mais um pouquinho na “boquinha da garrafa”. Imagino que empresa não pune um funcionário responsável por gerar uma crise de imagem que colocou a empresa apanhando uma semana no twitter? Mas não preciso imaginar, porque é o Estado de S. Paulo, que fez isso para eliminar um artigo (porque fez sucesso e deu diversidade de opinião ao jornal) da Maria Rita Kehl. Não deveria ter sido quem decidiu sua demissão o demitido por justa causa? Ou a Folha de S.Paulo, por causa da manchete errada sobre “erros” de Dilma que teriam causado prejuízos aos consumidores de energia elétrica. Ou a TV Globo, nos sete minutos de documentário épico dedicados ao caso “evento bolinha X evento fita adesiva”, onde a forma conseguiu ser muito pior do que o conteúdo.

A Veja é a líder e vanguarda desse caminho rumo ao atraso. Hoje, o “norte” intelectual da revista vem de Reinaldo Azevedo e Augusto Nunes e a técnica é o erro, o grotesco, o absurdo. Vale tudo! Uma semana antes da eleição a revista publicou mais uma “gravação sem aúdio” que deve custar um pesado processo.  Além de não ter base em nada, eu, que não lia a Veja faz tempo, me espantei com a baixa qualidade do texto, que não fluia, ia e vinha, era rococó, vamos dizer assim, tinha “azededado”. Uma semana depois, li de novo na revista, alguns relatos de um mundo paralelo, onde o Lula não larga a presidência e o Fernando Henrique Cardoso é um homem “de bem com a vida” (ah, Mario Sabino…) que teria resistido a tentação de permanecer no poder (emenda da reeleição, oi? Não aconteceu?).

Vai chegar o dia, e não deve estar longe, que as empresas vão começar a calcular se vale a pena se associar com um veículo com uma imagem tão negativa. Enquanto eles não caem em si – e acho difícil que um dia isso aconteça – vão vendendo para seus públicos e para eles próprios, uma grande mentira: de que o “governo do PT” tem medo deles e quer controlá-los por isso.

E aí vai o que talvez seja a “grande surpresinha” para os meus conhecidos da Abril que motivaram esse texto: a imprensa não mete medo nenhum no governo federal ou no PT, justamente porque esse misto de incompetência, de superficialidade sobre praticamente todos os assuntos públicos, e partidarismo exarcerbado e mal disfarçado (que não se assume, mas não se contém, vide Waack¹ na Globonews após o resultado da eleição) é muito conveniente para o Governo/PT, que hoje sabe calcular a medida quase exata de como lidar com isso. Vocês são os “malandros (sic) úteis” dessa história². Poderiam prestar um serviço melhor para o país, para suas empresas e para vocês mesmo, ter mais força e autoridade, não martelando teses simplórias sem fundamento, mas investigando a fundo todos os partidos e fazendo denúncias fundamentadas, ao invés de repercutir bafafás, e discutindo com propriedade as questões públicas que o país quer debater, mas que são “chatas” e “complicadas” . E que, acima de tudo, tocam em muitos interesses que controlam vocês muito mais do que qualquer conselho social seria capaz.

1: A cena e falas esdrúxula do William Waack na Globonews no domingo, apagaram o fato de que foi ele que fez, com Cristina Pelajo, talvez a mais dura entrevista com o Serra durante a campanha, no Jornal da Globo, onde foi bastante profissional. Discordo de quase tudo que o Waack pensa, mas não incluiria ele no “bonde da vergonha alheia”.

2: Eu poderia resumir o caminho que a Veja e outros veículos deveriam seguir na sua cruzada com uma citação de Jorge Ben Jor: “Se malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só por malandragem”. E completaria “Ai, ai, caramba!”

2 Comentários

Arquivado em Uncategorized

2 Respostas para “Recado para a velha imprensa: o inferno não são os outros

  1. Bruno

    Gostei muito de seus textos mas são desanimadores os erros de português encontrados nos mesmos.

    • José Chrispiniano

      Obrigado pelo comentário. Nesse texto eu dei uma outra leitura, mas acho que é o autor mesmo que tem que voltar para o estaleiro. Vou tentar escrever menos, mas “mais correto”. abs

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s