O cinema é o campo da batalha

Samuel Fuller disse que o cinema é como um campo de batalha. Em Bastardos Inglórios o cinema é o campo de batalha. É no cinema que se trava a Segunda Guerra Mundial. Não é só a história de ação do filme que acontece dentro de um cinema. A história do cinema está dentro da ação do filme. E todo este subtexto, este prazer e paixão pelo cinema, esta reflexão incrível é também um filme divertido e inteligente que passa rápido e de forma emocionante, inclusive para quem não sabe nada disso…

(Aviso de “spoilers” adiante…)

A batalha entre o projeto de Goebbels e Holywood, o que ambos tinham de cinema de propaganda, a cinefilia francesa, a relação entre os judeus e o cinema…Tarantino mistura um caldeirão infinito de referências cinematográficas e conhecimento prático e teórico sobre cinema. Não é só que ele viu muito filme, de todos os tipos e lugares. Ele estudou e discutiu horrores. E atualmente ele sabe misturar tudo isso em níveis que fazem seus próprios filmes mais antigos, como Pulp Fiction, parecerem brincadeira de criança (e deve ser por isso que os modernos agora seguem Michel Gondry). Eu tenho que agradecer a Paula, minha irmã, por notar isso: “Tarantino” assina “ele mesmo” o filme, dizendo assim: “Acho que esta é minha obra-prima”. É como aquela história de que Michelangelo, quando terminou Moisés, deu uma martelada e disse “Parla”…(e eu me divirto horrores fazendo essa comparação profana!)

Tem muito que poderia ser escrito sobre esse filme. A discussão aqui não é ganhar premiozinho, é quando ele vai fazer parte da lista dos 10 mais de todos os tempos. Mas ele está aí para ser visto. Vejam. Tem para todos. Para quem se diverte, para quem gosta de ação e suspense, e vai ver um filme sobre a Segunda Guerra diferente de tudo que você já viu, e para quem ama cinema, suas reflexões, seus truques, a complexidade dessa arte.

Muito também foi dito sobre a relação do filme com a história. Vale chamar a atenção para algo interessante: Tarantino também fez um filme sobre como, de fato, o cinema foi a arma de vingança dos judeus contra Hitler. Prestem atenção: não no filme, mas na História. “O que os livros de história dirão?” pergunta o vilão Hans Landa, genialmente interpretado por Cristoph Waltz. Como declarou Eli Roth, ator no filme e diretor do “filme dentro do filme” sobre o atirador, ele, como judeu, sempre sonhou em se vingar de Hitler, mas jamais teria a coragem de fazer um filme assim. Um “ultraje” libertário e libertador, como Chaplin em “O grande ditador”. Tarantino cruza fronteiras e simplesmente “exorciza” o nazismo. A vingança é a história (“isso ficará sempre marcado”) e a história é, em muito, cinema. A vitória no cinema também é a vitória na guerra. Preste atenção no nome da tese do “soldado/crítico” inglês.

Enfim…Para rir, suar, se embasbacar. De tirar o fôlego e as palavras…Mas eu não sei calar a boca🙂

Outras anotações

O que dizer da principal arma do vilão do filme ser seu domínio da linguagem? E da “arma” final ser filme, em si, na tela e como objeto?

Deixa eu entregar uma coisa: quão genial e delicado é a história de amor entre a loira e o negro, que nenhum personagem no filme consegue notar ou sequer conceber? Eles que partem para fazer seu filme “novelle vague”. Quando eles se beijam, escondidos, na sala de cinema, é importante lembrar que “então” não haviam beijos entre negros e brancos nas telas de cinema. E que até hoje retratar esses romances ainda tem muito de provocação.

Outra: Quando Shoshana foge, o enquandramento dela sendo vista de dentro da sala? Homenagem ao final de Rastros de Ódio do John Ford. Deve ter uns 2 milhões de coisas assim no filme…(eu já achei no youtube, mas tiraram, em um filme oriental da década de 70 ,o chão de vidro da batalha de espadas Kill Bill Vol. I). Por exemplo, o cachimbo ridículo de Landa: referência a Sherlock Holmes.

Outra: preste atenção nos closes do strudel. Eles são propositadamente artificiais, “quebram” a cena. O filme é cheio de jogos e recursos para lembrar que aquilo É CINEMA…(é Brecht) e isso que torna a discussão sobre a “violência” do filme bobagem. Toda a violência se dá em um território que não existe, em um contexto onde ela é justificada – “nazistas não tem humanidade” – e  Tarantino basicamente destrói essa questão nessa entrevista sobre como Kill Bill deveria ser assistido por meninas com mais de 12 naos – vida é vida, filme é filme! E filme é tão mais “verdade”, e só pode ser “verdade”, por conta disso (e esse são os mesmos princípios, rompidos, que fazem de Tropa de Elite um filme escroto e mau caráter).

E os diálogos com vários níveis, quase sempre jogos de xadrez? Sempre sabemos que os personagens “jogam” em cena, há camadas no que eles dizem, alguém está sempre interpretando um papel, conduzindo uma conversa, ou escondendo algo…Sempre há tensão. Tarantino realmente compõem partidas de xadrez de linguagem uma após a outra…Ela é a verdadeira arma, que salva ou trai um personagem (até a linguagem das mãos entra em jogo). Sequência mais sequência genial como a dos “sicilianos”. Como ele mesmo sabe, o nível dele de roteiro, que já era absurdo, subiu ainda mais.

E a decupagem, a composição das cenas, os movimentos de câmera…

E os ossos jogados para os cinéfilos, que fazem parte da história…Como a fala que é errado comparar Goebbels com Louis B. Mayer, que ele veria a si mesmo mais como um David O. Selznick…

Enfim. Chega. Vale a pena colocar esta lista abaixo dele, com seus 20 filmes preferidos desde 1992, quando se tornou um diretor (vídeo em inglês). O ecletismo da lista é lindo, tem desde Speed até Dogville, para ele um dos melhores roteiros já escritos. E o comentário dele sobre Matrix, que certamente é compartilhado pela torcida do Flamengo, consciente ou incoscientemente, é ótimo!

E um link para a entrevista dele (em francês) para a Cahiers du Cinema. E outro para o roteiro do filme vazado na internet. Dá para ver que houve muitos cortes, que tornaram o filme mais aberto, direto e enxuto.

PS: Dane-se o que o filme não é! É um saco as pessoas julgarem obras de arte pelo que elas não são. “Pô, 2001 deveria ter mais diálogos….” devem dizer esses manés! Acho sensacional ele enganar o público com Brad Pitt e um trailer colocando como principal o segundo tema do filme e entregar algo muito melhor! Uma coisa é informar isso, tudo bem, mas fora críticos de cinema “Procon”…(ainda mais em blog, o mané se preocupar com uma coisa dessas…). Não são “dois filmes em um”, como li em tantos lugares. Que besteira…Eu entendo que jornalistas talvez achem mais fácil explicar assim para um público que subestimam, no que podem ou não ter razão, mas o que me dá pânico é imaginar que tem jornalista sobre cinema em grandes veículos que realmente acredita nisso…

9 Comentários

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9 Respostas para “O cinema é o campo da batalha

  1. Nival Júnior

    Tomara que os palestinos um dia possam fazer um filme assim se vingando dos sionistas.

    • José Chrispiniano

      Olha, entendo donde vem seu comentário. Mas não acho que seja a mesma coisa. Mesmo.
      E acho essa correlação direta meio escrota.
      Mesmo sendo um absurdo complato, uma agressão, o que o Estado de Israel, apoiado por boa parte de sua população, faz com os palestinos, o nazismo é algo muito diferente, muito pior.
      Recomendo os filmes do Amós Gitai, um israelense extremamente crítico da opressão do Estado de Israel sobre os palestinos. Ele faz isso muito bem.

      • Lara Lopes

        Não sei se o nazismo foi muito pior. Invadir a terra alheia e tratar os palestinos como seres-humanos de segunda (ou terceira) classe é bem foda.

  2. Zé Kley, só uma lembrança de professor chato de História da Arte. O Michelangelo deu uma martelada no joelho do Moisés, não do David. Enquanto golpeava o joelho de mármore, clamava: Parla.

  3. José Chrispiniano

    Oi, Tiago,

    Muito obrigado pela correção. Isso que dá quando gente metida a besta que nem eu se mete a fazer uma citação complexa. Vou digitalmente fazer esta correção, mas deixar registrado aqui nos comentários sua oportuna correção e mea culpa.

  4. Lara Lopes

    Sobre o filme, babação de ovo à parte.

    Tarantino simplesmente não resistiu à tentação de matar Hitler e reescrever a história. Ele podia ter assassinado os bambambans do nazismo e ficado contente mas não! Cara ganancioso! Tinha que matar o Führer.

    Por mais que eu me divirta vendo o baixinho bigodudo cair, não consigo evitar de pensar no público adolescente que vai sair do cinema pensando que esse conto de fadas é uma história real.

    Eu sei, começa com “Once upon a time” e continua de forma brechtiana, tentando distanciar o espectador. Ainda assim receio que o público muito jovem acabe mal-informado. Espero estar subestimando os adolecentes.

    Bem sei que a função da arte não é ensinar história mas enfim… só uma consideração.

    Só mais uma pulga: sobre o romance da Shoshanna com o negão projecionista.

    Por que catzo ela manda o amante na missão suicida de incendiar a tela? Por que ela não faz isso sozinha? Essa atitude não é de amor. Acaba reproduzindo o mesmo racismo que do qual ela tenta se vingar.

    Enfim, apesar dos meus comentários pentelhos, acredito que Bastardos Inglórios já entrou pra história do cinema. Com um pontapé na porta.

  5. José Chrispiniano

    Sobre esta questão de um “anti-ensino” de história não sei…Lembro apenas de quando trabalhava na História Viva: não tem assunto da história mais popular e conhecido em linhas gerais que a Segunda Guerra…

    já sobre o amante da Shosshanna…ela tinha que estar na projeção, não podia sair e alguém tinha que fechar as portas e começar o incêndio, não?Meio Shakespeare, pactos de amor e morte e todos morrem no final. E acho que ele quis que os nazistas fossem mortos por uma judia e um negro.

  6. Lara Lopes

    Recapitulando:
    Ele estava projetando o filme quando ela chegou na sala de projeção e tomou o lugar dele. Ela manda ele embora na missão suicida e fica numa boa na salinha de projeção. Shoshanna poderia muito bem ter iniciado o fogo com as próprias mãos…

  7. José Chrispiniano

    Mas ela também não ia escapar viva da salinha de projeção. E tinha que estar lá para os nazistas não desconfiarem. Mas enfim, é discussão demais sobre a Shoshanna alheia (e um trocadilho bem infame).

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