Porque São Paulo está indo para o brejo?

Porque São Paulo nasceu brejo, era brejo antes da cidade ser fundada, de virar metrópole e porque provavelmente será brejo quando for ruínas, isso se não tivermos estragado o clima do planeta demais antes disso…São Paulo foi contruída, soterrou e sufucou três grandes rios (Tamanduateí, o soterrado, Tietê, o símbolo e Pinheiros, o “invertido”) além de dezenas de rios menores e afluentes. A cidade ignora isso, e sem reconhecer este dado da natureza, perde a chance de ser uma cidade mais bonita e que convive melhor com a chuva que adora cair sobre ela. Não seria uma “Veneza”, mas poderia ser algo mais simpático que um tapetão de asfalto por cima de esgotos.

Mas não estou falando no sentido literal, e sim no figurado e em um prazo de tempo mais curto, de como o trânsito da cidade piorou tanto e porque ele segue no sentido errado.

E nesse sentido, a cidade está ficando inviável porque temos um governo municipal que contra todas as evidências segue privilegiando o transporte individual através de ações como:

– Restrições ao transporte coletivo privado, os fretados

– Não ampliação/melhoria da frota de ônibus urbanos

– Tentativa (frustrada em menos de uma semana, devido a insanidade rapidamente percebida) de suspender o rodízio nos horários de pico

– Flexibilização das restrições nos corredores de ônibus

ATENÇÃO: São Paulo não “vai” parar no futuro. JÁ PAROU. PARA TODO O DIA. MUITO. DEMAIS!

E você sabe por que está cada vez pior? Porque José Serra foi eleito prefeito da cidade em 2004. Acha que estou sendo injusto? Que é exagero? Coisa de petista?

Que tal se eu contar esta história só com links da Folha de S. Paulo, e algumas informações a mais, um pouco de “junte os pontos”?

A matéria abaixo está na Folha de S. Paulo de 20 de março de 2003 (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2003200315.htm)


“Marta pedirá ao BNDES verbas para transporte

DA REPORTAGEM LOCAL

A prefeita Marta Suplicy (PT) e o secretário municipal dos Transportes, Jilmar Tatto, vão hoje ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), no Rio de Janeiro, pedir liberação de verbas para o transporte público de São Paulo.
Marta deverá pleitear em torno de R$ 500 milhões para a implementação e reformas de corredores de ônibus e para a construção de 26 novos terminais para sistema integrado. Parte do dinheiro será utilizado na Operação Via Livre e na complementação do sistema de bilhetagem eletrônica.
A contrapartida da prefeitura será de R$ 330 milhões.
Segundo dados da Secretaria dos Transportes, o total de recursos será utilizado em três anos e dividido da seguinte forma: R$ 353,7 milhões já neste ano, R$ 487 milhões em 2004 e os outros R$ 93 milhões em 2005.”

A verba saiu pouco tempo depois, como mostra esta matéria: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2606200301.htm

Esta segunda matéria tem uma curiosa contradição. Para o jornalista, o R$ 1,1 bilhão seria gasto até o fim do ano.  “Com a liberação da verba, a administração Marta Suplicy (PT) já planeja gastar mais de R$ 1,1 bilhão nessa área até os últimos meses de 2004 -ano de eleições municipais.” Mas não é isso, como mostra a declaração do Jilmar Tatto, então secretário dos transportes, na mesma matéria. “A idéia é usar essa verba até agosto do ano que vem. Acreditamos que seja a maior quantia já investida em transporte na história da cidade de São Paulo num período tão curto”. Esse detalhe, de que estes recursos seriam gastos mais em 2004 do que em 2003 é importante para o que vem a seguir.

Afinal, o que aconteceu com os corredores e os 26 terminais para o sistema integrado de ônibus com bilhete único (então sem limites de viagens)? Onde estão eles?

Calma…

Na terça-feira, 02 de novembro de 2004, dia dos finados e dois dias após as eleições, a Folha deu a seguinte manchete (matéria disponível na íntegra em  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0211200401.htm):

PSDB propõe a José Serra a compra de ações do Metrô

O que diz a matéria?

“Plano elaborado por tucanos, com conhecimento de Serra, propõe que a prefeitura compre ações do Metrô, “doe” o Fura-fila ao governo estadual e transfira a gestão dos postos de saúde da cidade às entidades filantrópicas que já administram alguns hospitais do Estado.”

(…)

“O investimento do município na empresa seria feito com o dinheiro para corredores de ônibus previsto no Orçamento de 2005 -cerca de R$ 280 milhões. No cálculo dos tucanos, o dinheiro investido em ações, além de ampliar a influência da prefeitura no Metrô, dará à estatal fôlego para realizar quase 40% das obras de expansão da linha 5-lilás -que hoje liga o Largo Treze ao Capão Redondo, está subutilizada e dá prejuízo de R$ 2,8 milhões ao mês. Com a expansão, ela poderá ser interligada a outras linhas.”

O plano não se realizou dessa maneira, o Fura-Fila não foi transferido. Mas a verba, e o plano de expansão dos corredores de ônibus na cidade foi de fato abandonado. E nunca foi retomado. Isso mesmo com a explosão de recursos que depois ocorreu na prefeitura, que teve sua arrecadação quase dobrada, talvez por uma ou outra ação de arrecadação, mas principalmente pelo fim das “empresas de gaveta”, que emitiam notas em outros municípios e pelo crescimento econômico.  Detalhe importante sobre a questão dos corredores: durante a campanha Serra não divulgou que faria isso. Quando li esta matéria mandei uma carta irada ao Ombudsman da Folha na época, Marcelo Beraba. Reproduzo um  trecho da carta abaixo:

“Você quer me fazer crer que o jornal fez estas matérias inteiras apenas ao longo da segunda-feira? Que não sabia de nada disso antes das eleições? Nada sobre como Serra pretende usar o dinheiro dos corredores de ônibus para sanar a dificuldades financeiras do metrô com a linha 5? Alguém apurou se o interesse do PSDB com este aporte, que é irrelevante para o Metrô, mas essencial para o projeto de bilhete único, é usar o dinheiro para sanar o caixa da empresa para a abertura de já anunciadas “parcerias” do Metrô para a iniciativa privada?”

A raiva era com a Folha de S. Paulo ter sonegado esta informação aos seus leitores, provavelmente por causa de algum acordo, espúrio, com a fonte das informações, de só dar o material depois da eleição. Isso na melhor das hipóteses.

Os corredores de ônibus irritam, e muito, as classe média e alta da cidade, quando passam em vias “nobres” e por tirar espaço dos carros. Primeiro havia a tese de que ele causava a “decadência” da rua, e o exemplo era o que tinha acontecido com a Av. Santo Amaro, com as grades horrendas que enfeiaram a rua. Mas os novos corredores de ônibus eram menos agressivos, apenas faixas pintadas ou “tartarugas” e a fiscalização deles eletrônica. Então se inventou até que muita gente morria atropelada por causa dos corredores no meio da via. Lembra disso?

Esta matéria de agosto de 27 de agosto de 2003 mostra a resistência aos corredores (íntegra dela aqui: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2708200306.htm)

Corredor da Ibirapuera começa em setembro


“(…)

Apesar de terminar a reunião com o apoio dos moradores para o corredor, o secretário não conseguiu evitar resistências. Integrantes do Defenda São Paulo, entidade não-governamental que reúne grupos de diversos bairros, se opuseram ao alargamento da avenida Vereador José Diniz, intervenção prevista em um dos trechos do corredor.
“Apoiamos o corredor, achamos que ajudará a disciplinar o trânsito, terminando com o movimento dos ônibus nas faixas. Mas não precisa alargar o trecho da Vereador José Diniz, que é um cartão-postal da região”, afirma a arquiteta Regina Monteiro.
A avenida concentra um grande número de casas de classe média alta, com trechos bastante arborizados. Para o alargamento, a prefeitura teria de desapropriar alguns imóveis ou conseguir um acordo com o Banespa, proprietário do Esporte Clube Banespa, que ocupa um terreno com fundos para a Vereador José Diniz, espaço que poderia ser usado para a extensão da via.
As mudanças na avenida Ibirapuera fazem parte de um projeto mais amplo no sistema de transportes, que prevê 20 corredores na cidade, com cerca de 193 quilômetros de extensão . Pelo projeto, o usuário poderá mudar de um corredor para o outro sem ter de pagar uma nova passagem.
(destaque meu)

Regina Pinheiro era a “favor” do corredor de ônibus, mas contra medidas práticas necessárias para implantá-lo. Regina era o principal nome do Defenda São Paulo, e onde se lê na Folha “diversos bairros”, é bom saber que são as associações de  moradores dos bairros mais ricos da cidade.  Sabe onde ela está desde 2004? É diretora de meio ambiente e paisagem urbana da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), um cargo de confiança para o qual foi nomeada por Serra e mantida por Kassab. Lá ela ajudou na criação do Cidade Limpa (legal, adoro o Cidade Limpa. Se Marta, ou qualquer outro do PT tivesse tentado fazer certamente haveriam editoriais acusando o PT de tentar transformar São Paulo em Havana). O salário dela, que pode ser conferido pela ótima iniciativa do Gilberto Kassab de criar o site “De olho  nas contas” é de R$ 18.500,00 por mês.

É importante apontar o seguinte: com os 193 KM de corredores de ônibus andar de carro não estaria mais fácil. Estaria provavelmente mais difícil. Mas a mobilidade da cidade estaria melhor porque seria muito mais fácil andar de ônibus. Este é o ponto e o princípio correto da iniciativa. E por isso que ela causou reação.

Eu trabalhei durante 8 meses de 2003 no governo da Marta Suplicy. Mas não nutro simpatia pela pessoa dela. Acho que ela mesma escolheu caminhos e companhias erradas que causaram o declínio de sua carreira política, se bem que isso é simplificar uma história complexa. O governo dela fez bobagens, mas também coisas incríveis (que foram criticadas e depois incorporadas pelo governo seguinte, como os CEUs), e o jeito com que a administração foi tratada pela imprensa na época faz a Veja parecer lulista. Também não curto Jilmar Tatto e sua família, apenas reconheço que foi ele que ordenou o sistema de transporte de São Paulo, do mais absoluto caos herdado de Celso Pitta (de quem Kassab foi secretário de planejamento), com ônibus clandestinos, greves de donos de empresa entre outras coisas inacreditáveis.

Só acho importante registrar esta trajetória de médio prazo, onde piorou muito o trânsito da cidade.

Cinco anos depois qual o fim dessa história?

Folha de S.Paulo – Aprovação aos corredores de ônibus cai 11 pontos em SP – 22/12/2008

Folha de S.Paulo – Em dez anos, classe média evita ainda mais o ônibus – 03/04/2009

E claro, a obra-prima

Folha de S.Paulo – Nova marginal Tietê custará R$ 1,3 bilhão – 05/06/2009

Vai se gastar para aumentar as enchentes na Marginal, no sentido contrário da revitalização da área promovida pela obra do próprio PSDB (governo Alckmin) na calha do Rio, gastando muito mais do que seria necessário para construir quase 200 KM de corredores de ônibus.

E o que diz o governo do estado na matéria: “Governo de São Paulo prevê melhora de 35% na fluidez”. Mas o que dizem os especialistas, na mesma matéria? Que não vai adiantar nada!

“Especialistas questionam a necessidade de uma obra desse porte para beneficiar principalmente os usuários de automóvel. “Esse dinheiro poderia ser aplicado em corredores de ônibus, por exemplo”, diz o consultor Horácio Figueira.” (destaque meu)

É Horácio, poderia mesmo. Cinco anos atrás. E poderíamos estar caminhando para recuperar um simpático  brejo em torno do Tietê, a velha e boa várzea, que sempre encheu desde os tempos em que o cacique Tibiriçá morava onde hoje é a Ponte das Bandeiras, sem encher ninguém (o cacique e o rio).O futuro das Marginais seriam linhas de trens dos dois lados, parques lineares, ciclovias, caminhões no Rodoanel e poucas pistas para carros. Isso no médio prazo (10, 2o anos). A direção correta é essa, não aumentar o número de pistas. Veja SP tem de acabar com as marginais, diz professor Nem o Gilberto Dimenstein apoia a obra. Gilberto Dimenstein – O maior erro de José Serra E pior, é viável ter esta outra Marginal. Dentro de um plano lógico e integrado, que custaria menos que a loucura desse plano das empreiteiras. Veja Folha de S.Paulo – Obras estão em lista sugerida por empreiteiras – 02/04/2009

Mas por causa da várzea que é o planejamento urbano nessa cidade, da estupidez do paulistano e por causa dos interesses das empreiteiras em vender falsas soluções para o transporte público para faturarem rios de dinheiro  a cidade toda esta afundando na lama da sua própria burrice.

PS: Cereja do bolo. É relativamente “normal” em temporais a luz cair, como caiu em várias regiões ontem. Mas também entrou em pane o sistema de telefonia fixa, operado pela privatizada Telefônica. Empresa que está “em ação” para corrigir o Speedy, apenas após ser proibida de vendê-lo  pela Anatel, e com ações que especialistas ainda acham insuficientes para resolver a rede de banda larga na internet. De repente, começa a dar pau na rede de telefonia fixa. “Sensacional”….

4 Comentários

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4 Respostas para “Porque São Paulo está indo para o brejo?

  1. Enquanto isso, candidatos que se dizem progressistas ficam atrás de carguinho nesta administração. CARGUINHO. A Soninha vai querer o que agora que ela é a nova Ciro Moura do Serra? Uma vaga no almoxarifado da Sala São Paulo? Um emprego de chefe do agendamento de Escolas da Pinacoteca?Compradora de insumos dos hospitais que ainda não foram privatizados?

  2. Wellington

    Só não tenho certeza na afirmação que você faz: “É importante apontar o seguinte: com os 193 KM de corredores de ônibus andar de carro não estaria mais fácil. Estaria provavelmente mais difícil. Mas a mobilidade da cidade estaria melhor porque seria muito mais fácil andar de ônibus.”

    Os corredores ajudariam também na locomoção dos automóveis pois reduziria o número de veículos trafegando, substituidos pelo trasnporte coletivo. O carro passaria a ser usado de forma mais racional.

    Excelente matéria.

    • José Chrispiniano

      É, talvez mesmo para carro estivesse melhor. Certamente em médio prazo. Mas esse nunca foi o ponto, o próprio Jilmar Tatto já dizia que não dava mais carro e que o plano não era mesmo para facilitar a vida do transporte individual. Eu procurei esta declaração dele, para não puxar de memória, mas não achei.
      O principal é que a cidade tem que buscar soluções para mobilidade e parar de tentar remediar a questão do trânsito de carros…

  3. Zé, genial, cara. Puta texto.

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