Um caso curioso de financiamento público da cultura

Acho que este post todo é mais uma desculpa para falar de um filme que eu adoro…Calafrios (Shivers), do cineasta canadense David Cronnenberg. O que detonou todo este post foi essa entrevista (em inglês) que está debaixo do texto sobre este que foi seu primeiro filme e que levanta uma discussão interessante sobre o financiamento público à cultura.

O nome original do roteira era “A orgia dos sanguessugas”. E a história mudou de nome, mas seguiu fazendo jus ao título inicial. Um cientista desenvolve um parasita que libera as repressões sexuais, para dizer o mínimo, do seu hospedeiro humano. O experimento dá errado, e os tais parasitas começam a se espalhar por um moderno e isolado condomínio fechado. Um médico e uma enfermeira vão tentar descobrir o que está acontecendo e enfrentar a ameça.

Calafrios foi feito com recursos de um fundo do governo canadense dedicado ao cinema. Provavelmente Cronnenberg é o cineasta mais renomado, respeitado e estudado de todos os que já foram subsidiados com estes recursos. E ao mesmo tempo teve uma das carreiras mais bem sucedidas do ponto de vista comercial. E todas estas características já estão nessa sua estréia. E por isso mesmo o financiamento público do filme foi um escândalo.

Parte do brilhantismo de Calafrios está na forma e na maneira que ele trabalha referências do terror para compor um filme que é ao mesmo tempo assustador irônico e divertido, mas também profundo, muito bem conduzido e subversivo. Se você olha um filme superficialmente, pelo tema, ou se não entende o trabalho com gêneros, não vai sacar a força dele. Ao mesmo tempo ele certamente é muito forte e atinge em cheio as pessoas mais desarmadas e os públicos mais diversos. Ele tem tanto uma linguagem comercial que funciona quanto muita profundidade.

E como Cronneberg conta, a burocracia, a direita e os políticos canadenses quando o filme foram lançados, não entenderam nada ou entenderam demais. Importantes colunistas na imprensa condenaram o governo canadense por financiar o que eles enxargavam como um ultrajante filme que misturava dois gêneros malditos, o cinema de terror e o filme pornô.

Calafrios é evidente um incômodo para a “moral e os bons costumes”. Não é simplesmente um filme de terror, embora inteligente é vendido assim, e não é um filme pornô, muito diferente disso.

No final Calafrios foi o primeiro filme do programa governamental a ter bilheteria suficiente para pagar todo o financiamento público. E é uma pequena obra-prima do cinema, feita por um então jovem cineasta que para mim está entre os mais importantes do mundo em atividade.

Você imagina se um filme desse tem alguma chance de ter financiamento de um instrumento de mercado como a Lei Rouanet?

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