Fumantes, nóias, fretados, marginais e o indesejado de nós

Quando se falava em política “higienista” em vigor em São Paulo pelo trio Serra/Kassab/Andrea Matarazzo, achava-se que era exagero.

Quero deixar bem claro que sou a favor em linhas gerais da lei contra o fumo em lugares fechados. Quem trabalha na noite sofre muito com isso, e certamente quem fuma, fumará menos, e menos irão começar, já que a noite é porta de entrada para o cigarro. Mas incomoda-me imensamente o que parece uma sequência de medidas que visam esvaziar o espaço público e o tipo de visão de mundo por trás dela, que vai se implantando em São Paulo.

A cidade parece governada pelo estereótipo da “Dona Maria”. Que não faz nada e não deixa ninguém fazer. A visão de espaço público é de um espaço morto, de passagem, para carros, bem restrito. Um moralismo asséptico e regido por aparências. O paraíso deve ser Alphaville para essa gente…

A lei antifumo força as casas noturnas a ter espaços abertos, o que dificulta evitar que o som vaze e acabe criando problemas junto com o Psiu (que era o terror das casas noturnas, por isso elas são tão fechadas). O mesmo ocorre com os bares, onde os fumantes vão para a rua. Deve crescer as reclamações de moradores contra barulho e sujeira e seu esforço para fechá-los. Poucas casas vão conseguir se adpatar a todas as leis. E estas devem ficar mais caras.

Ao mesmo tempo, a prefeitura para “recuperar” o centro (na realidade para promover um grande negócio imobiliário onde certamente alguns vão ganhar muito dinheiro) expulsou os viciados de crack da reegião conhecida como cracolândia.  Claro que viciados em crack são um problema complexo. E algo que ninguém quer na sua rua, e certamente muitos  agentes públicos fazem o que pode em relação ao complexo problema. Mas como as pessoas não “somem”, e o poder público não pode fingir não saber que a cracolândia era uma “acomodação” da cidade a um problema real (por pior que fosse). Porque senão ao lidar com o problema, acaba gerando outro pior. A questão é que não há resolução possível que não passe por atender os viciados da forma que for possível (com tratamento de saúde, assistência social e repressão ao tráfico na região), mesmo sabendo que é difícil. Porque como o problema real não sumiu, ele migrou (e se espalhou). Literalmente.

Reportagem da Folha de S. Paulo mostra que os viciados agora vagam em grandes grupos pelas ruas da região centro-oeste da cidade, pelo eixo do minhocão (que antes era um dos programas mais malucos da cidade…andar nele a noite).

Quando o filósofo Slavoj Zizek diz que São Paulo é uma Blade Runner da vida real, as pessoas depois estranham…a cidade agora tem “hordas” de nóias que vagam entre o centro e a Barra Funda.

Claro, que este tipo de política restritiva só dói para parte da classe média, quando pega no pé dela. Como no caso dos fretados, também “banidos” dentro de um conjunto de ações para abrir mais espaço para os carro da mentalmente retardada Secretaria de Transportes do Kassab (não vejo outra palavra para eles, que já tentaram até suspender o rodízio). Mais um brinde a estupidez. Se parte dos fretados era irregular, fiscalize. Mas ao invés disso criaram uma regulação maluca para outra “acomodação” da cidade. Mentiram nos dados do trânsito para tentar defender a medida e certamente jogaram mais carros nas ruas, além de criar problemas pontuais (de trânsito e também segurança) em torno dos bolsões que antes não existiam.

Por que estou juntando fretados, cracolândia e fumantes todos no mesmo post? Porque todos seguem a mesma lógica, entre “reguladora” e “autoritária” (a escala de propaganda da nova lei antifumo é assustadora) de Serra/Kassab/Matarazzo. Moralista a medula de eliminar do caminho aquilo que lhe desagrada. O que há de imrpefeito em nós. Claro, regular aspectos são importantes, mas a minha impressão é que se caminha, em uma cidade excessivamente privada e com pouco espaço público, para reduzi-lo ainda mais. E parte da liberdade com ele (em uma cidade já com tão pouca liberdade).

Preocupa-me qualquer projeto que lida desse jeito com o indesejado que é parte de nós (como seres humanos e sociedade).

O próximo passo é inventar algo contra os fumantes na calçada, arranjar mais cárceres  para os nóias que vagam nas ruas (e não políticas sociais e de saúde) e seguir nessa insanidade paulistana de mais carro, mais carro, que já não andam…

E as marginais? Bem, esta mesma gente está eliminando, em uma velocidade espantosa e por um custo altíssimo, uma pequena faixa de árvores que existia na Marginal Tietê para criar mais faixas (seriam 3 de cada lado) que vai ajudar a “melhorar” o trânsito de São Paulo. O custo? R$ 1,3 bilhão de dólares para alguns quilometrôs de asfalto em linha reta (não tem necessidade de sapropriação), matar poucas árvores, enfeiar a cidade e seguir levando as margens do rio Tietê na direção errada…

Os especialistas da área apontam que este dinheiro (que é do Estados) seria muito melhor gasto em corredores de ônibus (quem faz estes é a Prefeitura, mas nada impediria uma parceria).

Para  onde São Paulo caminha na mão dessa gente?

PS: Nada contra regulação. A Lei Cidade Limpa é sensacional (mas se a Marta tivesse proposto algo assim seria acusada de tentar transformar São Paulo em uma “Havana”).  Começa a me incomodar o conjunto da obra e o que está por trás disso.

PS2: Eu quero uma cidade com mais transporte público, pedestres e bicicletas, mesmo sabendo que o carro é importante, mas que tenha opções. Uma cidade que permita a diversão e que as pessoas possam enfiar o pé na jaca em algum lugar que assim quiserem…E que tenha um parque e trem na beira de um rio limpo, ao invés de um tapete de asfalto ao lado de um esgoto! (e se você acha que o Tietê não pode piorar, conheça o Tamanduateí)

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