Novembro 27, 2009

Dinheiro que nasce em árvore

Parte I – Capital não é dinheiro mas é 110%

Não sei porque decide no blog fazer um rápido momento “escolinha” para explicar de forma muito básica duas coisas: capital e ganhos com arbitragem de juros. Na realidade eu sei porque. “Fascinado” com a quebra de Dubai e como os mercados finaceiros fazem dinheiro fácil, com conseqüências nada fáceis.
Primeiro, o famoso capital. Muita gente confunde capital com dinheiro. É importante notar que não é a mesma coisa. Todo o capital é de alguma forma “dinheiro”, mas nem todo dinheiro é capital. “Exprico”! Capital é o dinheiro (um termo melhor seria recurso) usado para gerar mais dinheiro. Digamos que você tem 10 reais e compra um ingresso para o cinema. Se sua intenção é usar esse bilhete e ver o filme, você tem dinheiro. S você comprou esse bilhete por 10 reais para revendê-lo como cambista por 12, você usou os 10 reais como capital: dinheiro com o objetivo de gerar mais dinheiro. Se a forma desse dinheiro gerar mais dinheiro é investir em uma indústria, é capital industrial. Se é através da compra venda de imóveis, é imobiliário. O capital financeiro é aquele gerido pelos bancos. Na prática as formas de capitais são mistas e se confundem umas com as outras (uma indústria mantém aplicações financeiras, um banco possui partes em indústrias ou/e pode basear seu capital em negócios imobiliários etc…).
Capital só é capital enquanto for dinheiro capaz de gerar mais dinheiro. Quando este dinheiro não é capaz de gerar mais dinheiro, mesmo sendo muito dinheiro, ele, enquanto capital, colapsa. Inclusive porque o crescimento da economia tem que dar conta dos juros cobrados pelas relações de investimento do capital (credor e devedor). Por isso que os índices de crescimento da economia ou da bolsa são tão importantes para ele, para seus mecanismos de reprodução. Por isso que para o ponto de vista financeiro (e por conseqüência do jornalismo econômico) um país com padrão de vida excelente como a França ou o Japão vai “mal” quando sua economia para de crescer. E a miserável Índia vai “bem” quando cresce a índices acelerados, mesmo que ainda esteja longe de oferecer aos seus cidadãos um padrão de vida comparado ao da França. Se para retomar os índices de crescimento econômico for necessário piorar o padrão de vida dos cidadão, é isso que a lógica do capital (e quem domina esse capital) vai demandar politicamente (costumam chamar isso de “reformas”).

Parte II – Ganhando dinheiro fácil

Uma tradução chula do conceito de especulação seria dizer que o capital é o único “animal” que se reproduz através da masturbação. Há várias formas de especulação, mas uma atualmente importante para os brasileiros é a arbitragem entre diferentes taxas de juro e tendências de câmbio entre países.
Rápida frase chata de contexto: a partir dos anos 1970 com o fim do padrão-ouro que permitiu maior flutuação entre as moedas de diferentes países e com os avanços da informatização do sistema financeiro, que possibilitaram rápidas movimentações de grandes somas de capital, surgiram possibilidades de ganhar muito, mas muuuito dinheiro simplesmente se aproveitando das diferentes condições de “pressão e temperatura” (câmbio e juros) entre diferentes moedas.
Explico com um exemplo atual. Os juros nos Estados Unidos estão quase em 0% (ou seja, na prática são negativos). Vamos dizer que um banco tome emprestado do governo americano, dentro de um programa de recuperação financeira, 10 dólares. A taxa básica dos juros no Brasil estão em 8,75% ao ano, ou seja, o governo brasileiro paga no mínimo isso pelo dinheiro emprestado para ele. Eu pego aqueles 10 dólares nos EUA a juros 0% e trago para o Brasil, onde eu converto para reais com uma taxa de câmbio de 2 reais por dólar. Eles viram 20 reais que eu empresto por um ano para o governo brasileiro. Depois de um ano o governo brasileiro me devolve esse dinheiro com juros e eu tenho R$ 21,75.
Como não só eu, mas muita gente aproveita essa mesma diferença de juros entre os Estados Unidos (ou outros países) e o Brasil, muito dólar entra na nossa economia. Isso faz com que, pelas leis da oferta e da procura, o real se torne mais valioso em relação ao dólar, que vai ficando cada vez mais banal e desnecessário para quem tem reais (já que está se desvalorizando então quem faz a troca perde dinheiro). Com isso digamos que o valor do dólar em reais, depois desse ano, tenha caído para 1,80 reais.
Quando meu dinheiro voltar do Brasil, eu vou transformá-lo de novo em dólar. Vou pegar meus 21,75 e comprar dólar a 1,80 com ele. Vou conseguir comprar 12,08 dólares, tendo um rendimento de 20% em um ano, parte dele pela diferença de juros, parte pela valorização cambial. Pago o empréstimo do governo americano e saio com 2 dólares. O que eu produzi no período? Nada. Agora imagine isso não com 10 dólares. Mas com bilhões…
Essa conta fecha? Essa tendência é sustentável? Afinal, ela tem que ser sustentada por alguém…olha ela até pode ser viável por um período… O risco é essa massa de reais que querem sair mais dólares (ou iens, ou euros…) do que entraram ir crescendo e crescendo, depois ficar com medo disso quebrar e querer toda sair ao mesmo tempo. Aí o país que viu tanto dólar entrar à 2,00 reais vai ter que dar um jeito de devolver para todos os investidores mais dólares do que entraram, ou, em um ambiente de câmbio livre, sua moeda vai desvalorizar e os investidores perderão o ganho com o câmbio. Em linhas bem simples foi o que aconteceu em 1999. Os investidores viram que não tinham mais como manter esses ganhos no Brasil e pularam fora, deixando o país e seu governo insolvente.
Mas como isso pode ser sustentado por um tempo, ainda que não seja sustentável por muito tempo? O governo e empresas podem ter “aplicado” esse dinheiro de forma a melhorar o desempenho da economia “real” e seu crescimento sustentar parte dessa rentabilidade. E há outras maneiras de obter dólares que dão segurança para essa ação financeira (como exportações maiores que importações) e o próprio dólar pode ser temporariamente uma moeda indesejada.
Quem “sustenta” esse negócio? São várias coisas. Algumas positivas, como inserção de mais consumidores no mercado pela melhora da sua renda ou ganhos tecnológicos e de produtividade derivado de melhor organização da produção. Os entusiastas do capitalismo chamam atenção para essas. Outras formas são os crescimentos dos rendimentos do capital em cima dos trabalhadores (críticos chamam de “mais-valia”. Capitalistas chamam isso de “produtividade”), a exportação de matéria-prima, as apropriações primitivas do capital, muitas delas a custa do meio ambiente ou do bem estar público (transformação de coisas sem valor para a economia, como árvores, em “valor”, como madeira, ou a descoberta de fontes de petróleo), a valorização dos imóveis (que tende a evoluir para um comportamento de bolha…) etc…Os críticos do sistema chamam atenção para essas. Na realidade, elas se misturam e se confudem.
Como a economia brasileira cresce, os juros aqui sempre foram muito altos e estão em níveis baixos historicamente (ainda que muito altos em comparação ao resto do mundo), população consumidora tem nível de endividamento também baixo e sua renda vem crescendo, como o Brasil tem muita matéria-prima que estão com preços elevados e uma balança comercial favorável, o país vai levando bem nesse jogo.
Até quando é sempre uma questão, mas com o pré-sal, os vários potenciais ainda não realizados do país etc…dá para entender porque de no meio da crise financeira mundial o Brasil, e não mais Dubai, é um oásis para quem faz o dinheiro “nascer em árvore”.

Novembro 25, 2009

Lula ganhou o jogo no campo do PSDB

Uma das maiores dificuldades do candidato do PSDB que o Serra escolher para o ano que vem (o próprio ou o Aécio se Serra achar que não tem chance), será a falta de discurso, apelo, apoios e projeto contra a candidata de Lula, Dilma Rousseff. Isso acontece por vários motivos, mas um deles talvez ainda tenha sido pouco falado: Lula dominou os critérios que o PSDB alardeava serem importantes para avaliar um governo.
Vejamos rapidamente:

- O Brasil atingiu o “nirvana” tucano: o “investment grade”

- Reduziu o risco país

- Aumentou as defesas contra crises financeiras internacionais.

- A Bolsa de Valores nacional e o tamanho e faturamento das principais empresas do país disparou

- Aumentou a proporção do comércio exterior em relação ao PIB

- Melhorou a relação entre exportações e importações da balança comercial

- Pagamos os empréstimos do FMI

- As reservas e mudança do perfil da dívida eliminaram a necessidade de financiamento anual em moeda estrangeira

- O país melhorou sua imagem no exterior (sendo o maior símbolo disso as Olimpíadas de 2016), aumentou sua importância no cenário internacional e influência regional.

Outro exemplo, a relação dívida/PIB estava em queda vertiginosa antes da crise financeira. Chegou a 38,8% em 2008. Ano que vem deve subir para 44% (tal relação subiu praticamente no mundo inteiro como conseqüência da crise. No Brasil, o aumento da dívida PIB foi relativamente baixo).
No ano 2000, pleno governo FHC, tal relação estava em alta constante e atingiu o pico de 55%. Em dezembro de 2001 estava em 53,36%. Sendo bastante justo, Armínio Fraga então previa muito bem que em 2010 a dívida/PIB chegaria a 35,9% mantida a sua linha macroeconomia, e caso houvesse crescimento do PIB e queda dos juros (como vinha acontecendo).
Isso significa, como dizem, que Lula, simplesmente “manteve a política de FHC”? Não é tão simples. Estou preparando cinco textos para expurgar o que penso sobre o passado, presente e futuro do Fla X Flu da política nacional: Lula do PT X FHC e Serra do PSDB. Mas resumindo, o governo Lula de fato manteve a linha macroeconômica desenhada por Armínio Fraga (faz diferença especificar) mas conseguiu isso sem executar o programa amargo que o PSDB dizia ser necessário para chegar a esse “paraíso” (sic). Vejamos:

- O governo executou apenas parcialmente a reforma da previdência do setor público. E não mudou a do setor privado para o modelo de contas individuais.

- O programa de privatizações foram paralisadas quase que completamente. Não houve nada da escala de uma Vale, Banespa, Sistema Telebrás, Embraer ou blocos de ações da Petrobrás. Ao contrário. O governo adquiriu empresas e reforçou a atuação, principalmente dos 3 bancos federais (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES)

- Não houve reforma trabalhista. Ao contrário, aumentou a fiscalização e formalização do mercado de trabalho

- Os sucessivos ganhos reais dos salários mínimos não causaram inflação ou desordem nas contas públicas

- Não precisamos abrir mais o mercado interno para produtos e serviços, com propunha a Alca ou a OMC, para termos maior acesos aos mercados e aumentarmos exportações. A China e a política de diversificação dos mercados se encarregaram disso

- O aumento de pessoas e salários no funcionalismo público em escala razoável não causou o caos. Acabou a precarização planejada de setores e instituições públicas como o sistema de universidades federais e várias autarquias. Está longe de ser o ideal, mas para vários setores foram feitos planos de carreira, concursos foram abertos etc…

Ou seja: O PT atingiu as bandeiras do PSDB ao mesmo tempo em que esvaziou o programa de ações do partido, superando-o. Isso sem falar de áreas em que o PSDB nem tinha tanto foco: ampliação do acesso ao crédito, distribuição de renda, habitação, Bolsa Família e ampliação da seguridade social, agricultura familiar, infra-estrutura (compare a efetividade do PAC com o “Avança Brasil” do FHC), cotas etc…
Como existiram ganhos consistentes e seguidos de renda em todas as classes sociais (e redução das classes mais baixas com crescimento da classe média) fica mais fácil entender a popularidade de Lula. Como o governo mantém uma prática de se relacionar com vários setores organizados, mesmo aqueles que tem conflito um com outro, usando partes diferentes da máquina do Estado para tanto (Exemplo: o Min. Da Agricultura defende o Agronegócio enquanto o do Desenvolvimento Agrário é próximo do MST e de entidades de agricultura família. Desenvolvimento-Fiesp; Trabalho-Centrais Sindicais) praticamente toda a sociedade civil sente que tem canais de relação e representação dentro do governo, que internaliza os conflitos (arbitrados pela figura “paternal”e singular do Lula). Não significa que todos esses setores apoiarão a candidato do Lula. Mas que tem pouca motivação para romper com o status quo e apoiar a oposição.
O PSDB mantém de forma automática o mesmo programa de “como”: as velhas reformas neoliberais que reduzem direitos, privatizações e abertura de mercado. Mas não consegue dizer para que precisamos fazer isso. Nem consegue explicar o porque de quando fazíamos isso a situação piorar cada vez mais. Não consegue sequer perceber, mesmo com Lula dizendo isso em entrevista, que toda uma geração de questões se esgotou, e são necessárias nova ambições, para um país com uma composição social diferente (longe dela ser suficientemente diferente).

O fato é que a candidatura do PSDB, principalmente se for Serra, sequer conseguiu ainda admitir a existência desse novo país e se relacionar simbolicamente com ele. A direção do PSDB já descobriu o problema. Mas ao entrar em campanha, vai ser difícil conter e afinar discurso com a extrema direita da elite conservadora, financista e midiática de São Paulo, antigos coronéis da política nordestina, e conservadores do Sul e Centro-Oeste, a base que sobrou para uma candidatura de oposição ao governo Lula.

Novembro 21, 2009

O futuro da música já é…

Aconteceu em São Paulo o Fórum de Cultura Digital, evento promovido pelo Ministério da Cultura para promover subsídios para as políticas públicas de Cultura Digital (Direitos Autorais, infra-estrutura, comuicação etc…).

O Forum tem plenárias temáticas e paralelo um seminário incrível sobre os temas discutidos, com vários dos pesquisadores nacionais e internacionais mais interessantes sobre esses temas.

Os seminários foram transmitidos pela web. http://www.ustream.tv/channel/culturadigital-br E esse vídeos ficam arquivados.

Vou colocar aqui no site o vídeo que eu fiz das partes II e III da incrível apresentação do Ronaldo Lemos sobre o novo modelo de negócio na música. Como o vídeo saiu um pouco tremido, se incomodar  sugiro abrir outra aba, navegar e só ouvir e ver no vídeo partes que te interessam (existem fotos e gráficos bem legais). Mas abaixo dele tem o link para o vídeo completo das palestras de todo o debate. Vale a pena para quem tiver mais tempo. As quatro primeiras apresentações valem muito a pena. A última, da Juliana Nolasco, da Coordenação da Economia de Cultura do Minc, sinceramente foi um pouco fraca em relação as outras, ela assumiu a coordenação faz pouco tempo. Os demais palestrantes:

. Daniel Granados (Producciones Doradas)
. Pablo Capilé (Circuito Fora do Eixo)

Ladislaw Dowbor (Economista e professor da PUC-SP)

PALESTRA RONALDO LEMOS – PARTE I

PALESTRA RONALDO LEMOS – PARTE II

DEBATE COMPLETO NO LINK ABAIXO

http://www.ustream.tv/recorded/2600559

Novembro 14, 2009

osgemeos e Plasticiens Volants no Anhangabaú

Peguei só o finzinho. Mas foi mágico.

 

 

 

Outubro 28, 2009

Novo acordo

Sinto que hoje minhas ideias não são mais tão agudas
E que acentos e traços marcantes que nos separavam
foram se apagando pelo caminho,
até estarmos juntos

Ainda que a crase siga sendo uma crise,
dirás, não trema!
e por isso, em relação à esta e à ti,
seguirei sempre tranqüilo

PS: Fiz esse poeminha despretencioso sobre a reforma ortográfica no começo do ano. Tem uns “sic” propositais nele…Pensei: por que não compartilhar?

Outubro 27, 2009

Há vida na luz

“Venha para a luz, venha para a luz”.
Eu não tenho muito que falar do grupo de teatro Ivo 60. Estão fazendo 10 anos, são amigos, são irmãos, é a minha irmã :) . E todas as vezes que eu os vi, eu vi coerência, arte, criatividade, ética, riso, crítica, autocrítica e tristeza tudo misturado assim na gente. Eu vi uma linguagem sofisticada e ao mesmo tempo o esforço de uma comunicação popular. Eu vi os “populares” se emocionarem, as crianças interferirem e tudo fluir e funcionar. Vi o tempo passar rápido e também profundo.
Tem um monte de coisa que eu entendo pouco, mas que eu sou chato e invocado de discutir (cinema, política, música, história…). Teatro não é uma delas, então essa é opinião de fã mesmo. Sinceríssima.
Sombras da Luz, nova peça do grupo, trata da vida que há, mas dizem que não há, no centro de São Paulo, mais precisamente na região do Parque da Luz. Histórias de solidão, rejeição, busca da felicidade e reinvenção onde São Paulo, uma cidade pesada, é ainda mais dura nas quedas. A história daqueles que dizem francamente “Eu sou um fracassado”. Ou daqueles que ainda assim, riem, lembram, cantam…
A peça foi construída em cima de entrevistas com esse pessoal que não aparece na Caras. Bem, nem em nenhuma outra revista. As frases são desconcertantes e o grupo não fica na marolinha. As verdades são muitas. E lá está a profundidade da cultura e da música popular no que tem de mais simples e dolorida, sempre ali, mesmo no riso.
Aí depois da peça um freqüentador do parque diz que gostou muito, que eles são engraçados, se bem que em um momento ele quase chorou, mas segurou as lágrimas…
A emoção ficou assim suspensa.
Como todo aquele mundo está. A Luz rebatizada de cracolândia é uma das “bola da vez”, bolas das vezes, da mesma história paulistana de sempre. Da música Saudosa Maloca, de Adoniram Barbosa; do livro Parceiros da Exclusão da Marina Fix; da Favela Real Parque entre estabelecimentos AAA; da cidade que sempre precisa empurrar para fora a vida, no que ela tem de tudo, no que ela tem o que este sistema tanto produz e chama de “indesejado”. Indivíduos “descartáveis” (ou  mais descartáveis do que a média) tirados de qualquer jeito para abrir caminho para “revitalizações” do mundo dos negócios sem vida ou da vida “negociada”…
Enfrente isso com vida de verdade. É um programão visitar a região. Pegar um sábado ou domingo e ir na Pinacoteca, ou no Museu da Língua Portuguesa, ou nos supermercados coreanos, ou só, só mesmo para ver, às 16 horas (quando a chuva permite), a peça do Ivo 60 no Parque da Luz. O Parque é lindo, e uma boa notícia é que ele está sendo muito bem cuidado, está limpinho e com o jardim tinindo. Para os seus freqüentadores. Os imigrantes bolivianos, os nordestinos, as prostitutas de terceira idade, os velhinhos improvisando sons inacreditáveis na rua, as crianças, a liberdade, o espaço público, o encontro. O Ivo 60 e seu teatro cheio de vida.
Ouça aquela vozinha que diz: “Venha para a Luz, venha para a Luz”.

sombras da luz

Outubro 24, 2009

São Paulo parece moderna…

Instigado por alguns cidadãos excelentes resolvi escrever sobre o Festival de Política da Trip, que aconteceu no último domingo, dia 18 de outubro. Parto de uma pergunta via twitter

@aloisiomilani: Pergunta boa: se o negócio é para os jovens, qual o conceito de política que eles (Gabeira e Luiz Felipe D’Ávila) passaram?

Não vi o festival inteiro. Só vi o debate “principal” com o deputado pelo PaVê Fernando Gabeira, o publisher (odeio esta palavra) Luiz Felipe D´Ávila, fundador das revistas República e Bravo e que trabalhou na campanha do Fernando Henrique Cardoso, e Ronaldo Lemos, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas especializado, para reduzir bastante o que ele faz, em propriedade intelectual e cultura livre. E para os meus ouvidos, e apesar do Ronaldo e da boa mediação o debate foi de doer pela sua substância e digamos assim, “contexto”…Mas o que pode ter rolado de legal ou não em outros horários, não sei. Parece que a Verônica Kroll foi provocadora. Que deve ser o melhor possível a se fazer nessas situações. Jogar umas provocações e deixar todo mundo refletindo, fora do seu lugarzinho confortável de falso bem intencionado, ou pretensa ingenuidade.

Enfim, todo mundo tem direito a organizar e falar o que quiser, toda movimentação é legal em princípio, viva a democracia, e é isso aí galera, gente jovem e bonita falando de política, com área vip e hostess…

Do debate que vi, e respondendo a sua pergunta, foi um conceito de política bem raso (o que é meio normal, já que o evento era mesmo “pop/juvenil”) e institucional.

Foi quase que só focado na questão do voto (deve ter tido bastante ONG em outros momentos). E tratou a Internet como um “bezerro de ouro” da renovação da política. Lógico que a internet é importante politicamente. Fiz meu trabalho de conclusão de curso sobre isso, e seria o único tema pelo qual faria mestrado. Mas ouvir o Gabeira dizer que quase se elegeu governador do Rio graças a Internet (quando teve o apoio massivo dos veículos das Organizações Globo) é de doer.

O Gabeira tem muita história. Mas falar que existe um pequeno grupo de cidadãos conscientes graças a imprensa (ele está falando de Veja? Folha? Globo?) e uma massa sem consciência (não sei as palavras, mas era nitidamente a ideia) que “trocaria” votos por favores político é beirar a desqualificação da democracia…uma espécie de “brasileiro não sabe votar”. Sinceramente? Acho que são muito mais conscientes politicamente os 80% que aprovam o governo Lula porque viram sua vida e a vida das pessoas ao redor melhorar do que aqueles que odeiam o governo baseado no que leram na Veja…

O Ronaldo Lemos foi mais OK, mas bem coxinha, sem provocar, sabe? Ele fez cutucadas sutis na área de cultura, quando mostrou que mesmo com a internet longe de atingir toda a população, artistas que as elites desconhecem tem muito mais “view” que gente “estabelecida”, do esquema tradicional como Maria Rita. Ou seja, que o gosto A e B dos grandes centros é muito pequeno diante desse “país” que ganha visibilidade online com a emergência das classes C e D. Essa é uma questão fundamental, que desafia a esquerda e direita tradicional do país e sua própria compreensão. Mas ele não extrapolou isso para a política.

Já o Luiz Felipe D´Ávila é um achado! Figuraça! Bem apessoado, rico de berço, cientista político raso como um pires, alinhadinho, bem sucedido e aparentemente bem intencionado, Fernando Henrique até o osso é o estereótipo do tucano, que parece acreditar mesmo naquele besteirol todo sabe…Teve passagens antológicas. Por exemplo, ele disse que tem dois tipos de políticos: os que fortalecem as instituições e os que querem usá-las para se fortalecer. Nitidamente, e pelo campo que atua, ele deve achar que Fernando Henrique Cardoso faz parte do primeiro grupo e Lula do segundo. O fato do FHC ter feito a barbaridade de passar uma lei em benefício próprio, enquanto estava no poder e usando corrupção como meio, dando o direito de se reeleger, enquanto o Lula sempre barrou as iniciativas de outros para um terceiro mandato deve escapar a ele completamente nessa sua reflexão…

Mas o melhor veio na resposta de uma excelente pergunta do Fernando Luna, que mediava o debate. Ele questionou o que o D´Ávila, como representante da elite, achava da atuação política desse setor. Ele disse que a elite já foi mais atuante na política, citando com saudosismo a época do império, onde a participação política era vista como condição de ser cidadão. E disse que a elite foi se afastando da política, se voltando mais para curtir “o próprio sucesso” e que por isso hoje temos “essa elite política aí”. E que a elite devia voltar mais a participar da política, não só a elite econômica como “a cultural, a intelectual etc…”. Foi aplaudido por essa fala. Eu não entendo como alguém que estudou ciências políticas pode citar o Brasil do Império, uma sociedade escravocrata, com algum tipo de saudosismo que não seja pela chance de bater um papo com o Machado de Assis…Para minha visão de país, e para onde eu quero que ele vá, uma fala dessa é um ultraje. Por que quem eram os “não-cidadão” na época? O lugar da elite era o poder, era onde deviam estar, então onde estavam os outros? E o lugar dos negros então? Não digo que ele é racista. Ele simplesmente não consegue fazer esta reflexão. E idealiza o império como tendo essa qualidade. É uma leitura histórica de merda que se transforma em uma reflexão de merda, e uma fala de bosta. Ele não consegue perceber o próprio conservadorismo e opressão, em uma bela homenagem ao conceito de “consciência de classe”. Fala sério…

Ficou o tempo todo citando os Estados Unidos, “Marquinhos style”. Claro que a democracia norte-americana tem coisas legais, tem muito a se aprender com ela. Mas ficar idealizando, exemplo de “primeiro mundo”…parece que a gente não viu eles serem governados por 8 anos pelo herdeiro inepto de uma oligarquia política texana conservadora, trapaceira e mentirosa que deve nada aos Sarney (o Grande Satã do debate, o que não é injusto,mas esclarece pouco). Ou que a gente está saindo de uma crise enquanto eles estão se afundando nela. Ou que eles são incapazes de estabelecer o princípio de saúde universal na sociedade deles.

É legal ver alguém como ele falar, a gente não tem muita chance disso, até para não perder tempo demais na vida. Como o cara lê exemplos de outros países, como ele lê a história do país….A coisa que ele mais defendeu como solução foi voto distrital. Claro, voto distrital (sem o voto misto) recria a lógica das eleições majoritárias no legislativo, derruba o voto ideológico e o das minorias ou setores sindicais e reforça a lógica do poder econômico em disputas de currais. Mas enfim…Aos finalmente.

O debate que eu vi não foi nada inovador (não que esperasse que fosse). Ao contrário, focado bastante em política institucional-eleitoral, o tempo inteiro me pareceu permeado do típico rancor anti-Lula que assola a parte “nobre” de São Paulo e o entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas, com o qual, sorry anti-periferia, não consigo compartilhar. Até porque o rancor é justamente porque Lula mandou bem exatamente naquilo que lhes interessa (crescimento econômico, controle dos movimentos sociais, imagem do Brasil no exterior etc…) Deve ser isso que mais “irrita”. Ele ganhou no jogo da direita, nos critérios que eles inventaram.

Falou-se muito em “indignação”, em “corrupção”, em “moralizar”. Parecia que fora do Studio SP reinava o caos e as manifestações de rua contra este governo “odiado”. Teve muita ironia, indireta e diminuição do Lula, na linha “pegou tudo pronto pelo FHC” (parece que o país em 2002 estava uma maravilha…).

Então a análise do “lá fora” era uma coleção de chavões. Não parecia que estamos em um dos países que está enfrentando melhor a crise econômica mundial, ou que tem um dos presidentes mais populares, talvez o mais popular, do mundo, tudo isso com liberdade de imprensa, oposição, associação etc…

Quem eram as pessoas ali? Quem e o que representam? Do que elas estão reclamando?

Já que estamos falando em política, quais as causas concretas? As questões urgentes? As reivindicações?

Não que o Brasil não tenha problemas. Tem um monte. Mas quem reclamava ali quer a solução deles? Tem coragem de resolver isso? Essa é a causa política da molecada bem nascida e daqueles senhores que a “introduziam” na política do palco?

Sinceramente…As pessoas ali, as que estavam ali, estavam para reclamar do que mesmo?

Que país eles querem? Mas que país eles querem mesmo? A vida de carrão, dinheiro, empregados, fim-de-semana no litoral norte e viagens para a Europa não é boa o suficiente?

Ficou uma coisa bastante vaga, fora a revolta contra a “corrupção” (genérica ou encarnada no José Sarney), a necessidade de “moralizar” e clamores de crescente “indignação”. Olha, este comportamento na política brasileira não é nada novo e tem até nome. Chama-se udenismo, e é um show de conservadorismo, para que tudo permaneça como está. Porque a classe média e alta brasileira não tem vergonha na cara de admitir que vive bem paca no Brasil (com a questão da segurança sendo a nuvem nesse céu de brigadeiro). E que quando as coisas ficarem mais iguais por aqui, não vai dar para bancar este vidão, porque não vai ter empregada e a casa na praia vai ficar cara, e talvez você tenha que lavar a própria roupa e fazer faxina da própria casa…

É, estou generalizando, eu sei, mas para mim, o trecho e o clima que vi foi “vintage”: Udenismo e 32. Sabe, a trilha sonora “jovem” perfeita para o evento não tem nada a ver com o “Fight the Power” do Public Enemy que o Instituto tocou. Não precisavam ir longe não. É uma música do Tatá Aeroplano, que discotecou no evento. Chama “Pareço Moderno”. A letra acerta para esse tipinho tão paulistano, moderno na superfíce, as vezes até nos costumes, mas FPP no família, propriedade e política.

Outubro 11, 2009

O cinema é o campo da batalha

Samuel Fuller disse que o cinema é como um campo de batalha. Em Bastardos Inglórios o cinema é o campo de batalha. É no cinema que se trava a Segunda Guerra Mundial. Não é só a história de ação do filme que acontece dentro de um cinema. A história do cinema está dentro da ação do filme. E todo este subtexto, este prazer e paixão pelo cinema, esta reflexão incrível é também um filme divertido e inteligente que passa rápido e de forma emocionante, inclusive para quem não sabe nada disso…

(Aviso de “spoilers” adiante…)

A batalha entre o projeto de Goebbels e Holywood, o que ambos tinham de cinema de propaganda, a cinefilia francesa, a relação entre os judeus e o cinema…Tarantino mistura um caldeirão infinito de referências cinematográficas e conhecimento prático e teórico sobre cinema. Não é só que ele viu muito filme, de todos os tipos e lugares. Ele estudou e discutiu horrores. E atualmente ele sabe misturar tudo isso em níveis que fazem seus próprios filmes mais antigos, como Pulp Fiction, parecerem brincadeira de criança (e deve ser por isso que os modernos agora seguem Michel Gondry). Eu tenho que agradecer a Paula, minha irmã, por notar isso: “Tarantino” assina “ele mesmo” o filme, dizendo assim: “Acho que esta é minha obra-prima”. É como aquela história de que Michelangelo, quando terminou Moisés, deu uma martelada e disse “Parla”…(e eu me divirto horrores fazendo essa comparação profana!)

Tem muito que poderia ser escrito sobre esse filme. A discussão aqui não é ganhar premiozinho, é quando ele vai fazer parte da lista dos 10 mais de todos os tempos. Mas ele está aí para ser visto. Vejam. Tem para todos. Para quem se diverte, para quem gosta de ação e suspense, e vai ver um filme sobre a Segunda Guerra diferente de tudo que você já viu, e para quem ama cinema, suas reflexões, seus truques, a complexidade dessa arte.

Muito também foi dito sobre a relação do filme com a história. Vale chamar a atenção para algo interessante: Tarantino também fez um filme sobre como, de fato, o cinema foi a arma de vingança dos judeus contra Hitler. Prestem atenção: não no filme, mas na História. “O que os livros de história dirão?” pergunta o vilão Hans Landa, genialmente interpretado por Cristoph Waltz. Como declarou Eli Roth, ator no filme e diretor do “filme dentro do filme” sobre o atirador, ele, como judeu, sempre sonhou em se vingar de Hitler, mas jamais teria a coragem de fazer um filme assim. Um “ultraje” libertário e libertador, como Chaplin em “O grande ditador”. Tarantino cruza fronteiras e simplesmente “exorciza” o nazismo. A vingança é a história (“isso ficará sempre marcado”) e a história é, em muito, cinema. A vitória no cinema também é a vitória na guerra. Preste atenção no nome da tese do “soldado/crítico” inglês.

Enfim…Para rir, suar, se embasbacar. De tirar o fôlego e as palavras…Mas eu não sei calar a boca :)

Outras anotações

O que dizer da principal arma do vilão do filme ser seu domínio da linguagem? E da “arma” final ser filme, em si, na tela e como objeto?

Deixa eu entregar uma coisa: quão genial e delicado é a história de amor entre a loira e o negro, que nenhum personagem no filme consegue notar ou sequer conceber? Eles que partem para fazer seu filme “novelle vague”. Quando eles se beijam, escondidos, na sala de cinema, é importante lembrar que “então” não haviam beijos entre negros e brancos nas telas de cinema. E que até hoje retratar esses romances ainda tem muito de provocação.

Outra: Quando Shoshana foge, o enquandramento dela sendo vista de dentro da sala? Homenagem ao final de Rastros de Ódio do John Ford. Deve ter uns 2 milhões de coisas assim no filme…(eu já achei no youtube, mas tiraram, em um filme oriental da década de 70 ,o chão de vidro da batalha de espadas Kill Bill Vol. I). Por exemplo, o cachimbo ridículo de Landa: referência a Sherlock Holmes.

Outra: preste atenção nos closes do strudel. Eles são propositadamente artificiais, “quebram” a cena. O filme é cheio de jogos e recursos para lembrar que aquilo É CINEMA…(é Brecht) e isso que torna a discussão sobre a “violência” do filme bobagem. Toda a violência se dá em um território que não existe, em um contexto onde ela é justificada – “nazistas não tem humanidade” – e  Tarantino basicamente destrói essa questão nessa entrevista sobre como Kill Bill deveria ser assistido por meninas com mais de 12 naos – vida é vida, filme é filme! E filme é tão mais “verdade”, e só pode ser “verdade”, por conta disso (e esse são os mesmos princípios, rompidos, que fazem de Tropa de Elite um filme escroto e mau caráter).

E os diálogos com vários níveis, quase sempre jogos de xadrez? Sempre sabemos que os personagens “jogam” em cena, há camadas no que eles dizem, alguém está sempre interpretando um papel, conduzindo uma conversa, ou escondendo algo…Sempre há tensão. Tarantino realmente compõem partidas de xadrez de linguagem uma após a outra…Ela é a verdadeira arma, que salva ou trai um personagem (até a linguagem das mãos entra em jogo). Sequência mais sequência genial como a dos “sicilianos”. Como ele mesmo sabe, o nível dele de roteiro, que já era absurdo, subiu ainda mais.

E a decupagem, a composição das cenas, os movimentos de câmera…

E os ossos jogados para os cinéfilos, que fazem parte da história…Como a fala que é errado comparar Goebbels com Louis B. Mayer, que ele veria a si mesmo mais como um David O. Selznick…

Enfim. Chega. Vale a pena colocar esta lista abaixo dele, com seus 20 filmes preferidos desde 1992, quando se tornou um diretor (vídeo em inglês). O ecletismo da lista é lindo, tem desde Speed até Dogville, para ele um dos melhores roteiros já escritos. E o comentário dele sobre Matrix, que certamente é compartilhado pela torcida do Flamengo, consciente ou incoscientemente, é ótimo!

E um link para a entrevista dele (em francês) para a Cahiers du Cinema. E outro para o roteiro do filme vazado na internet. Dá para ver que houve muitos cortes, que tornaram o filme mais aberto, direto e enxuto.

PS: Dane-se o que o filme não é! É um saco as pessoas julgarem obras de arte pelo que elas não são. “Pô, 2001 deveria ter mais diálogos….” devem dizer esses manés! Acho sensacional ele enganar o público com Brad Pitt e um trailer colocando como principal o segundo tema do filme e entregar algo muito melhor! Uma coisa é informar isso, tudo bem, mas fora críticos de cinema “Procon”…(ainda mais em blog, o mané se preocupar com uma coisa dessas…). Não são “dois filmes em um”, como li em tantos lugares. Que besteira…Eu entendo que jornalistas talvez achem mais fácil explicar assim para um público que subestimam, no que podem ou não ter razão, mas o que me dá pânico é imaginar que tem jornalista sobre cinema em grandes veículos que realmente acredita nisso…

Outubro 10, 2009

Esperando Tarantino

Hoje estreou Bastardos Inglórios o novo filme do Quentin Tarantino.

Vou assisti-lo amanhã. Este texto é só para compartilhar o prazer da ansiedade e a admiração por Tarantino.

Sim, eu, como todo mundo, já deduzi o “final” do filme. E sim, eu tenho certeza de que vai ser uma obra-prima, e isso é estranho.  Eu sei pelas pessoas que falaram bem do filme. Quase mais do que isso, eu sei pelas que falaram mal.

Tarantino surgiu como um ícone primeiro dos cinéfilos (“Cães de Aluguel”) depois dos modernosos (Pulp Fiction). Na mesma “vala comum” de Spyke Jonze e Michel Gondry. Mas cresceu. Naquela onde maneirismo e talento se confundem, onde uma boa obra se confunde com um projeto de cinema. Ao longo dos anos Tarantino foi se diferenciando. Os modernos não acompanham mais sua obra do mesmo jeito. Ganharam novos “darlings”. E Tarantino foi jogar em outra liga. Começou a escrever seu nome entre os monstros, os mestres de todos os tempos do cinema. Exatamente onde ele quer estar.

Roger Avary e Robert Rodriguez, seus amigos e parceiros, foram ficando para trás ou meio assim de lado. Ele teve seus “contratempos”: Jackie Brown que só é um fracasso pelos altos padrões que ele mesmo estabeleceu; Assassinos por Natureza, roteiro assassinado por Oliver Stone.

Mas aí ele veio com Kill Bill…Saí do primeiro filme revoltado. Discuti muito. Como alguém com tanto talento podia desperdiçá-lo em puro estilo e virtusiosmo cinematográfico. Isso me revoltava. Rapaz tolo…Veio a segunda parte daquilo que é um filme só (que foi desmenbrado). Ele dá o sentido e recupera a primeira, que já era brilhante…Quando todos vão esperando novo show de coreografia, que o filme de novo se resolva em artes marciais, no segundo tudo é supresa, superação interna, fábulas, até o clímax de um filme de luta ser…Um looongo e maravilhoso diálogo entre os personagens de Uma Thurman e David Carradine. E eu pude delirar em paz com os malabarismos, show de imagem e controle cênico que ele tem. É técnica, é estilo e é conteúdo e uma profunda reflexão sobre cinema e a vida (sim, mesmo que não lhe pareça…)

Depois veio Deathproof…Que pouca gente viu porque ele casou o filme com a porcaria do Robert Rodriguez…Uma “pequena” obra-prima, desde o movimento de câmera da sequência de abertura, aos diálogos (das meninas, do delegado com sue filho), a atuação, ao enredo em dois atos…ao jogo com a película…

Cada dia mais Tarantino parece um Kubrick, mas simpático e festeiroao invês do gênio ermitão, racional e enxadrista de “2001″. Ou um Godard compreensível. Ou um Orson Welles organizado, capaz de gerenciar sua carreira e não se perder na genialidade e boemia. Ou um Scorcese capaz de mixar todo o conhecimento de diferentes cinematografias e estilos só que dentro do mesmo filme e ainda rir de tanto conhecimento cinéfilo. A ambição de Tarantino está nesse nível. Até onde isso pode ir chega a ser assustador.

E amanhã, para mim, tem Bastardos Inglórios. Onde ele está agora. O surreal do Tarantino é o conhecimento de cinema e a auto-consciência sobre seu trabalho. Ele dizer que finalmente conseguiu escrever uma cena no nível da que ele considera sua melhor como roteirista, esta obra prima aqui embaixo (bem feita por Tony Scott, mas escondida em um filme que não a merece, viva o Youtube! :) deixa a espera ainda mais doce.

Outubro 7, 2009

Um filme tão próximo

Assisti Quanto dura o amor? de Roberto Moreira, no HSBC Belas Artes. Se a exibição não teve problemas, porque importaria onde assisti? Porque a fachada do cinema aparece toda a hora na tela, já que os personagens moram no prédio que fica do outro lado da rua, na esquina da Av. Paulista com a Consolação.

Isso é uma das coisas legais do filme. Ele é muito, muito próximo. Ao menos de quem vive, trabalha ou frequenta a noite da região da Paulista/Augusta. O que em São Paulo não é pouca gente. E ironicamente (ou de forma inteligente), é onde mais tem cinemas que passam filmes nacionais…E provalmente um universo muito próximo de quem faz cinema. Como em “Santiago”, um pouco de auto-retrato é bom, tende a ser mais sincero e profundo (até hoje acho “Linha de Passe” um filme complacente de rico sobre pobre, apesar de muita gente boa discordar).

É  um filme que tem um mérito de não querer explicar tudo, de ter um foco e tom claro. Escrevi primeiro que ele era “despretencioso” mas este termo não é o correto. Ele tem ambições e boas. O filme é rigoroso e cuidadoso e tem um objetivo estrito de criar uma história próxima daquele universo bem demarcado. Pobre (rico) município de Paulínia, que gasta uma grana para ser o começo do filme, apenas para servir de mero contraponto incial e motivo de uma bela abertura que retrata como é ao mesmo tempo assutador e fascinante chegar em São Paulo, cidade que vai deslumbrar, apaixonar, maltratar e amadurecer a protagonista,uma jovem aspirante a atriz.

Para isso o rigor com o espaço da cidade, que pode parecer preciocismo, serve de recurso para o filme, quase todo em externas. Aqueles personagens circulam e interagem naqueles poucos e intensos quarteirões de prédios que não se sabe se estão se recuperando ou ficando mais decadentes, casas noturnas, puteiros, e onde quase todos são e não são atrizes, músicos e escritores…Mas que as cobranças de grana e moralismos estão sempre a um passo e o que parece a coisa mais careta do mundo pode esconder histórias de vida surpreendentes.

Danni Carlos pode estar um pouco forçada e não muito convincente como uma sedutora espécie de cover de Amy Winehouse (que realmente existe na região, e sei lá porque não foi a própria…), mas é pouca coisa fora para um filme com atuações e escolha de atores excelentes. Diante do personagem de Paulo Vilhena por exemplo, não é possível que quem conheça a região não lembre de alguma pessoa.

O filme me surpreendeu, esperava bem menos. É curto, passa rápido e é tão próximo que é até estranho comentá-lo, nitidamente não dá para se sentir “objetivo”…O que já é bastante, não? Convencer e envolver assim…A característica “solidão aglomerada” de São Paulo, nas palavras de Tom Zé, está lá. De passar tanta força como um espelho da cidade, desse seu momento, dessa cena que tanto quer ser alternativa que consegue por breves períodos da vida…Das relações tão fáceis de se quebrar por aqui. Da dureza e do jeito entre tímido e sem jeito ou subitamente selvagem “vamos direto ao assunto” do paulistano, vale muito a pena ir ver esse filme.  E na saída do cinema procurar do outro lado da rua para ver se os personagens não estão fumando na sacada do prédio em frente…

PS: O trailer abaixo. Aviso que acho que ele não faz jus ao filme, que é bem mais legal do que o trailer faz parecer…