Há vida na luz

“Venha para a luz, venha para a luz”.
Eu não tenho muito que falar do grupo de teatro Ivo 60. Estão fazendo 10 anos, são amigos, são irmãos, é a minha irmã🙂 . E todas as vezes que eu os vi, eu vi coerência, arte, criatividade, ética, riso, crítica, autocrítica e tristeza tudo misturado assim na gente. Eu vi uma linguagem sofisticada e ao mesmo tempo o esforço de uma comunicação popular. Eu vi os “populares” se emocionarem, as crianças interferirem e tudo fluir e funcionar. Vi o tempo passar rápido e também profundo.
Tem um monte de coisa que eu entendo pouco, mas que eu sou chato e invocado de discutir (cinema, política, música, história…). Teatro não é uma delas, então essa é opinião de fã mesmo. Sinceríssima.
Sombras da Luz, nova peça do grupo, trata da vida que há, mas dizem que não há, no centro de São Paulo, mais precisamente na região do Parque da Luz. Histórias de solidão, rejeição, busca da felicidade e reinvenção onde São Paulo, uma cidade pesada, é ainda mais dura nas quedas. A história daqueles que dizem francamente “Eu sou um fracassado”. Ou daqueles que ainda assim, riem, lembram, cantam…
A peça foi construída em cima de entrevistas com esse pessoal que não aparece na Caras. Bem, nem em nenhuma outra revista. As frases são desconcertantes e o grupo não fica na marolinha. As verdades são muitas. E lá está a profundidade da cultura e da música popular no que tem de mais simples e dolorida, sempre ali, mesmo no riso.
Aí depois da peça um freqüentador do parque diz que gostou muito, que eles são engraçados, se bem que em um momento ele quase chorou, mas segurou as lágrimas…
A emoção ficou assim suspensa.
Como todo aquele mundo está. A Luz rebatizada de cracolândia é uma das “bola da vez”, bolas das vezes, da mesma história paulistana de sempre. Da música Saudosa Maloca, de Adoniram Barbosa; do livro Parceiros da Exclusão da Marina Fix; da Favela Real Parque entre estabelecimentos AAA; da cidade que sempre precisa empurrar para fora a vida, no que ela tem de tudo, no que ela tem o que este sistema tanto produz e chama de “indesejado”. Indivíduos “descartáveis” (ou  mais descartáveis do que a média) tirados de qualquer jeito para abrir caminho para “revitalizações” do mundo dos negócios sem vida ou da vida “negociada”…
Enfrente isso com vida de verdade. É um programão visitar a região. Pegar um sábado ou domingo e ir na Pinacoteca, ou no Museu da Língua Portuguesa, ou nos supermercados coreanos, ou só, só mesmo para ver, às 16 horas (quando a chuva permite), a peça do Ivo 60 no Parque da Luz. O Parque é lindo, e uma boa notícia é que ele está sendo muito bem cuidado, está limpinho e com o jardim tinindo. Para os seus freqüentadores. Os imigrantes bolivianos, os nordestinos, as prostitutas de terceira idade, os velhinhos improvisando sons inacreditáveis na rua, as crianças, a liberdade, o espaço público, o encontro. O Ivo 60 e seu teatro cheio de vida.
Ouça aquela vozinha que diz: “Venha para a Luz, venha para a Luz”.

sombras da luz

8 Comentários

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8 Respostas para “Há vida na luz

  1. Deve ser uma experiência e tanto. Pena que eu esteja a anos-luz, numa cidadezinha onde chegam apenas os vestígios de uma emanação cultural. Abraços!!!

  2. demais. sempre que os vi me diverti a beça

  3. Ana Flávia

    E você me emocionando em troca com tanta sensibilidade e inteligência traduzida em palavras…Obrigada!

  4. Mariana Leite

    Sou sua fã! Vc deixou a peça mais bonita pra mim… agora dá até mais gosto de continuar fazendo e acreditando. Bjos

  5. Felipão

    Valeu Zé Kley!

  6. Silvia Leblon

    Obrigada pelo olhar sensível e pelas palavras bonitas.

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