São Paulo parece moderna…

Instigado por alguns cidadãos excelentes resolvi escrever sobre o Festival de Política da Trip, que aconteceu no último domingo, dia 18 de outubro. Parto de uma pergunta via twitter

@aloisiomilani: Pergunta boa: se o negócio é para os jovens, qual o conceito de política que eles (Gabeira e Luiz Felipe D’Ávila) passaram?

Não vi o festival inteiro. Só vi o debate “principal” com o deputado pelo PaVê Fernando Gabeira, o publisher (odeio esta palavra) Luiz Felipe D´Ávila, fundador das revistas República e Bravo e que trabalhou na campanha do Fernando Henrique Cardoso, e Ronaldo Lemos, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas especializado, para reduzir bastante o que ele faz, em propriedade intelectual e cultura livre. E para os meus ouvidos, e apesar do Ronaldo e da boa mediação o debate foi de doer pela sua substância e digamos assim, “contexto”…Mas o que pode ter rolado de legal ou não em outros horários, não sei. Parece que a Verônica Kroll foi provocadora. Que deve ser o melhor possível a se fazer nessas situações. Jogar umas provocações e deixar todo mundo refletindo, fora do seu lugarzinho confortável de falso bem intencionado, ou pretensa ingenuidade.

Enfim, todo mundo tem direito a organizar e falar o que quiser, toda movimentação é legal em princípio, viva a democracia, e é isso aí galera, gente jovem e bonita falando de política, com área vip e hostess…

Do debate que vi, e respondendo a sua pergunta, foi um conceito de política bem raso (o que é meio normal, já que o evento era mesmo “pop/juvenil”) e institucional.

Foi quase que só focado na questão do voto (deve ter tido bastante ONG em outros momentos). E tratou a Internet como um “bezerro de ouro” da renovação da política. Lógico que a internet é importante politicamente. Fiz meu trabalho de conclusão de curso sobre isso, e seria o único tema pelo qual faria mestrado. Mas ouvir o Gabeira dizer que quase se elegeu governador do Rio graças a Internet (quando teve o apoio massivo dos veículos das Organizações Globo) é de doer.

O Gabeira tem muita história. Mas falar que existe um pequeno grupo de cidadãos conscientes graças a imprensa (ele está falando de Veja? Folha? Globo?) e uma massa sem consciência (não sei as palavras, mas era nitidamente a ideia) que “trocaria” votos por favores político é beirar a desqualificação da democracia…uma espécie de “brasileiro não sabe votar”. Sinceramente? Acho que são muito mais conscientes politicamente os 80% que aprovam o governo Lula porque viram sua vida e a vida das pessoas ao redor melhorar do que aqueles que odeiam o governo baseado no que leram na Veja…

O Ronaldo Lemos foi mais OK, mas bem coxinha, sem provocar, sabe? Ele fez cutucadas sutis na área de cultura, quando mostrou que mesmo com a internet longe de atingir toda a população, artistas que as elites desconhecem tem muito mais “view” que gente “estabelecida”, do esquema tradicional como Maria Rita. Ou seja, que o gosto A e B dos grandes centros é muito pequeno diante desse “país” que ganha visibilidade online com a emergência das classes C e D. Essa é uma questão fundamental, que desafia a esquerda e direita tradicional do país e sua própria compreensão. Mas ele não extrapolou isso para a política.

Já o Luiz Felipe D´Ávila é um achado! Figuraça! Bem apessoado, rico de berço, cientista político raso como um pires, alinhadinho, bem sucedido e aparentemente bem intencionado, Fernando Henrique até o osso é o estereótipo do tucano, que parece acreditar mesmo naquele besteirol todo sabe…Teve passagens antológicas. Por exemplo, ele disse que tem dois tipos de políticos: os que fortalecem as instituições e os que querem usá-las para se fortalecer. Nitidamente, e pelo campo que atua, ele deve achar que Fernando Henrique Cardoso faz parte do primeiro grupo e Lula do segundo. O fato do FHC ter feito a barbaridade de passar uma lei em benefício próprio, enquanto estava no poder e usando corrupção como meio, dando o direito de se reeleger, enquanto o Lula sempre barrou as iniciativas de outros para um terceiro mandato deve escapar a ele completamente nessa sua reflexão…

Mas o melhor veio na resposta de uma excelente pergunta do Fernando Luna, que mediava o debate. Ele questionou o que o D´Ávila, como representante da elite, achava da atuação política desse setor. Ele disse que a elite já foi mais atuante na política, citando com saudosismo a época do império, onde a participação política era vista como condição de ser cidadão. E disse que a elite foi se afastando da política, se voltando mais para curtir “o próprio sucesso” e que por isso hoje temos “essa elite política aí”. E que a elite devia voltar mais a participar da política, não só a elite econômica como “a cultural, a intelectual etc…”. Foi aplaudido por essa fala. Eu não entendo como alguém que estudou ciências políticas pode citar o Brasil do Império, uma sociedade escravocrata, com algum tipo de saudosismo que não seja pela chance de bater um papo com o Machado de Assis…Para minha visão de país, e para onde eu quero que ele vá, uma fala dessa é um ultraje. Por que quem eram os “não-cidadão” na época? O lugar da elite era o poder, era onde deviam estar, então onde estavam os outros? E o lugar dos negros então? Não digo que ele é racista. Ele simplesmente não consegue fazer esta reflexão. E idealiza o império como tendo essa qualidade. É uma leitura histórica de merda que se transforma em uma reflexão de merda, e uma fala de bosta. Ele não consegue perceber o próprio conservadorismo e opressão, em uma bela homenagem ao conceito de “consciência de classe”. Fala sério…

Ficou o tempo todo citando os Estados Unidos, “Marquinhos style”. Claro que a democracia norte-americana tem coisas legais, tem muito a se aprender com ela. Mas ficar idealizando, exemplo de “primeiro mundo”…parece que a gente não viu eles serem governados por 8 anos pelo herdeiro inepto de uma oligarquia política texana conservadora, trapaceira e mentirosa que deve nada aos Sarney (o Grande Satã do debate, o que não é injusto,mas esclarece pouco). Ou que a gente está saindo de uma crise enquanto eles estão se afundando nela. Ou que eles são incapazes de estabelecer o princípio de saúde universal na sociedade deles.

É legal ver alguém como ele falar, a gente não tem muita chance disso, até para não perder tempo demais na vida. Como o cara lê exemplos de outros países, como ele lê a história do país….A coisa que ele mais defendeu como solução foi voto distrital. Claro, voto distrital (sem o voto misto) recria a lógica das eleições majoritárias no legislativo, derruba o voto ideológico e o das minorias ou setores sindicais e reforça a lógica do poder econômico em disputas de currais. Mas enfim…Aos finalmente.

O debate que eu vi não foi nada inovador (não que esperasse que fosse). Ao contrário, focado bastante em política institucional-eleitoral, o tempo inteiro me pareceu permeado do típico rancor anti-Lula que assola a parte “nobre” de São Paulo e o entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas, com o qual, sorry anti-periferia, não consigo compartilhar. Até porque o rancor é justamente porque Lula mandou bem exatamente naquilo que lhes interessa (crescimento econômico, controle dos movimentos sociais, imagem do Brasil no exterior etc…) Deve ser isso que mais “irrita”. Ele ganhou no jogo da direita, nos critérios que eles inventaram.

Falou-se muito em “indignação”, em “corrupção”, em “moralizar”. Parecia que fora do Studio SP reinava o caos e as manifestações de rua contra este governo “odiado”. Teve muita ironia, indireta e diminuição do Lula, na linha “pegou tudo pronto pelo FHC” (parece que o país em 2002 estava uma maravilha…).

Então a análise do “lá fora” era uma coleção de chavões. Não parecia que estamos em um dos países que está enfrentando melhor a crise econômica mundial, ou que tem um dos presidentes mais populares, talvez o mais popular, do mundo, tudo isso com liberdade de imprensa, oposição, associação etc…

Quem eram as pessoas ali? Quem e o que representam? Do que elas estão reclamando?

Já que estamos falando em política, quais as causas concretas? As questões urgentes? As reivindicações?

Não que o Brasil não tenha problemas. Tem um monte. Mas quem reclamava ali quer a solução deles? Tem coragem de resolver isso? Essa é a causa política da molecada bem nascida e daqueles senhores que a “introduziam” na política do palco?

Sinceramente…As pessoas ali, as que estavam ali, estavam para reclamar do que mesmo?

Que país eles querem? Mas que país eles querem mesmo? A vida de carrão, dinheiro, empregados, fim-de-semana no litoral norte e viagens para a Europa não é boa o suficiente?

Ficou uma coisa bastante vaga, fora a revolta contra a “corrupção” (genérica ou encarnada no José Sarney), a necessidade de “moralizar” e clamores de crescente “indignação”. Olha, este comportamento na política brasileira não é nada novo e tem até nome. Chama-se udenismo, e é um show de conservadorismo, para que tudo permaneça como está. Porque a classe média e alta brasileira não tem vergonha na cara de admitir que vive bem paca no Brasil (com a questão da segurança sendo a nuvem nesse céu de brigadeiro). E que quando as coisas ficarem mais iguais por aqui, não vai dar para bancar este vidão, porque não vai ter empregada e a casa na praia vai ficar cara, e talvez você tenha que lavar a própria roupa e fazer faxina da própria casa…

É, estou generalizando, eu sei, mas para mim, o trecho e o clima que vi foi “vintage”: Udenismo e 32. Sabe, a trilha sonora “jovem” perfeita para o evento não tem nada a ver com o “Fight the Power” do Public Enemy que o Instituto tocou. Não precisavam ir longe não. É uma música do Tatá Aeroplano, que discotecou no evento. Chama “Pareço Moderno”. A letra acerta para esse tipinho tão paulistano, moderno na superfíce, as vezes até nos costumes, mas FPP no família, propriedade e política.

5 Comentários

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5 Respostas para “São Paulo parece moderna…

  1. Muito bom José! Quando eu vi que aconteceria este evento era mais ou menos isso que eu imaginava que ia rolar. Obrigado por compartilhar. abraço

  2. Rapaz, preferiria assistir o filme do Pelé três vezes e sem intervalo comercial do que presenciar o D’Avila e o Gabeira discutindo qualquer coisa. Mesmo. Você é macho, muito macho, macho pra caralho. Meu deus, como vc é macho.

    Mas, com todo o respeito, o Lula é tão tosco quanto. Sem precisar mexer nem na equalização. E Cérebro Eletrônico é foda bagaralho!

  3. Ale

    Até parece o roteiro de um filme sobre os lugares comuns da classe média brasileira. É engraçado como algumas “instituições”, grupos, personagens se repetem exaustivamente há anos e há uma postura perversa em querer manter as coisas do jeito que estão. Daí rola um festival como esse em que tudo parece jogo de cena. Vira e mexe nego calcula quanto os 60, 70 reais pagos a uma diarista podem chegar no fim do mês. “Pô, ela tá quase ganhando igual a ‘gente’”. Que merda! Se fosse verdade, viveríamos num país melhor. Aliás, seríamos já muito melhores se boa parte desse povo soubesse como é a desgraceira de vida uma diarista. Vai lá: pergunta pra ela e compara. Aposto que pagaria mais. Enfim, tinha estranhado a escolha dos personagens (debatedores) do Festival. Mas, pelo visto, foi a mesma novela de sempre, com o enredo ensaiado há anos.

  4. Outro dia escutei a melhor definição sobre o papel do Gabeira na política nacional. Uma amiga minha é funcionária de estado. Ela já ouviu muita papagaiada do Pedro Simon para se iludir com discurso para a tevê. Um dia perguntei sobre o que o Gabeira faz na congresso de fato. Que projetos ele toca, que comissões ele participa, estas coisas. Ela me disse:
    “bem Tiago, atualmente não faz muita coisa não viu. O papel dele no congresso é muito parecido com o de um deputado do seu estado: Celso Russomano. Trabalha de olho nas câmeras de tevê”.

  5. João da Luz

    Esse D’Ávila não é um pires. É um verniz. Bem mais raso.
    Pires é o Gabeira.
    Aquilo não foi uma palestra. Pareceu mais um vomitório.
    Cara, vc tem estômago.

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