Um filme tão próximo

Assisti Quanto dura o amor? de Roberto Moreira, no HSBC Belas Artes. Se a exibição não teve problemas, porque importaria onde assisti? Porque a fachada do cinema aparece toda a hora na tela, já que os personagens moram no prédio que fica do outro lado da rua, na esquina da Av. Paulista com a Consolação.

Isso é uma das coisas legais do filme. Ele é muito, muito próximo. Ao menos de quem vive, trabalha ou frequenta a noite da região da Paulista/Augusta. O que em São Paulo não é pouca gente. E ironicamente (ou de forma inteligente), é onde mais tem cinemas que passam filmes nacionais…E provalmente um universo muito próximo de quem faz cinema. Como em “Santiago”, um pouco de auto-retrato é bom, tende a ser mais sincero e profundo (até hoje acho “Linha de Passe” um filme complacente de rico sobre pobre, apesar de muita gente boa discordar).

É  um filme que tem um mérito de não querer explicar tudo, de ter um foco e tom claro. Escrevi primeiro que ele era “despretencioso” mas este termo não é o correto. Ele tem ambições e boas. O filme é rigoroso e cuidadoso e tem um objetivo estrito de criar uma história próxima daquele universo bem demarcado. Pobre (rico) município de Paulínia, que gasta uma grana para ser o começo do filme, apenas para servir de mero contraponto incial e motivo de uma bela abertura que retrata como é ao mesmo tempo assutador e fascinante chegar em São Paulo, cidade que vai deslumbrar, apaixonar, maltratar e amadurecer a protagonista,uma jovem aspirante a atriz.

Para isso o rigor com o espaço da cidade, que pode parecer preciocismo, serve de recurso para o filme, quase todo em externas. Aqueles personagens circulam e interagem naqueles poucos e intensos quarteirões de prédios que não se sabe se estão se recuperando ou ficando mais decadentes, casas noturnas, puteiros, e onde quase todos são e não são atrizes, músicos e escritores…Mas que as cobranças de grana e moralismos estão sempre a um passo e o que parece a coisa mais careta do mundo pode esconder histórias de vida surpreendentes.

Danni Carlos pode estar um pouco forçada e não muito convincente como uma sedutora espécie de cover de Amy Winehouse (que realmente existe na região, e sei lá porque não foi a própria…), mas é pouca coisa fora para um filme com atuações e escolha de atores excelentes. Diante do personagem de Paulo Vilhena por exemplo, não é possível que quem conheça a região não lembre de alguma pessoa.

O filme me surpreendeu, esperava bem menos. É curto, passa rápido e é tão próximo que é até estranho comentá-lo, nitidamente não dá para se sentir “objetivo”…O que já é bastante, não? Convencer e envolver assim…A característica “solidão aglomerada” de São Paulo, nas palavras de Tom Zé, está lá. De passar tanta força como um espelho da cidade, desse seu momento, dessa cena que tanto quer ser alternativa que consegue por breves períodos da vida…Das relações tão fáceis de se quebrar por aqui. Da dureza e do jeito entre tímido e sem jeito ou subitamente selvagem “vamos direto ao assunto” do paulistano, vale muito a pena ir ver esse filme.  E na saída do cinema procurar do outro lado da rua para ver se os personagens não estão fumando na sacada do prédio em frente…

PS: O trailer abaixo. Aviso que acho que ele não faz jus ao filme, que é bem mais legal do que o trailer faz parecer…

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