O livro de Ruth, o partido único e o apagão da imprensa em São Paulo

Hoje, no Conjunto Nacional quase esbarrei com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o seu ex-ministro e atual secretário da educação do governo estaual Paulo Renato de Souza. Eles fugiam do CQC, que devia estar fazendo alguma brincadeira com a notícia de que FHC será o protagonista de um documentário sobre a liberação do THC. Você vê, o José Serra com uma lei antifumo e o FHC querendo liberar a esquadrilha da fumaça…

Mas piadas a parte, eles estavam lá (e também o Geraldo Alckmin e o Henry Sobel, entre outros, provavelmente o Serra também deve ter dado uma passada) para o lançamento do “Livro de Ruth” da ex-aluna e colaboradora de Ruth Cardoso Margarida Cintra Gordinho. O livro é uma homenagem oficial (ela teve acesso aos arquivos de FHC ) e mais sentimental do que acadêmica, ou mesmo uma biografia da falecida primeira dama.

O que me incomoda no livro? Ele foi lançado pela Imprensa Oficial, editora do governo do Estado de  São Paulo. Não tenho nada contra um livro sobre a Dona Ruth. Mas sou só eu que acha esquisito os contribuintes financiarem uma elegia dela? Sim, sou só eu. Você não vai ler em nenhum lugar gente achando que isso é aparelhamento do estado . Mas não dava para ao menos disfarçar e arranjar alguma editora privada de um amigo, talvez algum selo da editora Record, que publicou A arte da política, de Fernando Henrique Cardoso? Alguma editora ligada à Abril talvez? Podia até quem sabe ser por dinheiro público, arranjar uma Roaunet de alguma estatal… Não dava para ter um pouco de decoro com a Dona Ruth?

Não é curioso que os tucanos que prezam tanto as privatizações tenham que recorrer à uma editora estatal para fazer um livro desses?Algo como nesse caso Quem como a nota do Instituto FHC bem explica, soa chato, mas é um ato perfeito diante da lei, não tem como contestar…

Em São Paulo, e esta aí o Datafolha que não me deixa mentir, o PSDB é um partido único. Não vivemos sob sua ditadura, não vou dizer tanto, mas não tem alternância alguma de poder. Não existe debate público ou fiscalização da Assembléia Legislativa, que há anos não tem CPI para investigar o governo. E existe muita pouca informação e NENHUMA pressão da imprensa sobre o governo estadual. Oposição política? Quase nada. O PT teve seus nomes de maior visibilidade invibilizados por motivos corretísismos, e está entretido em governar algumas prefeituras e principalmente no plano federal. Entre um e outro, rifa fazer oposição de fato e considera o governo do Estado “naturalmente” do PSDB (tanto que é capaz de imaginar a corrida ao Estado como “solução” para se livrar do Ciro Gomes no plano federal). E assim acaba sendo (prepare-se para mais quatro de Serra ou 8 de Alckmin). Na realidade o PT obedece a um dos mais fortes acordos não escritos da política nacional: tudo bem o PT no governo federal, mas com o contrapeso do PSDB no Estado de São Paulo.

Faz 15 anos que o PSDB governa São Paulo. Primeiro com Covas, depois com Alckmin, agora com Serra. Algumas brevíssimas questões, apenas para começar:

– Para que serve a Assembléia Legislativa do estado? Quem são seus políticos e o que ela produz? Porque a imprensa (nomilamente: Folha, Estado e Globo) cobrem mais a Câmara de Vereadaores de São Paulo do que a Assembléia?

– Quando os tucanos chegaram tiveram que federalizar o Banespa, que teria sido quebrado pelo Quércia e o Fleury. Por que após 14 anos de administração sem escândalos, e com a competência e o planejamento de que eles dizem ter, tiveram que vender a Nossa Caixa para o Banco do Brasil, administrado pelo PT que””aparelha estatais” e “politiza gestão”. Em outras palavras, porque a Nossa Caixa “técnica e honesta” deu errado e teve que ser vendida para o BB “aparelhado e politizado”? O PSDB não sabe gerir nem banco?

– Ainda na mesma questão, que é importante…Porque a imprensa não chiou ao ver o Estado de São Paulo ficar sem nenhum banco público, ainda mais que este banco foi vendido para outra estatal (ou seja, não foi privatizado), e ainda mais uma “aparelhada”?

– Quando as estradas estaduais foram privatizadas, elas precisavam ser recuperadas, o que foi usado de justificativa para os altos pedágios. Mais de dez anos depois, as estradas estaduais só requerem manutenção e obras de expansão que também aumentam o fluxo de veículos.  Além disso, os custos de capital no país (juros) caíram muito. Mas os pedágios continuam altos e as concessões foram estendidas. Você acredita que não existe nenhum tipo de relação entre empresas que exploram serviços de monopólio e o partido único que comanda e concede estas concessões? Você acha que a imprensa paulista investigaria isso? O que você acha do “golpe” do pedágio que vai acontecer  na Castelo Branco, onde o pedágio vai cair, mas todos terão que pagar pedágio entre São Paulo e Barueri, não apenas aqueles que optarem pelas pistas expressas?

– Porque depois de 14 anos de gestão “responsável, eficiente e com planejamento”, os salários dos professores, policias e médicos do estado continuam tão baixos, menores do que de muitos profissionais de estados bem mais pobre sdo nordeste que executam as mesmas funções? Porque  educação básica no estado, depois de Rose Neubauer (a “progressão continuada”), Gabriel Chalita (o “gênio”), Maria Helena Guimarães de Castro (a apaixonada por provões e provinhas) e agora Paulo Renato de Souza (aquele que submete seus artigos em jornal a aprovação do Bradesco) é um fracasso, com os alunos indo mal nos testes nacionais? Vale a pena ler neste sentido a entrevista com o diretor da escola estadual que foi melhor no SAEB, publicada em maio pela Folha de S. Paulo e disponível neste link. Sobra para todo o lado.

– Você acredita que a relação entre Governo do Estado e Assembléia Legislativa, vamos dizer, com um Campos Machado do PTB, se dá em bases programáticas e políticas? E que isto é fiscalizado pela imprensa. E que se houver corrupção a imprensa do estado não descansará e irá investigar até as últimas consequências?

Enfim…meu problema não é a imprensa pegar no pé do PT. Justa e as vezes mesmo sendo injusta é melhor do que deixar a sociedade em um apagão midiático. E São Paulo é isso. Um estado sem debate político, governado por um partido único, que não deve explicações e faz o que quer…

E que ainda se acha melhor que o resto do país…

1 comentário

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Uma resposta para “O livro de Ruth, o partido único e o apagão da imprensa em São Paulo

  1. É bom lembrar que o grupo do Serra no PSDB está repleto de egressos dos governos do QUércia e do Fleury. É gente como o Aloysio Nunes Ferreira, o Goldman, Alda MArcoantonio e o finado Pinotti. São todos quércistas roxos. Portanto, adcione mais uns anos nessa hegemonia

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